Estreada em outubro de 2001, trama de Gloria Perez uniu romance, cultura árabe, clonagem humana e dependência química e permanece entre as produções mais lembradas da televisão brasileira
Com 221 capítulos, “O Clone” acompanhou a história de Jade e Lucas entre o Brasil e o Marrocos e construiu uma narrativa que transitava entre o romance, os conflitos familiares e questões que ainda despertavam debates na época. Ao longo da exibição, personagens e expressões da trama ultrapassaram a televisão e passaram a fazer parte da memória do público.
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Uma novela que chegou em um momento delicado
Há novelas que fazem sucesso durante o período em que estão no ar e outras que continuam sendo lembradas décadas depois. “O Clone” pertence à segunda categoria. Estreada em 1º de outubro de 2001, a novela de Gloria Perez completa 25 anos em 2026 como uma das produções mais marcantes da teledramaturgia brasileira. A história de Jade (Giovanna Antonelli) e Lucas (Murilo Benício), separados pelas diferenças culturais e religiosas, dividia espaço com discussões sobre clonagem humana, dependência química, ética, tradição e modernidade. Segundo o Memória Globo, a produção apresentou uma mistura de romance, ficção científica e questões sociais que ajudou a transformá-la em um fenômeno de audiência e repercussão.
A novela estreou poucas semanas depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, em um momento particularmente delicado para uma produção que colocava a cultura muçulmana no centro de sua narrativa. Em vez de abandonar a proposta, a equipe aprofundou a preparação do elenco para representar os costumes retratados na história. A trama apresentou ao público brasileiro elementos da cultura árabe, como roupas, dança, culinária, relações familiares e expressões religiosas, enquanto acompanhava o romance entre Jade e Lucas. A própria Gloria Perez explicou posteriormente que queria trabalhar a beleza e a diversidade daquela cultura sem deixar de abordar questões humanas e contemporâneas.

A clonagem como ponto de partida
A autora também encontrou na ciência o ponto de partida para outra parte fundamental da história. A ideia surgiu depois da repercussão da clonagem da ovelha Dolly, em 1996. Gloria Perez contou ao Gshow que passou a pensar no que aconteceria caso fosse possível clonar um ser humano e quais seriam os problemas de identidade enfrentados por alguém que fosse geneticamente idêntico a outra pessoa.
“Se era possível clonar uma ovelha, em tese, seria possível também clonar um ser humano”, explicou. Para ela, a experiência servia como ponto de partida para discutir questões éticas e filosóficas.
A ficção científica ganhou rosto por meio de Albieri, interpretado por Juca de Oliveira, enquanto a história de amor ganhou dois de seus personagens mais lembrados: Jade e Lucas. Murilo Benício ainda precisou interpretar três personagens na produção: Lucas, Diogo e Léo, um desafio que tornou sua participação ainda mais complexa. O próprio Memória Globo registra Murilo nos três papéis.
Em entrevista ao Gshow, o ator relembrou as gravações realizadas no Marrocos e contou que o calor dificultava até o funcionamento das câmeras.
“Nunca estive num lugar tão quente na vida”, afirmou.
Apesar das dificuldades, Benício guarda uma lembrança positiva daquele período e resume a importância da produção dizendo que O Clone “marcou bastante uma época”. O ator também contou que ainda encontra pessoas que dizem ter começado a assistir a novelas por causa da trama.

Jade e Lucas: um romance que marcou uma geração
Giovanna Antonelli, por sua vez, encontrou em Jade um dos personagens que definiram sua carreira. Em entrevista ao Gshow, a atriz classificou a novela como “uma grande oportunidade” que agarrou e à qual se entregou completamente. Ela também destacou a experiência de gravar no Marrocos e descreveu o país como um lugar de cultura rica e história. Anos depois, ao falar sobre o impacto da produção, Giovanna resumiu: “Impressionante o poder que as novelas têm. O impacto que causam diretamente na vida das pessoas. Essa então, que roda pelo mundo até hoje, nem se fala!”.
A química entre Giovanna e Murilo também ultrapassou a ficção. Durante as gravações, os dois começaram um relacionamento, mas a proximidade entre os atores produzia uma situação curiosa nos bastidores: eles tinham dificuldade para manter a seriedade durante as cenas românticas.
Em participação no “Altas Horas”, Giovanna revelou que uma das cenas mais famosas de Jade e Lucas precisou ser gravada sem que ela olhasse diretamente para Murilo.
“Aquela cena icônica em que o véu verde cai eu fiz para um durex! A gente não conseguia parar de rir”, contou.
Murilo explicou que eles chegavam a colocar uma fita na parede para que Giovanna olhasse para ela enquanto ele dizia o texto.
Mel e a discussão sobre dependência química
Mas reduzir O Clone ao romance de Jade e Lucas seria ignorar justamente um dos motivos que fizeram a novela permanecer relevante. A produção também acompanhou a trajetória de Mel, personagem de Débora Falabella, em uma abordagem sobre dependência química que ganhou grande repercussão. A novela mostrou a aproximação da personagem com as drogas, as consequências para sua família e o processo de enfrentamento da dependência, levando o assunto para dentro de uma trama de horário nobre.
A produção chegou a utilizar depoimentos reais de usuários em sua campanha de conscientização, ampliando a discussão para além da ficção.
Dona Jura e o bordão que ficou para a história
O humor também encontrou espaço na história por meio de personagens como Dona Jura, interpretada por Solange Couto. O bar da personagem se transformou em um dos pontos mais conhecidos da novela e o bordão “Não é brinquedo, não” ultrapassou os limites da trama. O Memória Globo registra que o espaço se tornou ponto de encontro dos moradores de São Cristóvão e chegou a receber participações de personalidades.
Anos depois, Solange continuava sendo reconhecida pela personagem. Em entrevista ao “Encontro”, a atriz contou que, ao receber o papel, queria que Dona Jura tivesse mais destaque.
“Eu queria um trabalho maior. Quando eu pedi isso, Papai do Céu colocou o ‘Não é brinquedo, não’ na minha boca”, contou.
Segundo Solange, a personagem inicialmente era pequena, mas foi ganhando espaço ao longo da novela.
Quando a novela saiu da televisão
O sucesso também apareceu nas palavras e expressões que passaram a fazer parte do cotidiano dos brasileiros. Termos como “Maktub” e “Inshallah”, além dos bordões dos personagens, ficaram associados à novela e ajudaram a criar uma identidade própria para a produção. O Memória Globo registra que expressões árabes faladas pelos personagens ganharam as ruas durante a exibição, entre elas “Maktub”, “Inshalá” e “Haram”.
Não era apenas uma história de amor exibida diariamente: elementos da trama passaram a circular fora da televisão e foram incorporados à memória popular.
Essa repercussão também ultrapassou as fronteiras brasileiras. “O Clone” foi vendida para mais de 90 países e ganhou reconhecimento em diferentes mercados. Letícia Sabatella, que interpretou Latiffa, contou em entrevista que chegou a ser reconhecida nas ruas da Rússia e encontrou pessoas que aprenderam português por causa da novela. O relato ajuda a dimensionar o alcance de uma produção que conseguiu levar personagens, expressões e referências culturais brasileiras para diferentes partes do mundo.
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25 anos depois
Vinte e cinco anos depois, a novela continua sendo revisitada não apenas pelas reprises, mas também pelos próprios atores e pelo público. Murilo Benício ainda fala sobre as gravações e sobre o impacto da produção; Giovanna Antonelli continua sendo associada a Jade; e personagens como Dona Jura permanecem reconhecíveis mesmo para quem nasceu anos depois da estreia. Em 2024, por exemplo, Giovanna voltou a comentar uma cena romântica da novela e brincou com o fato de o filho Pietro ter acompanhado a reprise quando era criança.
O que explica essa permanência é justamente a quantidade de assuntos reunidos em uma mesma história. “O Clone” tinha um grande romance, mas também discutia ciência, religião, diferenças culturais, dependência química, conflitos familiares e identidade. Tinha o Marrocos e São Cristóvão, o drama de Jade e Lucas e o humor de Dona Jura, a ficção científica de Albieri e os conflitos de Mel. Cada núcleo encontrava uma maneira diferente de conversar com o público.
Ao completar 25 anos, “O Clone” permanece como um exemplo de como a teledramaturgia pode transformar assuntos complexos em histórias populares. A novela terminou em 2002, mas seus personagens, bordões, músicas e discussões continuam sendo revisitados. Essa é a verdadeira força de “O Clone”: 25 anos depois da estreia, ainda existe muito para lembrar, discutir e descobrir em uma história que conseguiu transformar o romance entre duas pessoas em uma porta de entrada para falar sobre ciência, cultura, família e os dilemas de uma sociedade em transformação.
Imagem destacada: Divulgação/TV Globo


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