Última Parte

“É engraçado”, começou Pandora, falando bem devagar, segundo meu tio enquanto se recordava, “que as pessoas que acham meu chalé sempre estão relutantes quanto às próprias histórias. Elas vêm aqui, ouvem, conversam, ou mais comem do que conversam que foi o seu caso, e nunca têm algo a dizer sobre si. As pessoas escondem seus maiores segredos em outras ações, em outras palavras, nem sempre no silêncio, e você, com tantas palavras e gestos e jeitos sempre escondeu essa dor no peito, esse amor trágico.

“Ao ouvir sua história, agora no final, eu entendi porque Guapuruvu falou sobre Píramo e Tisbe, ou porque Figueira debateu com você a ideia de amor trágico. Na verdade, eu até entendo porque Ubuntu tocou aquela música… por toda essa noite de chuva você ouviu o lento sussurrar das árvores te dizer exatamente aquilo que sabia, mas só agora parou para prestar atenção nas palavras. A flauta era só a trilha sonora, o acompanhamento, para a música que te cantavam lentamente, em forma de prosa. Você passou semanas na mata correndo de si mesmo, correndo daquilo que achava e daquilo que era, acreditando que, sozinho, a natureza desfaria sua identidade só porque não haveria quem te reconhecesse ali, em meio ao mato, pedras, rios e céu. Mas você se enganou, Joaquim, porque não importa o quanto tente fugir do mundo, não importa o quanto tente reduzir sua vida a um primitivismo básico e reflexivo, solitário, o mundo sempre vai te acompanhar, não importa onde. São seus olhos que fazem o mundo, não é o mundo que faz seus olhos.

“Todo esse seu dilema, toda essa sua luta com esse monstro interno, esse segredo, essa sua moral que não te permite ver algo errado e ficar sem falar, essa sua vontade de permanecer justo e seguir uma vida de acordo com um ideal mais elevado, isso é o que te consome, não o que você fez, faz ou fará. Sua mente só não descansa porque é na sua noção de mente e descanso e em como alcançar isso que está o problema. O que você ama não é a mulher, mas a sensação de saber que ama uma mulher e quer lutar por ela, porque essa sua noção cavalheiresca de que há uma mulher pela qual pode lutar te dá, de certa forma, a vontade que precisa para seguir pensando nela, e em si mesmo como uma pessoa melhor. Por fim, você não ama a mulher, mas a razão pela qual ama ela, é isso que te atrai, o potencial que tem para mudar diante de uma pessoa. Mas não pense que eu digo isso de maneira negativa, não é nem um pouco isso, meu rapaz, na verdade, é bem comum o que sente, seria estranho se, na verdade, você amasse a mulher, e não o seu próprio sentimento, esses sim são raros os casos e eles eu questiono, pois uma pessoa que faz tudo por amor se acha além do bem e do mal quando, sejamos francos, está bem abaixo deles. Todo ato puro está abaixo do ato – e também da pureza se pararmos para pensar bem, não é mesmo?

“Agora, para ser mais direta ao ponto, que bagunça você arranjou, meu rapaz. Que decisões foram essas e, para ser honesta, que péssimo timing. Tivesse sido mais rápido, teria a mulher de seus sonhos, e não uma sombra dela a te perseguir toda vez que a ver ou ver o marido dela. Seu gosto por histórias trágicas fez com que você, instintivamente, quisesse que a sua vida fosse também trágica, antes lesse um pouco mais de autores bem-humorados, e visse a ironia nisso. Agora, como vai lidar com a situação que causou? Porque não é o tipo de coisa que simplesmente se esquece, especialmente dada a sua relação com os envolvidos…”

Nesse momento, meu tio Joaquim parou de falar e de imitar Pandora, como ele vinha fazendo desde o início, e respirou fundo de verdade. Por alguns instantes o rosto dele se contorceu em uma careta que me fez pensar, lá com meus dez anos, que ele iria chorar. Acho que, se ele não chorou, ao menos deixou escapar uma lágrima solitária e triste como ele, que correu pelo canto do rosto até que tio Joaquim abrisse novamente um desses largos sorrisos dele, que faziam do bigode loiro cortinas para o sorriso branco do homem. No caso dele, o sorriso era a porta para a alma, enquanto os olhos eram as janelas que levavam para dentro.

Eu nunca entendi a especial deferência que meu tio tinha para comigo, ou mesmo a forma como meu pai muitas vezes olhava para mim. Também não via nada demais no carinho excessivo que minha mãe demonstrava, mesmo que muitas vezes o sorriso dela estivesse manchado de uma melancolia que eu não pudesse entender. E meu irmão, bem, ele, com o passar dos anos, foi se afastando cada vez mais de mim, embora hoje estejamos bem novamente. Meus avós, minha família como um todo de maneira geral, sempre se mostrou bem desconfortável com a minha presença, e eu nunca soube o porquê, pois não havia quem falasse o motivo.

Crescer assim, como um estranho no ninho, um cuco entre outras aves, sem saber como ou porquê parei em algum lugar, sem saber para onde ir ou como fazer já que as pessoas se esforçavam como um todo para evitarem me notar, isso me afetou profundamente na infância e na adolescência. É claro que haviam as demonstrações de amor e aqueles que se dedicavam a isso, para mim, se tornaram ainda mais marcantes em minha vida, justamente por serem os poucos que me queriam por perto de verdade. Naquele dia, enquanto eu me lembrava da história de tio Joaquim, sentado sob uma árvore, seminu naquele verão insuportável, eu refletia justamente por ter perdido uma pessoa que era importante para mim, por ter perdido uma das poucas pessoas com quem eu tinha uma ligação de verdade e podia sempre contar, caso quisesse.

Foi naquele verão em 1995 que eu, perdido em delírios e sonhos acordados sobre minha infância no Rio de Janeiro de 1975, chorei acompanhado do lento sussurrar das árvores ao lembrar de meu pai, que havia morrido.

“Joaquim, Joaquim, o que você vai fazer?”, perguntou Pandora para meu tio em 1965, e ele pareceu se fazer a mesma pergunta dez anos depois, diante de mim.

“Eu vou esperar até que haja algo de fato a ser feito”, ele respondeu naquele dia, no chalé de Pandora. Naquele momento, ele notou, já não chovia e pela janela vinha uma luz clara do amanhecer.

Pandora, contou-me ele, sorriu e fez que sim com a cabeça. Depois, tudo pareceu ocorrer rápido demais. Em dado momento estava vestido e o senhor Girassol oferecia a ele os últimos biscoitos de chocolate da casa, enquanto o guiava para a porta, segurando com as pequenas e delicadas mãos, o braço de meu tio. A velha dona da casa não se levantou, mas acenou para ele de onde estava e desejou boa sorte na jornada de volta. Antes de partir, contudo, ele parou, sob a porta, e olhou para trás, para a estranha sala onde esteve sentado a noite toda vendo e ouvindo as mais diversas coisas, coisas que em momento algum ele pensou que ouviria, pelo menos, não daquele modo.

“E isso aqui, é real ou é sonho? Você nunca me disse”, ele perguntou.

“Se fosse sonho, você ouviria exatamente aquilo que deseja. Mas, se fosse real, nunca conseguiria diferenciar de um sonho. Então, para que perguntar? Talvez seja um pouco dos dois e você tenha sonhado com algo que realmente aconteceu, ou talvez tenha vivenciado um sonho. Não deveria se preocupar com isso, meu rapaz, mas com o que conversamos aqui agora pouco”, e dito isso o Girassol empurrou-o delicadamente para frente, fechando a porta em seguida.

O chalé, durante o dia, parecia ordinário e até mesmo um pouco depredado. Do lado de dentro não vinha luz alguma, e meu tio não conseguia olhar para dentro, então ele seguiu andando em direção à grande pedra onde, no dia anterior, ele repousara. A ação da chuva era clara, e por todos os lados viam-se poças de lama, árvores caídas e mato molhado. Gotículas mais pesadas ainda caíam do alto das copas das árvores, mas aquilo apenas criava uma baixa melodia que, naquela manhã, substituía temporariamente o lento sussurrar das árvores causado pelo vento.

Tio Joaquim achou o caminho de volta para o acampamento depois de andar o dia quase todo, e percebeu-se sem muita fome. Graças, talvez, à comida que o Girassol preparou a noite toda. No acampamento, ele achou as coisas intactas, exceto talvez pela barraca, um pouco torta depois dos ventos da tempestade que a atingiu. Meu tio ainda ficou mais dois dias naquele lugar, se preparando para ir embora.

Quando partiu, decidiu antes procurar pelo chalé de Pandora e se despedir dela, mas nunca achou a mesma trilha para retornar à mulher. Por isso, despediu-se da mata como ‘Ulisses se despediu de Nausícaa, mais abençoado do que apaixonado’, disse-me meu tio citando o que, naquela época, era um dos filósofos favoritos dele. Após quatro dias de caminhadas quase sem parar para descansar, ele voltou ao Rio e, na cidade, foi direto para casa.

Os anos correram e ele nunca havia falado sobre aquela estranha noite com ninguém, eu era o primeiro que ouvia aquela história, só não sabia ainda o porquê.

Foi, justamente, minha primeira pergunta a ele, depois de ouvir tão estranho relato pelo que pareceu serem dias, mas na verdade foram horas apenas na sala lá de casa.

“Por que é o primeiro a ouvir isso?”, ele pareceu surpreso com a pergunta, como se não acreditasse que perguntas, naquele momento, eram necessárias. “Rapaz, não fosse seu nascimento, não haveria motivo para estar naquela mata”, e dito aquilo ele, um tanto sem graça, foi embora antes que eu pudesse entender.

Foram só algumas semanas depois, brincando com um baú de minha mãe, que encontrei um álbum de fotos e a verdade por trás daquele dia com tio Joaquim. Em uma das velhas fotografias posavam um grupo de intelectuais e, entre eles, meu tio e minha mãe, posando lado a lado para a fotografia, sorridentes.

Daquele dia em diante o loiro do meu cabelo pouco me pareceu um detalhe que me diferenciava, tornou-se dali em diante, quase uma mancha e a confidência de um segredo. Eles eram loiros como o bigode sempre bem feito de meu tio Joaquim. O homem com quem vivia, afinal, era meu tio de fato.

E, deitado na grama, apenas de cueca, de longe minha aparência deveria ser semelhante à de um recém-nascido que chora inconsolável por motivos que apenas as lágrimas revelam.

Por João Scaldini