Quando a maioria das pessoas pensa em psicopatas, a ideia que surge de imediato são àqueles malucos correndo com facas (ou no caso do Bateman, uma serra-elétrica) por aí, decapitando a todos que lhe passam pela frente. Seres terríveis, que colecionam a pele e ossos de suas vítimas e possuem uma sede de sangue. Bem filme de terror mesmo.

Você também pensa assim?

Se sim, está bem enganado. Nem todos os psicopatas são malucos ou assassinos – aliás, a grande maioria deles não chega nem perto disso. Em uma cidade grande, passamos por diversos psicopatas por dia, e, em números, eles são 1% da população mundial – isso só contando os diagnosticados, porque muitas pessoas nem sabem que possuem psicopatia. Imagina o caos se todos eles fossem atrás de vítimas à la Jason de Sexta-Feira 13? Definitivamente não precisaríamos de filmes de terror porque a vida já seria assustadora o suficiente.

A verdade é que a grande maioria dos psicopatas não está nem aí para você. Eles não se importam se você está vivo ou morto. Eles estão muito ocupados ganhando o dinheirinho deles para ficarem correndo atrás de vítimas por aí. Aliás, quando se trata de chefes de grandes empresas, esse 1% se quadruplica: segundo estudos, um em cada 25 CEOs mostram traços de psicopatia. E é justamente a falta de empatia que faz com que essas pessoas cheguem ao topo, porque elas não se importam em explorar seus funcionários. Além disso, o charme superficial e a impulsividade também ajudam, outros traços característicos do distúrbio.

É justamente nesse mundo empresarial que Patrick Bateman se encontra. Mas, curiosamente, ele não é o psicopata do filme. Insano ele é sim, psicopata, provavelmente não.

“Psicopata Americano” mostra a realidade de pessoas ricas de Nova York. Gente  superficial, que faz questão de estar nos melhores restaurantes, com as melhores roupas e os melhores cortes de cabelo. Personalidade não conta nesse mundo, e isso é bem retratado nos muitos momentos em que as pessoas trocam os nomes de seus “amigos”. Todos são iguais: ao ponto de, em um momento, quando Bateman está no restaurante com Paul Allen (seu colega de trabalho) ele vê Ivana Trump, e fala para Paul, chamando-o de Patrick e depois se “corrigindo”, chamando-o de Marcus, um outro colega semelhante. Todos são clones. Ele mesmo parece não saber quem é Patrick.

Por falar nesse colega Paul Allen, ele uma das vítimas de Patrick. O cartão de visita de Paul é o melhor de todos, e ele consegue reservas facilmente no badalado restaurante Dorsia, dois fatos que fizeram a “máscara de sanidade” de Patrick cair: sem conseguir controlar mais a sua raiva e inveja, Paul é assassinado com uma machadada na cabeça no impecável apartamento de Patrick – que, aliás, estava coberto com jornal para o sangue não manchar o imaculado piso branco. Esse é um de muitos assassinatos de Bateman, mas é um dos mais simbólicos, e é o que faz ele começar os múltiplos ataques. No entanto, a inveja que gerou esse comportamento não é nem um pouco realista quando se trata de psicopatia. É muito mais uma raiva que poderia ser vista em um narcisista (porém, ainda pra lá de exagerada) do que em um psicopata.

Agora, voltando um pouco para a visão geral de todos os personagens, ninguém parece se importar com o sumiço de Paul Allen, e ninguém fica perturbado com os comentários de Patrick sobre serial killers como Ted Bundy ou Ed Gein – eles claramente não entendem o que ele está falando, mas também não se importam. Uma cena bem interessante é quando Patrick carrega o corpo de Paul Allen em uma sacola, deixando um notável rastro de sangue no chão enquanto passa pela portaria de seu prédio, o qual seu porteiro sequer nota. Ao chegar na rua, colocando o corpo no porta-malas de um táxi, Patrick se depara com um outro colega de trabalho, Carruthers, que, ao invés de ficar preocupado com a sacola que obviamente tinha um formato suspeito, pergunta sobre a marca dela.

Depois de muitos momentos de insanidade e assassinatos – muitos dos quais ele escondeu o corpo no apartamento de Paul Allen – Patrick liga para o seu advogado e confessa todos os seus crimes, ou pelo menos todos os que se lembra. Entre 20 ou 40 corpos. É tudo igual, afinal.

No dia seguinte ele vê que o apartamento de Paul Allen está não somente limpo, mas pintado e à venda. Ao conversar com o seu advogado, este não somente o confunde, mas acha que tudo foi uma piada e chama Patrick de fracote, ainda como se estivesse falando com outra pessoa, dizendo que ele não seria capaz de tais atos. Nenhum dos outros crimes é investigado, porém essas pessoas não aparecem novamente no filme.

Apesar de abrir um pouco de brecha para interpretações, o filme deixa quase que 100% certo de que nada aconteceu, e que tudo foi uma fantasia violenta de Patrick. Isto é, Patrick teve um surto psicótico, ele saiu da realidade. Psicótico Americano? Aí sim faria sentido.



Mas o mais interessante é que no final do filme, ele senta com seus amigos e uma notícia importante passa na televisão. Um deles está mais preocupado com a reserva do restaurante do que com a notícia nacional, e o outro pergunta como a pessoa na televisão (o presidente Ronald Reagan) pode mentir de tal forma. Este também menciona que o presidente pode parecer inofensivo, mas seu interior… E Patrick pensa: O interior não faz diferença. O filme acaba com ele se vendo de volta em seu mundo, e percebe que, apesar de confessar todos os seus “demônios”, nada mudará. O que é importante é o exterior.

Na verdade, Patrick, ao mostrar a sua insanidade, se mostra muito mais humano do que o restante do seu círculo social. E é exatamente isso que as pessoas não percebem: psicopatas mantêm uma máscara que raramente cai. Eles aprendem a imitar reações de pessoas “normais”, e se comportam como tal. Diagnosticar um deles é extremamente difícil, e eles raramente param em um consultório.

Por isso mesmo, a grande maioria que até lê e se interessa sobre psicopatas acha que todos são serial killers, e essa é a imagem Hollywoodiana da psicopatia. A verdade é que quase todos os estudos feitos com psicopatas reais foram feitos em prisões, e obviamente conduzir um estudo apenas em uma população encarcerada não condiz com a realidade. Aliás, por possuírem pouca ou nenhuma empatia, muitos psicopatas são ótimos profissionais, como cirurgiões e soldados, e fazem trabalhos que muitos de nós não queremos fazer. Pode ter certeza que grande parte dessas pessoas odeiam tanto a ideia de ir para a cadeia tanto quanto você.

Agora, a pergunta é: se o psicopata americano não é um psicopata legítimo, quem seria? Pouquíssimos filmes retratam a psicopatia de uma forma mais ou menos razoável, mas isso é papo para outro dia. Porém, lembre-se: nem todos os psicopatas são assassinos em série sedentos de sangue e muitos passam por você e você nem os nota.


Por Paula M.