Não é de hoje que nossas referências de heróis nos quadrinhos, filmes, séries e desenhos têm um pé na direita. Por grande parte deles terem sido criados durante tempos de conturbação política, guerra ou guerra-fria, a afirmação de valores nacionais foram muito reafirmadas em seu contexto. Num primeiro momento, é possível já descriminar o uniforme de alguns heróis: super-homem, capitão-américa e homem-aranha, por exemplo estampam no rosto de seu público o poder de um país, uma identidade nacional. Em uma palavra, nacionalismo.

Nacionalismo: 

Não é à toa que a própria realidade desses heróis apenas se aplica aos Estados Unidos. Imagine como de todos os lugares do mundo, um super-humano nasce e acontece de haver apenas inimigos em seu país, ou ainda, em sua cidade. Isso mostra como a necessidade de um inimigo para um país reflete a importância do próprio. Só este pode combatê-lo e só este tem ideais para tal. No fundo, o que derrota é um modo de vida por muitas vezes, os russos, a tríade chinesa, yakuza japonesa etc. Raras as vezes em que há um vilão branco e quando o é, ele mostra mais profundidade e individualidade, enquanto os asiáticos são quase sempre uma horda sem rosto. Já se vê que aqui o inimigo são os antigos inimigos de guerra, os inimigos econômicos, mas principalmente a raça, o outro.

Por outras vezes, o inimigo é um ser de outro mundo, alienígena e, veja bem, ele vem para dominar. Quando uma força maior vem para a Terra repetir todos os erros dos brancos, ainda eles são os heróis! Diga isso para as Américas, África, Índia etc. Eles têm sua história de opressão, colonização e escravidão quase apagadas e o branco ainda tem de salvar suas vidas. De certa maneira, nas histórias de heróis são negadas as maiorias e qualquer parcela em sua própria salvação. Claro, já há personagens asiáticos, negros, até um ou outro indígena, mas os semi-deuses do panteão são inegavelmente brancos, o que representa de forma forte a América do Norte e Europa.

Destino:

Outra questão do conservadorismo é o destino. O destino é a própria definição da falta de livre arbítrio, assim se pressupõe por debaixo dos panos a presença de um deus. E nada mais conservador que outro pilar da direita ao lado do nacionalismo: a religião. Em tantos casos, os heróis são cristãos ou nada. Qualquer outra religião é descartada do grande leque humano. Ou, na maior parte das vezes, o islamismo entra recentemente para apenas ser a representação do mal. Mesmo o budismo, a religião/filosofia mais pacífica do mundo é apenas uma cortina de fumaça para esterótipos místicos rasos. Vide “Punho de Ferro” – o maior erro da Netflix até então, um homem branco vai até o centro da Ásia e treina kung fu e meditação/budismo; seu melhor amigo não é asiático; e ainda assim, depois de doze anos treinando – o que com sua idade pode ser chamado de doutrinação – de alguma forma ele volta à sua cidade apenas para reivindicar valores de busca pela sua origem, riqueza e família – que será tratado mais tarde.

Ainda neste tópico, outra relação com o destino e a mão de deus é a escolha de seu grupo de heróis. Constantemente, como vemos em “Arrow”, “Flash”, “Supergirl” na atualidade, quem ganha poderes são aqueles que fazem parte de certo círculo social ou de ligação sanguínea. Apenas poucos como X-men se importam na globalidade das questões do mundo e não tanto em “abençoar” um pequeno grupo como na Bíblia. De alguma maneira, a falta de criatividade e a incapacidade de aprofundar personagens novos encurrala roteiristas a dar poderes aos mais banais dos personagens, ou mesmo, todos. Para efeito de exemplo, em “Arrow” praticamente qualquer um pode virar um ninja da noite pro dia; em Flash qualquer um pode virar um metahumano etc. É claro, porém, que a CW, canal dessas três séries, exige, como já foi falado no início de “Arrow”, que as relações familiares sejam um ponto forte. Mas ainda que se subverte-se no início tais relações, acabou por se tornar uma novela familiar.

Família:

Veja em “Flash”, os valores da família vem tanto em primeiro lugar que o protagonista volta no tempo para salvar sua mãe, destruindo a vida de todos ao seu redor, mas é perdoado, pois, no fim, não se discute quando alguém põe a família em primeiro lugar. “Eu faria o mesmo” é o refrão de quase todos os heróis que se deparam com tal situação (e quase todos se defrontam). Em “Arrow”, o herói introspectivo sempre mente para seus melhores amigos e põe para si o peso de salvar o mundo (geralmente ou sempre em homens) e ainda pode ser perdoado, pois apenas queria “proteger”: o homem a proteger, mentir e se culpar por tudo até o programa não ter mais nada de novo a oferecer ao personagem. Do outro lado do mundo, para dar outra referência, em “Ao no Exorcist” ou o “Exorcista Azul”, tem o irmão do protagonista a cometer um genocídio – isso mesmo, um genocídio, dizimando uma raça -, mas tudo é rapidamente esquecido pois estava protegendo o irmão. O mesmo se vê no Capitão América da telona. Ele trai todo um país, senão um mundo, por um amigo assassino e tudo bem.

Em suma, o pior dos crimes pode ser perdoado, a própria lei não lhe atinge se tiver os valores da família como força motriz. Daí sua condição é outra, pois o que segue são valores de Deus e de seu país. Em uma palavra, conservadorismo. De maneira que quando assistimos o próximo filme ou série, lermos livros ou quadrinhos sobre heróis, temos de prestar atenção à política dos ídolos – no termo mais bíblico possível – que nos é imposto, pois para ganhar dinheiro, as produtoras, canais etc não hesitam em lhe dar apenas um lado da moeda.

Por Paulo Abe


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