Nossas preces foram atendidas. “American Gods” enfim fez sua estreia na TV no dia 30 de abril. Baseada no romance do celebrado escritor inglês Neil Gaiman, o programa é produzido por Bryan Fuller e Michael Green, para o canal Starz.

O primeiro capítulo já firmou os rumos do programa e plantou possibilidades futuras. Confira abaixo nossas impressões.

Obs.: se você ainda não assistiu o episódio relatado, cuidado com os spoilers!

Episódio 1 – The Bone Orchard

“American Gods”, assim como seu material original, é uma história sobre o relacionamento humano com o divino – mas especificamente, o relacionamento dos povos que fundaram os Estados Unidos com suas divindades, antigas e atuais. Desse modo, nada mais natural que a série comece com um relato sobre a chegada dos Vikings ao continente. Depois de se darem conta da hostilidade da terra e de seus habitantes,os navegantes decidem voltar para casa. Só há um detalhe: falta vento.

Se alguém tinha dúvidas a cerca do teor adulto do programa, a primeira sequência acaba com elas. Depois de pequenos sacrifícios sem resultados, o grupo começa um verdadeiro derreamento de sangue. Afinal de contas, seu deus – Odin – é um deus de guerra e poder. A matança gera resultado, e os sobreviventes vão embora, para só retornar muito tempo depois – de acordo com o narrador, o Sr. Ibis. (Demore Barnes)

Em seguida, vamos para o presente e somos apresentados ao protagonista, Shadow Moon ( Riccky Wittle, de “The 100”). Shadow está preso há 3 anos, e em poucos será liberto. O detento, porém, tem um pressentimento de algo está errado, embora não se considere supersticioso. Shadow conversa sobre suas preocupações com sua esposa, Laura (Emily Browning), pelo telefone, mas ela o tranquiliza.

À noite, o homem sonha com um jardim repleto de ossadas humanas – o nome do episódio, em inglês, é “Pomar de Ossos” – uma árvore de estranhos ganhos retorcidos que lembram braços, um touro de olhos flamejantes e uma forca.

No dia seguinte, Shadow é chamado pelo diretor do presídio, e descobre que será liberado naquele mesmo dia, pois Laura falecera naquela manhã, em um acidente de carro.

Sem ter tempo pra processar a informação, Shadow é solto e segue para o funeral da esposa. No viagem de avião, conhece um senhor de meia-idade ( Ian McShane) que se apresenta como Wednesday (quarta-feira, em inglês). O sujeito é falador e simpático. Embora sua aparência não tenha nada fora do comum, exste algo em Wednesday que o destaca.  Shadow não simpatiza muito com ele – principalmente depois que revela saber sobre uma perda recente do companheiro de viagem.

Nesse ponto, a série corta para outro ponto do país, onde um casal faz seu primeiro encontro ao vivo, depois de se conhecerem pela internet. Eles não demora para ir para o quatro, e no meio da relação sexual, a mulher engole o sujeito – pela vagina. Fica claro que se trata de mais uma divindade: Bilquis (Yetidi Baldaqui), uma deusa do amor e da fertilidade. A cena divertidíssima é talvez a mais inusitada de todo o capítulo, e deixa claro que este não e um mundo como o nosso.

De volta para o ex-detento, sua maré de azar parece longe de acabar. Shadow acorda num avião vazio, é uma aeromoça o informa que foram obrigados a fazer um pouso de emergência. Diante da possibilidade de mais horas à espera de um avião, aluga um carro e cair na estrada. Durante uma breve parada no banheiro, Shadow reencontra…Wednesday! E agora o carismático senhor tem uma oferta de trabalho para nosso herói. Shadow recusa. Ele já possui trabalho com seu melhor amigo, Robbie. Wednesday tem outra carta na manga: revela que Robbie também morrera, no mesmo acidente que Laura.

A revelação desagradável vem seguida de uma aparição ainda mais desagradável de um sujeito chamado Mad Sweeney (Pablo Schreider), que afirma ser um leprechaun (espécie de duende do folclore irlandês), apesar da estatura humana. Para surpresa de Shadow, Sweeney e Wednesday se conhecem, e não parecem ter uma relação muito amigável.

Depois de provocar Shadow até o limite, Sweeney o convence a entrar numa briga, um pouco menos violenta que a matança no início do capítulo. Mesmo com dificuldade. Shadow derrota o adversário e ganha uma curiosa moeda que o leprecheaun trazia consigo. Wednesday refaz a oferta de trabalho, uma mistura de guarda-costas com assistente pessoal, para uma missão especial. O pagamento é alto, assim como os riscos. Dessa vez, Shadow aceita e os dois selam sua parceria.

Antes de qualquer trabalho, porém, Shadow tem o funeral de Laura. Na cerimônia, relativamente vazia, a única pessoa que conversa com ele é Audrey, viúva de Robbie é melhor amiga de Laura. Visivelmente dopada, ela afirma que os falecidos tinham um caso.

Se Shadow conseguiu se manter firme até esse ponto, fica óbvio que esse foi o golpe fatal. Whittle mantém uma postura contida  durante todo o episódio, mas consegue expressar a dor do personagem pelo olhar e seu tom de voz. Depois que Laura é sepultada, Shadow joga a moeda que ganhou de Sweeney dentro da sepultura.

Na saída do cemitério, encontra um estranho dispositivo tecnológico que o leva para dentro de uma limusine, e encontra um jovem magricela que se identifica como Technical Boy (Bruce Langley). Depois de fazer diversas perguntas sobre Wednesday, que Shadow não responde de forma objetiva, o rapaz declara: “nós somos o futuro, e estamos nos f*dendo para ele (Wednesday) e sua gente.”. Outra divindade, em apenas um capítulo.

Depois desse encontro, Shadow acorda na chuva, sendo atacado por figuras sem rosto – como as que acompanhavam Technical Boy. Eles tentam enforcá-lo, mas são todos mortos por uma força desconhecida (o que rende mais um banho de sangue). Com seu protagonista salvo no último segundo, “American Gods” encerra seu primeiro capitulo.

Se alguém tinha esquecido que essa se tratava de uma série de Bryan Fuller, o refinamento estético e a violência logo nos remete a “Hannibal”, seu trabalho mais elogiado. Fuller e Green de fato não tiveram pudores  e já deixaram claro ao que vieram. O piloto parece até um aviso: se achar que isso é demais para você, talvez deva ir com calma para os próximos episódios.

Os excessos – desde a abertura lisérgica, as sequências de sangue, as cenas de Bilthis e Techinical Boy, aos efeitos estonteantes – não soam sensacionalistas. “American Gods” abraça toda a sua estranheza, agressividade e senso de humor, já presentes no livro de Gaiman, e os entrega de forma incrivelmente bem executada.

Até esse ponto, o elenco se encaixa perfeitamente com os personagens definidos. Wittle e McShane tem uma sintonia perfeita, baseada nas em diferenças além do aspecto humano e divino – um é jovem, negro, de poucas palavras ; o outro, mais velho, branco, carismático. Os outros deuses também não ficam para trás e mesmo Techinical Boy, que ganhou um tom mais suave que no livro, nos deixa curiosos por mais cenas.

O programa pode não ter agradado a todos, mas com certeza não recebeu indiferença. “American Gods” fez sua estreia com o pé direito, e já ganhou nossa devoção.