Eu já tinha lido Lolita Pille. Sabia que a escrita dela é bem exótica. Exótica de uma maneira boa, eu acho. Por outro lado, eu não tinha o hábito de ler ficção científica. Nunca li “1984” de George Orwell nem “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, livros com os quais “Cidade da Penumbra” foi comparado em diversas resenhas que li por aí. Por conta disso, entrar nesse futuro não-identificado numa cidade chamada Clair-Monde, onde o sol não brilha, foi um exercício que me exigiu bastante esforço. E acho que a prosa desconexa da Lolita meio que atrapalhou o entendimento.

Em contra partida, as questões que ela quer tratar no livro são fáceis de identificar. A vaidade, o abuso de substâncias, a alienação… Que são basicamente as mesmas coisas que ela questionou em suas outras obras, mas, dessa vez, com a força que só um mundo fictício pode dar. Nele, os refrigerantes contêm um adicional de psicotrópico da sua escolha, as cirurgias plásticas têm o respaldo do Ministério da Aparência e todo mundo anda com a cabeça enfiada em seus respectivos celulares, que no livro são chamados de Rastreadores.

Ao observar o mundo que temos hoje, não acho que as previsões de Lolita Pille para o futuro estejam tão distantes assim do nosso presente. Esse deve ser o principal ponto positivo dessa leitura, rever os nossos conceitos e modos de vida para não terminar daquele jeito brutal descrito pela autora.

A forma que a autora critica a nossa sociedade através dessa cidade fictícia é bem interessante, da mesma maneira que a construção da cidade também é. Embora tenha demorado metade do livro para eu conseguir visualizar como funcionava a estrutura dela. Com todos os seus departamentos, telas-titãs de anúncios e ruas com nomes de grandes marcas, foi um mapa mental mais difícil de construir do que Hogwarts quando “Harry Potter” ainda não tinha filme. Um mapa ilustrado teria caído bem, porque as descrições da autora sobre os ambientes foram bem breves.

No entanto, como acho que o objetivo principal do livro era analisar o que há por trás da cidade, e não a cidade em si, a Lolita fez um bom trabalho em descrever uma realidade horrível com palavras bem bonitas. Com certeza, é uma leitura que eu recomendo, mas não sem uma dose de perseverança para chegar até o final do livro.

Por Aimee Oliveira