Fãs de música e, mais especificamente, de metal, podem ser divididos em dois grupos: aqueles que nunca buscam nada novo, pois amam mesmo os clássicos; e aqueles que estão sempre atrás de novidades no estilo, justamente para comprovar que ele está longe de morrer.

Hoje o Play Store, abre um espaço para novos artistas que ainda não contam com espaço na grande mídia e traz a resenha do álbum Wdê Nnãkrda, da banda brasileira Arandu Arakuaa.

Para começo de conversa, o som da banda é extremamente diferente de tudo que você provavelmente já ouviu, já que mistura metal e folk brasileiro. Falando assim, aposto que o primeiro pensamento é na mistura feita pelo Angra, com os ritmos afro nos idos de Holy Land (1994). Mas Arandu inova, na verdade, de outra maneira: como o próprio nome diferente da banda sugere, eles cantam as músicas nos idiomas indígenas Tupi, Xerente e Xavante. As letras são inspiradas nas lendas, ritos e lutas dos povos indígenas do Brasil. Arandu Arakuaa significa, de acordo com o site da banda, sabedoria que vem do cosmo.

O grupo brasiliense está na estrada desde 2011 e conta com Nájila Cristina nos vocais e maracá; Zândhio Aquino na guitarra, viola caipira, vocais, teclado e maracá; Saulo Lucena, no contrabaixo, vocais de apoio e maracá e Adriano Ferreira na bateria e percussão. Eles têm o EP “Arandu Arakuaa”, de 2012” e dois álbuns – “Kó Yby Oré”, de 2013 e “Wdê Nnãkrda“, de 2015”.

“Wdê Nnãkrda”, 2015 – Música brasileira em sua forma mais pura e pesada

Passado o choque inicial que a barreira do idioma causa, ao ouvir o álbum fica claro que a banda mescla perfeitamente a suavidade da voz feminina com o peso da masculina e dos instrumentos.

Watô Akwê é a canção que abre o álbum e se inicia com um som tribal, flauta e apitos. A voz masculina puxa um canto semelhante ao de um ritual indígena. Entra, então, o dedilhado de viola que acompanha o canto masculino e batidas de pés. A música parece trazer para fora alguma brasilidade interna que desconhecemos.

Nhanduguasu traz, então, o peso do metal tal como conhecemos: uma paulada na orelha, com pedal duplo, ritmo acelerado e gutural. A voz limpa e suave de Nájila somada às violas caipiras marcam outra etapa da música, que mostra como a banda sabe realmente integrar momentos mais doces, de vocais melódicos e violas dedilhadas belíssimas com peso.

Hêwaka Waktu começa com um belo dedilhado de viola e flauta, para então a bateria começar a chamar o peso. O canto muito bem construído de Nájila e Zhândio são o ponto alto da música. Mais uma vez, a bateria acompanha o vocal masculino para chamar o peso e os vocais guturais. Nuances que tornam a música uma das melhores do álbum. (Esta conta até com o vídeo que encerra este post.)

Dasihâzumze tem uma introdução belíssima à la Almir Sater e Sérgio Reis, mestres da viola caipira. Entra a voz de Nájila acompanhando a viola. Os chocalhos são um detalhe sutil daqueles que fazem toda a diferença. O conjunto todo do som tem o poder de nos transportar diretamente para as belas cachoeiras do centro-oeste do Brasil. O vocal indígena do final dá o toque de que a música precisava para deixar o ouvinte realmente boquiaberto.

Padi se inicia com percussão e peso. Os vocais e a bateria marcada abrem caminho para o gutural de Zândhio.

Wawã é um oásis instrumental para quem ouve o som da banda pela primeira vez. A calma das violas e o apito prepara o ouvinte para a segunda metade do álbum. Quem ama instrumentais, como eu, vai querer salvar para ouvir mil vezes depois.

Iwapru já entra chutando a porta com guitarras cavadas contrastando com (e dando um tapa na orelha de quem se deixou levar pela) música instrumental anterior. O gutural e as vozes dobradas e limpas do coro chamam a atenção. O solo de guitarra e a queda para algo mais bossanova tornam a canção super interessante e rica, sendo uma das minhas preferidas. Golaço!

Nhanderú parece duas músicas em uma: ela começa com piano e o vocal doce de Nájila (que, nesta música, se assemelha muito ao timbre de Érika Martins, do Penélope) com uma melodia que desperta a alegria inocente vinda da infância. A canção inicial morre para virem os vocais indígenas e fica alternando entre essas duas fases até o fim.

Ipredu conta com os vocais retos e crus de Nájila, chocalho e uma viola suave tocando. As letras dizem “acordei feliz, eu vejo o sol/ acordei feliz, ouço o barulho do vento/ vou para a cachoeira, vejo o por do sol/
Sou livre, sou filho da terra”.

Sumarã é uma das mais fortes do álbum: os vocais somados ao piano, ao idioma indígena e à bateria marcada resultam em uma canção cheia de sentimento que abre caminho para a última música perfeitamente.

Povo vermelho é a música que fecha o álbum e louva, em bom português, a resistência do povo indígena: “enquanto houver terra, o povo vermelho resiste” e “tem que tocar maraca, pra cultura não morrer, tem que ter mata verde pro espírito proteger”.

Sem dúvidas, Wdê Nnãkrda é um álbum obrigatório para quem curte metal brasileiro e que é resultado de criatividade, ousadia e ótima produção. Conheça mais sobre a banda nas redes sociais.

Para finalizar, o vídeo de Hêwaka Waktû, a terceira música do álbum.


Por Thais Isel