Histeria é uma doença psiquiátrica, com sintomas físicos e emocionais, que podem variar de alucinações a autoflagelamentos. Reza a lenda, que se uma pessoa entrar em pânico em um ambiente fechado, como por exemplo um avião prestes a decolar ou um elevador, outras pessoas, ainda que estejam calma e tranquilas, podem ser acometidas pelos mesmo sintomas, desencadeando um surto generalizado no ambiente. Daí, a histeria coletiva.

Partindo dessa premissa, e baseando-se em fatos ocorridos na primavera de 2012, em uma escola de ensino médio em Nova York; é que a autora Katherine Howe resolveu aventurar-se pelo mundo das magias, mistérios (e afins), e escreveu com muito afinco e com muita pesquisa histórica o livro “Histeria”. Que é uma criação exclusiva em e-book.

A obra se passa em dois momentos muito distintos. Em um primeiro ato, temos a história de Ann Putnan, narrada pela própria e passada em 1706. Essa narrativa entra no livro como prelúdio, ou seja, uma primeira apresentação que já infere n’um certo desfecho, e depois, ao longo da escrita, passa a ser interlúdio, já que aparece nos “entres” da narrativa principal, como se fosse uma história paralela, mas que ao mesmo tempo é de suma importância para o entendimento do contexto.

Já os capítulos que compõem o segundo ato, são passados em 2012. E narra o último ano do ensino médio de Colleen. Uma menina altamente dedicada aos estudos e que está sofrendo a pressão da espera de respostas sobre a entrada nas universidades mais concorridas dos Estados Unidos.

Assim sendo, temos uma obra rica e compartida em duas histórias, que até podem funcionar sozinhas, mas que juntas são complementos uma da outra. Para que fique melhor o entendimento para vocês leitores, vamos segregar esta resenha em dois meandros. Um para Colleen e outro para Ann. Logo, além de plantarmos a pulguinha da curiosidade em vossas orelhas, também não deixamos de dar importância a essas meninas tão singulares e tão parecidas entre si.

Ann Putnan é filha de um membro respeitável do Vilarejo de Salem. Ela é amiga de Beth e Abby, filhas do reverendo da cidade. Ambas vivem pacatamente, como meninas normais, que tem obrigações normais – para a época – de ajudar em casa, na colheita e em outras tarefas designadas pelos adultos.

Certo dia, Beth e Abby são acometidas por surtos e por manchas vermelhas por todo o corpo. Beth é a primeira a ficar doente, levando sua irmã a um verdadeiro surto, já que esta via-se obrigada a executar todas as tarefas sozinha. Para Abby, Beth simplesmente fingia para não ter que trabalhar. Mas aí, a própria Abby fica doente também e é então que toda confusão começa.

No prelúdio encontramos uma Ann Putnam quase adulta contando ao novo reverendo da cidade tudo que aconteceu naquele fatídico inverno de 1706. Ela começa a narrativa pedindo perdão. Dizendo que sabe que errou e que não consegue mais conviver com a culpa do que fez no passado. Mas o que será que ela fez? O que temos, à priori, como fato relevante e já mencionado no livro – logo, não é um spoiler – é que 20 pessoas são condenadas à forca pela prática de bruxaria. E tudo começou com a doença misteriosa das filhas do reverendo.

Chegamos a 2012. Colleen é uma aplicada aluna do colégio St. Joan Academy. Uma escola católica, classe média alta, exclusiva para meninas, cuja diretoria ficava a cargo de uma madre superiora e de um padre. E que está localizada em Davens (atual localidade para o antigo Vilarejo de Salem).

Colleen, assim como Ann também tem suas melhores amigas. Emma, Deena e Anjali. Apesar da amizade sincera, elas são completamente diferentes entre si. E na obra fica bem claro a personalidade de cada uma. Mesmo assim elas são o que “elas” têm de melhor. E se apoiam incondicionalmente.

Todas estão no último ano do ensino colegial. A pressão pelas entrevistas das faculdades é aterrorizante, e como se não bastasse isso, elas ainda têm de lidar com uma doença completamente desconhecida, que afastou quase metade do corpo discente e colocou a escola, até então aclamada pela ótima qualidade de ensino, nas primeiras páginas dos principais jornais americanos. Será que o que aconteceu em 1706 voltava com força total?

“Arthur  Miller não está interessado em Ann Putnan Júnior. Está interessado em sexo, conspiração e demônios ocultos dentro de pessoas boas. Está interessado, como muitos homens, em si mesmo”

Katherine teve momentos bons e momentos ruins ao escrever “Histeria”. Apesar do próprio nome da obra já ser um pequeno spoiler – se ele for acompanhado pela sinopse do livro – somente lendo, detalhe por detalhe é que temos um mapa real dos acontecimentos.

No entanto, em alguns momentos, a narrativa se torna falha e monótona. Você fica esperando acontecer mil e uma coisas, mas nada – simplesmente – nada acontece. A história contada pelo ponto de vista de Ann é bem melhor que a contada pelo ponto de vista de Colleen. E isso pode até ter sido proposital por parte da autora. Mas para leitores mais distraídos, pode ser que seja, na verdade, um problema.

Quando estamos lendo sobre tudo que aconteceu em 1706, percebemos que houve uma real pesquisa histórica. Ann, apesar de ainda ser uma garota e ora passar por narradora em primeira pessoa, ora por narradora em terceira pessoa, conta sua versão da história com um vocabulário mais empolado e típico da época. Então, em algum momento faz sentido a narrativa ser mais lenta.

Entretanto, quando somos transportados para 2012, conhecemos uma menina de 17 anos com um vocabulário muito aquém da sua idade. Isso sim faz com que a narrativa seja mais chata. Porque não faz muito sentido sermos lembrados a todo momento que elas estão prestes a entrar na faculdade e ainda sim, comportam-se como meninas perdidas que vivem na Terra do Nunca e recusam-se a crescer. Quiçá esse tenha sido um tiro no pé. Afinal, somos impelidos a buscar mais e mais sobre Ann, e ficamos de saco cheio de Colleen e seus dilemas. Assim, o que torna atraente na história principal, não é a personagem principal. E sim os personagens secundários, que poderiam ter sido bem mais aproveitados.

Em síntese, não é uma leitura de todo perdida. Para quem gosta de romances históricos baseados em fatos reais, talvez seja aprazível se souber ver que o que está nas entrelinhas é bem mais interessante.


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Kinha Fonteneles

Érica nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, mas deveria ter nascido nesses lugares onde se conversa com plantas, energiza-se cristais e incenso não é só pra dar cheirinho na casa.
Letrista na alma, e essa bem... é grande demais por corpinho de 1,55 que a abriga.
Pisciana com ascendente E lua em câncer. Chora quando está feliz, triste, com raiva e até mesmo com dúvida.
Ah! É uma nefelibata sem cura.

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