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Revista Calafrio e os Mestres do Terror Brasileiro

Neste mês de Maio estreia nos cinemas “O Rastro”, um filme que vem com a proposta de renovar o gênero de terror nacional. Acompanhando de perto esse lançamento, pude entender o que é realmente que se propõe e o que deseja modificar. Entendo que essa questão é importante, afinal o Brasil tem um rico passado de histórias de Terror no cinema e nos quadrinhos. A abordagem desse gênero no cinema vai ficar pra outra ocasião, pois hoje vamos falar do Terror nos quadrinhos. Mais especificamente uma revista que proporcionou espaço para alguns dos melhores artistas brasileiros.

“Terror como você gosta. O velho terror dos castelos mal-assombrados, dos ventos uivando por entre as folhagens, dos gritos estridentes cortando o silêncio da noite e todos aqueles mil ingredientes do velho e autêntico terror”.

Trata-se da Revista Calafrio, a qual teve 52 edições regulares publicadas entre 1981 e 1992 pela Editora D-Arte. Inicialmente criada como um estúdio por Rodolfo Zalla e Eugênio Colonnese, a D-Arte produzia quadrinhos e materiais didáticos para outras editoras. Foi somente em 1981 que os sócios transformaram o estúdio em editora e se dedicaram a produzir quadrinhos de Terror. Porém, devido à grave crise econômica nos anos do governo Collor, a D-Arte fechou as portas em 1992. Posteriormente, em 2002, a Editora Opera Graphica criou uma edição especial comemorativa de 20 anos. Mais tarde, já em 2011, a Editora Cluq retomou a publicação regular a partir do número 53 em que a revista havia sido interrompida.

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Além de se dedicar a um gênero muito específico, a Calafrio tinha algumas características marcantes. Primeiramente ela só publicava histórias produzidas no Brasil por artistas brasileiros, tanto desenhistas quanto roteiristas. Dessa forma passaram por suas páginas alguns ícones das HQs nacionais como Rodolfo Zalla, Eugênio Colonnese, Flávio Colin, Júlio Shimamoto, Mozart Couto, R.F. Luchetti, Ota, Luiz Antônio Sampaio, Jayme Cortez, Watson Portela, Gedeone Malagola, Edmundo Rodrigues, Lyrio Aragão, Wilson Vieira, entre outros.

Apesar do grandioso time de artistas brasileiros, a temática das histórias mesclava contextos tipicamente nacionais com assuntos clássicos de renomados autores internacionais como Edgar Allan Poe, Charles Dickens e Robert Howard. O resultado eram histórias bastante inusitadas, muitas vezes misturando vampiros europeus com criaturas mitológicas brasileiras. Este também foi um mote muito utilizado nas HQs da Calafrio: as lendas e folclores nacionais. Mais uma característica marcante da revista eram suas capas bem ao estilo Pulp, tipo de publicação que estava em alta nos EUA naquela época.

O formato da Calafrio era o tradicional magazine (20X28cm) com acabamento bem simples. As páginas internas que revezavam HQs com eventuais textos eram todas em P&B. Não que isso seja um problema, pelo contrário. Os desenhistas eram muito hábeis na arte com nanquim, portanto o estilo original era mantido nas páginas em preto e branco. Por falar em arte, esse é um dos pontos mais impactantes da revista. A maioria das histórias tem um clima bem carregado devido ao uso intenso de hachuras e sombras. Os roteiros também são muito criativos e utilizam diversos elementos das mitologias populares.

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Um destaque especial vai para a edição 56, publicada em novembro de 2016, que resgatou um grande clássico do terror nacional da década de 1990: a série Zona do Crepúsculo”, de Gian Danton e Bené Nascimento (Joe Bennett). Essa história já havia sido publicada anteriormente, só que em duas edições separadas. Na ocasião ela fez grande sucesso. Por isso o próprio Zalla solicitou aos autores uma conclusão para a HQ.

O incansável editor da revista, Rodolfo Zalla, veio a falecer no ano passado, em 19 de junho. As edições mais recentes da Calafrio” podem ser facilmente encontradas na Comix Book Shop, que tinha a distribuição exclusiva. Já as edições antigas só mesmo em sebos e livrarias especializadas em quadrinhos.

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Written By

Tercio Strutzel ama ler, escrever e desenhar histórias em quadrinhos. Foi editor do fanzine Paralelo, mas hoje quase não consegue tempo pra desenhar. Se especializou em Presença Digital, mas tem diversos projetos fervilhando na mente. Está sempre em busca de atividades culturais por São Paulo. Também é serial reader de Ficção, Fantasia e Terror e viciado em séries.

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