Documentário refaz trajetória do jogador que virou lembrança
Existem jogadores lembrados por números e títulos. Ronaldinho Gaúcho ficou marcado por outra coisa: ele fazia o futebol parecer mais leve. Mesmo em uma Copa do Mundo, uma Champions League ou uma decisão gigante, havia sempre a sensação de que ele podia transformar o jogo em espetáculo.
A minissérie documental da Netflix acompanha essa trajetória em três episódios, da infância em Porto Alegre ao auge mundial, passando também por fases difíceis dentro e fora de campo. A produção não se limita a gols e troféus. Ela tenta mostrar as diferentes versões de Ronaldinho: o menino apaixonado por bola, o irmão, o amigo, o craque, o ídolo e o homem por trás de um talento mágico.
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Da casa ao mundo

O primeiro episódio volta para a família, para a influência de Assis e para o ambiente em que o futebol sempre esteve presente. A construção é afetiva porque mostra que, antes dos estádios lotados, havia uma casa onde a bola já fazia parte da rotina. Depois, Grêmio, Seleção e Copa de 2002 aceleram essa história até transformar o garoto de Porto Alegre em campeão do mundo.
O segundo episódio entra na fase em que Ronaldinho se torna fenômeno internacional. PSG, Barcelona e o prêmio de melhor do mundo aparecem como parte de uma explosão que parecia inevitável. No Barcelona, ele encontra o ambiente perfeito para jogar do seu jeito. Driblava, criava, decidia e fazia o estádio se levantar antes mesmo de a jogada acabar.
Mas a série também mostra o peso da fama. Quanto maior Ronaldinho ficava, maior era a cobrança sobre ele. Seu jeito descontraído, que encantou tanta gente, também passou a ser visto com desconfiança por quem esperava um comportamento mais controlado fora de campo.
A relação entre Ronaldinho e Assis também ganha uma profundidade importante ao longo da minissérie. Durante anos, muitas decisões da carreira do ex-jogador foram atribuídas quase automaticamente ao irmão e empresário, como se Ronaldinho tivesse apenas seguido um caminho definido por outra pessoa. A produção, porém, mostra uma relação mais complexa. Assis aparece como figura de confiança, proteção, influência e até mesmo paterna, mas Ronaldinho também surge como alguém presente nas escolhas que fez. Isso não elimina os questionamentos sobre algumas decisões, mas ajuda a afastar a ideia de que ele foi apenas conduzido por quem estava ao seu redor.
A minissérie também trata as perdas de João e Miguelina com bastante cuidado. Em vez de usar o luto como recurso para dramatizar a trajetória ou transformar Ronaldinho em alguém digno de pena, a produção mostra a ausência como parte de uma história familiar que continuou deixando marcas. Pai e mãe aparecem não apenas pela falta que fizeram, mas pelo legado que deixaram na formação do filho, nas relações que ele construiu e na maneira como essa família passou a ser lembrada por gerações.
Quando o ídolo precisa se reinventar

O terceiro episódio é o mais humano. Ele fala sobre queda, críticas, retorno ao Brasil e a necessidade de se reinventar. Flamengo e Atlético-MG aparecem como momentos diferentes dessa fase. A Libertadores pelo Atlético funciona como uma resposta forte para quem achava que ele já não tinha mais espaço no futebol de alto nível.
A série entende que, para Ronaldinho, a queda sempre seria mais comentada do que a de outros jogadores. Afinal, ele carregava a memória de uma fase em que parecia capaz de inventar qualquer coisa com a bola no pé. Quando esse brilho deixa de aparecer o tempo todo, a cobrança cresce na mesma proporção.
A produção também acerta ao não fugir dos episódios mais questionáveis da trajetória de Ronaldinho. Eles aparecem com clareza, sem serem minimizados, e deixam evidente que certas escolhas tiveram consequências. Ao mesmo tempo, a série abre espaço para que o próprio ex-atleta apresente sua versão dos fatos. Não há uma tentativa de absolvê-lo ou de condená-lo antes do espectador.
O documentário organiza os acontecimentos, traz contextos e diferentes perspectivas, deixando que quem assiste construa seu próprio julgamento.
A fotografia que constrói memória
Um dos grandes acertos da minissérie está na fotografia, na montagem e no uso do material de arquivo. As imagens históricas não entram apenas para provocar nostalgia. Elas ajudam a contar a história. Cada lance antigo, estádio lotado ou registro de bastidor reforça o tamanho que Ronaldinho ocupou no futebol.
A produção sabe alternar bem essas imagens com as entrevistas atuais. Quando alguém relembra uma partida, uma fase difícil ou uma conquista, o documentário não deixa a fala solta. Ele aproxima o depoimento de cenas daquele período, de arquivos de televisão e de imagens que ajudam o espectador a entrar naquele contexto.
A montagem também dá ritmo aos capítulos. Em vez de seguir uma linha do tempo engessada, a série mistura jogo, memória, bastidor e entrevista em cortes que mantêm a história em movimento. Um gol pode abrir espaço para uma lembrança mais íntima. Uma fala mais leve pode ser seguida por uma imagem que revela a pressão daquele momento.
O olhar de Luis Ara
A direção de Luis Ara ajuda a explicar por que a minissérie não se limita a uma sequência de títulos, gols e polêmicas. Ele constrói a narrativa com espaço para memória, silêncio e contradição, sem transformar cada episódio em uma tentativa de apresentar as reais faces de Ronaldo de Assis Moreira. O resultado é um documentário que acompanha o peso da fama, as relações familiares e os momentos mais delicados com cuidado, deixando que os arquivos e os depoimentos revelem um personagem mais humano do que a imagem pronta do craque costuma permitir.
Entrevistas que ampliam a história

Também merece elogio o cuidado da produção em buscar entrevistados de diferentes fases. A série reúne familiares, amigos, ex-companheiros, pessoas ligadas aos clubes e nomes que acompanharam Ronaldinho em países diferentes. Isso evita que o documentário fique preso a uma visão única.
Cada pessoa acrescenta uma peça. Alguns lembram o menino que vivia com a bola no pé. Outros falam do jogador que mudava o clima de um vestiário. Há quem enxergue o ídolo e quem tenha acompanhado de perto os momentos mais difíceis.
Os enquadramentos dessas entrevistas ajudam no clima mais próximo. As falas têm espaço para respirar e não parecem apenas declarações inseridas para preencher tempo. Isso deixa a narrativa mais humana, principalmente quando o documentário sai das conquistas e entra em fases mais delicadas.
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Ritmo que segura o espectador
Outro ponto técnico que funciona é o som. A trilha acompanha a energia das fases mais vitoriosas e diminui quando a narrativa pede silêncio ou reflexão. Ela não rouba a cena, mas ajuda a conduzir a emoção.
Essa combinação de arquivos, entrevistas, jogos, bastidores, trilha e momentos íntimos explica por que capítulos de quase uma hora não ficam cansativos. A história avança com ritmo e sem parecer uma simples linha do tempo.
Um futebol que deixou saudade
No fim, a minissérie “Ronaldinho Gaúcho” relembra por que o atleta continua tão especial. Ele não foi perfeito, nem tentou parecer perfeito. Mas, quando a bola chegava no pé dele, havia sempre a sensação de que algo improvável podia acontecer. E talvez seja por isso que tanta gente ainda fale dele com um sorriso no rosto. Ronaldinho fez o futebol virar lembrança.
Imagem Destacada: Divulgação/Netflix


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