Entenda os motivos que impactaram a conclusão de “Stranger Things”
No último dia 31, chegou ao fim a aclamada série da Netflix “Stranger Things“. O que deveria ser uma temporada final épica, à altura do fenômeno cultural que a série se tornou, acabou soando como uma versão esvaziada de um blockbuster de heróis genérico. Os irmãos Duffer não apenas falharam em entregar o épico prometido como também frustraram boa parte do público que não consome qualquer desfecho apenas por apego à marca. Confira a seguir as decisões mais controversas dos criadores, com spoilers:
Uma das decisões mais problemáticas da temporada foi consequência direta do intervalo de quatro anos entre a quarta e a quinta temporadas. Para acomodar o envelhecimento do elenco, a narrativa salta 18 meses no tempo. Vale lembrar que a quarta temporada termina com Hawkins destruída, rasgada em quatro partes, envolta por fumaça, enquanto o ar do Mundo Invertido se espalha pela cidade sob o olhar de Eleven, interpretada por Millie Bobby Brown. O impacto desse final é simplesmente descartado.

No salto temporal, a solução encontrada pelos roteiristas é colocar a cidade em quarentena, selar um portal dimensional com placas de aço e transferir os personagens para uma base dentro do Mundo Invertido, que curiosamente passa a ser tratado como um ambiente seguro, sem riscos à saúde humana e praticamente sem criaturas hostis apresentadas nas temporadas anteriores. O que antes era um território de horror se transforma em um cenário neutro, esvaziando completamente sua ameaça.
Erros recorrentes e estratégias já desgatadas em Stranger Things
Repetindo um recurso já desgastado, a temporada mais uma vez recorre à perseguição governamental a Eleven. Surge então a Dra. Kai, interpretada por Linda Hamilton, uma personagem sem função dramática real além de repetir a ordem “encontrem a garota”. O roteiro se torna inflado, como já havia acontecido na quarta temporada, especialmente com núcleos paralelos irrelevantes, lembrando o arco russo, que no fim não serviu para nada além de evitar a morte definitiva de um personagem principal.

A série insiste em um erro recorrente: a recusa em encerrar arcos narrativos com dignidade. Não é necessário matar personagens para retirá-los da história, mas, quando a morte é usada, ela não pode ser anulada posteriormente sem consequências. As falsas mortes de Hopper e Max exemplificam esse problema, pois eliminam qualquer peso dramático e transformam o sacrifício em algo vazio. O espectador é constantemente convidado a sentir perigo, mas já sabe que tudo ficará bem no final, tornando a tensão inexistente.
Com episódios mais longos, a temporada sofre de um problema clássico das novelas: a “barriga”. Para não esgotar a trama principal, cria-se uma sucessão de cenas onde nada relevante acontece. Em uma temporada curta de oito episódios, inflados para cerca de duas horas cada, essa barriga ocupa longos trechos antes ou depois dos primeiros 45 minutos, tornando a experiência cansativa.
O sétimo episódio, que deveria funcionar como o penúltimo ato antes da grande batalha final, se transforma em pura enrolação. Tornou-se o episódio mais mal avaliado da série, muito por conta de uma cena específica em que Will assume sua sexualidade. A cena, que poderia ser emocionalmente significativa, é morna, mal dirigida e esvaziada pela presença de grande parte do elenco com expressões estáticas, resultando mais em constrangimento do que em impacto.
Se Vecna podia ir pessoalmente até Hawkins, por que precisava de demogorgons? Se já existia um portal permanentemente aberto, qual a lógica de fundir o Abismo com Hawkins? O vilão possui imunidade às armas da época e poderes sobrenaturais, mas ainda assim seu plano nunca é claramente definido.
A série simplesmente abandona explicações fundamentais. Nunca se esclarece por que o vilão sequestrou exatamente 12 crianças, algo que os próprios roteiristas admitiram não saber explicar em entrevistas. Também não há qualquer aprofundamento sobre como o cientista na caverna encontrou um fragmento do Devorador de Mentes que concedeu poderes a Henry.
Personagens entre os destaques positivos
Entre tantos tropeços, alguns personagens se destacam positivamente. Max, Holly e Will carregam emocionalmente uma temporada cansada, que parece ter perdido toda a criatividade presente na primeira fase da série. Ainda assim, os erros de continuidade são tantos que parte do fandom chegou a teorizar que o último episódio seria falso que um “verdadeiro final” seria anunciado futuramente.
Will se lembra de eventos nunca mostrados na série, afirma gostar de se perder na floresta após ter sido sequestrado, há inconsistências sobre o trabalho de sua mãe e até mudanças arbitrárias em elementos simples, como os produtos vendidos em uma loja de conveniência.
As criaturas do Mundo Invertido também sofrem com a conveniência do roteiro. Demogorgons que massacraram soldados treinados passam a perder para uma dona de casa bêbada, duas vezes, sendo uma delas no pós-operatório. Demon-cães que derrotam militares são facilmente vencidos por adolescentes, sempre amparados por clichês convenientes, como portas de elevador que milagrosamente não se fecham.
O maior anti-clímax da temporada está na batalha final. Prometida como grandiosa, já que os heróis atacariam o vilão em seu próprio território, a luta se resume a Vecna e ao Devorador de Mentes transformado em um kaiju genérico, derrotado com facilidade por adolescentes armados. É uma batalha tão breve e mal coreografada que, se o espectador piscar, perde.

Durante o confronto, Will se conecta à mente colmeia para ajudar contra Vecna. No entanto, quando o vilão é mortalmente ferido e o Devorador de Mentes morre junto, nada acontece com Will. Não há consequências físicas ou emocionais, deixando no ar o questionamento sobre o real peso dessa conexão.
No saldo final, “Stranger Things” encerra sua trajetória com uma temporada decepcionante, marcada por decisões criativas questionáveis. Fica a sensação de que os irmãos Duffer não sabiam mais o que escrever nem como concluir a história. Quem gostou do final seguiu em frente, e está tudo bem. Quem não gostou tem todo o direito de criticar. Já aqueles que ainda esperam por um “final alternativo”, talvez seja hora de acordar: se não souberam como terminar a série, dificilmente planejariam um falso desfecho apenas para surpreender depois.
Imagem Destacada: Divulgação/Netflix
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