Com cenários frágeis, maquiagem de Halloween e humor em excesso, a nova versão de Street Fighter repete os tropeços da adaptação com Van Damme
Seria possível levar aos cinemas um filme em live-action em que homens disparam raios pelas mãos, uma criatura verde brasileira (também dotada de poderes elétricos) divide a tela com um indiano de braços e pernas elásticos e um japonês que agita as mãos com tamanha velocidade que elas parecem se multiplicar? A condição, porém, é a seguinte: o longa precisa adotar um tom sóbrio, com uma narrativa comprometida com a seriedade, até onde isso for viável quando se lida com figuras como as descritas acima.
Talvez algum roteirista consiga a façanha, mas ele ainda não foi encontrado pelos estúdios de Hollywood nem pela Capcom para assinar uma versão de “Street Fighter” que não recorra à galhofa total. Foi assim em 1994, numa produção que se tornou cult trash, e a história se repete agora, em 2026, numa adaptação recauchutada do célebre videogame.
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É evidente que quem compra ingresso para ver “Street Fighter” não espera um texto complexo e erudito, nem diálogos longos e contemplativos. O espectador quer pancadaria e boas sequências de ação. O problema, repetindo o erro do passado, está na pobreza de cenários, figurinos, efeitos visuais e maquiagem, que dificulta o envolvimento do público com as lutas. Elas até convencem aqui e ali graças a coreografias bem-sucedidas, mas, na maior parte do tempo, são tão patéticas que nenhum adolescente habituado aos games atuais conseguirá conter o riso de vergonha alheia.
A desculpa da versão dos anos 90, estrelada por Jean-Claude Van Damme, era o estágio incipiente dos efeitos visuais. Hoje, esse argumento já não se sustenta.
Parece, portanto, que os produtores economizaram justamente onde não deviam, a começar pelos cenários onde os combates acontecem. A construção deles faria corar qualquer designer de produção com um mínimo de brio: por mais que sejam destruídos com estardalhaço, parecem feitos de isopor. Quando alguém se choca contra uma parede, o som transmite a sensação de impacto, mas os escombros caem sem peso algum.
A maquiagem, por sua vez, soa como trabalho de aprendiz, sobretudo a de Akuma. Somada a uma prótese dentária de festa infantil e a uma lente de contato comprada na Rua 25 de Março, ela confere ao personagem qualquer aspecto, menos o de um vilão poderoso e ameaçador. Ele acaba parecendo apenas alguém fantasiado para o Halloween.
E o que dizer dos figurinos, que em certos casos lembram peças saídas de uma sex shop de esquina, em especial os de Cammy (Mel Jarnson) e Chun-Li (Callina Liang), ou de um clube de sadomasoquismo quando Bison (um David Dastmalchian exageradamente afetado) surge em cena? Os de Ken (vivido por Noah Centineo, incapaz de atuar) e Ryu (o galã de pôster Andrew Koji) pouco rendem comentários: são meros quimonos que se encontram em qualquer loja especializada em artes marciais.

Em meio a esse cenário, há uma trama a ser contada em “Street Fighter”, ou ao menos um fiapo de enredo que justifique as sequências de ação. Nela, Bison pretende sequestrar Ryu para roubar-lhe o poder. Em vez de enviar parte de seu vasto exército de capangas, ele convoca o lutador japonês para um torneio e, assim, executa seu plano, o que não faz o menor sentido. Mas os roteiristas precisavam de um campeonato de luta, pois, sem ele, não seria possível chamar o filme de “Street Fighter”.
Assim, se o leitor decidir ignorar tudo o que foi dito até aqui e for ao cinema apenas pela nostalgia de ver certos personagens lutando na tela grande como nos games, talvez se decepcione com a escassez de criatividade nas coreografias e com a compulsão de fazer graça de tudo e de todos o tempo inteiro. Em suma, privilegiou-se o humor e esqueceu-se da ação.
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É verdade que, aqui e ali, o roteiro de Kitao Sakurai, T.J. Fixman e Dalan Musson acerta em algumas piadas, como na cena em que Chun-Li se despe para o banho, em referência à animação “Street Fighter II” (1994), sonho molhado de muitos nerds da velha guarda. A expectativa é quebrada quando a água quente envolve o corpo da personagem em vapor e um corte rápido revela o peitoral de E. Honda (Hirooki Goto) na tradicional casa de banhos que lhe serve de cenário.
Aliás, é nessa mesma casa de banhos que acontece a melhor luta do longa, o confronto entre E. Honda e Ryu. Ali, a escolha acertada foi apostar numa coreografia mais crua, com feição de artes marciais, em que os dois combatem num espaço reduzido. A destruição funciona, principalmente quando o lutador de sumô aplica seu famoso golpe das Mãos Rápidas. Tudo é sóbrio, com texto enxuto e quase nenhum diálogo expositivo.
Infelizmente, na maior parte do tempo, “Street Fighter”, sob a direção de Kitao Sakurai, não preza pela contenção nem pelo bom gosto. O cineasta opta pelo entretenimento mais fácil, o que não seria um mau caminho se ele soubesse o que faz na cadeira de diretor. O público acaba descobrindo isso diante de um filme histérico, sem ritmo, sem senso de urgência e até sem graça, por mais que se esforce para fazer piada o tempo todo.
“Street Fighter” já está disponível em cinemas no Brasil inteiro.
imagem destacada: Divulgação/Paramount Brasil






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