Dominga Sotomayor constrói um drama silencioso sobre maternidade, trauma e confinamento, com bela fotografia, um ritmo que por vezes pesa e uma cadela que rouba o filme sempre que conquista a própria liberdade
Há filmes que contam sua história pelo que os personagens dizem. “La Perra” prefere observar aquilo que eles carregam em silêncio. Silvia, interpretada por Manuela Oyarzún, vive em uma ilha remota no sul do Chile, trabalhando na coleta de algas e levando uma existência marcada por isolamento, rotina e um desejo de maternidade que nunca se concretizou. Quando encontra uma cadela abandonada e decide chamá-la de Yuri, nome que havia escolhido para a filha que nunca teve, alguma coisa começa a se mover dentro dela. A relação entre as duas traz afeto, cuidado e uma possibilidade de preencher um vazio antigo, mas o desaparecimento do animal abre outra ferida e obriga Silvia a confrontar um trauma que permaneceu escondido por anos.

O filme de Dominga Sotomayor adapta livremente o romance homônimo de Pilar Quintana e desloca a história da selva colombiana para uma ilha chilena castigada pelo vento e pelo mar. É um filme de poucas palavras, planos prolongados e uma relação muito forte com o espaço. A ilha não funciona apenas como cenário, mas como extensão da personagem. Há uma sensação constante de distância, dificuldade e confinamento, enquanto o horizonte aberto parece prometer uma liberdade que Silvia nunca alcança completamente. Curiosamente, quem mais entende essa liberdade é Yuri.
A fotografia transforma paisagem em estado emocional
Um dos maiores acertos de “La Perra” está na fotografia. A natureza aparece o tempo inteiro em contraste com a vida de Silvia. O mar é amplo, o céu é aberto, o vento atravessa tudo e a paisagem parece se estender para muito além daquela comunidade. Ainda assim, a protagonista permanece presa a uma rotina estreita, às próprias memórias e a uma relação com a maternidade que nunca encontrou lugar para existir.
Esse contraste visual funciona muito bem porque o filme não tenta explicar tudo em diálogos. A câmera observa água, vegetação, pedras, animais e corpos em movimento para construir aquilo que Silvia raramente verbaliza. O sofrimento não precisa ser anunciado porque já está incorporado à maneira como ela ocupa os espaços.
A fotografia também sabe explorar diferenças de classe e de modo de vida. Quando outros personagens entram naquele universo, especialmente o núcleo ligado ao personagem de Selton Mello, a distância material fica visível sem que o filme precise transformar isso em discurso. A casa, as roupas, a forma de chegar e sair da ilha e até o modo como cada personagem ocupa o espaço revelam mundos muito diferentes coexistindo no mesmo território.
Essa dimensão visual é provavelmente o elemento mais consistente de todo o longa. Mesmo quando a narrativa perde ritmo, há sempre alguma composição, textura ou contraste capaz de manter o interesse.
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Yuri entende a liberdade melhor do que qualquer pessoa ali
Se Silvia vive cercada por limitações, Yuri representa exatamente o oposto. As melhores cenas de “La Perra” são aquelas em que a cadela simplesmente corre.
Ela explora a praia, atravessa a paisagem, se aproxima de outros animais e segue caminhos que ninguém determinou para ela. Nesses momentos, o filme parece respirar de outra maneira. A câmera deixa de observar um corpo preso e passa a acompanhar um corpo que escolhe para onde ir.
É difícil não enxergar ali um contraste direto com Silvia. A protagonista vive em uma ilha, presa a um passado traumático, a expectativas de maternidade e a uma vida que parece ter sido reduzida ao mínimo. Yuri, por outro lado, não reconhece aquelas fronteiras. Ela vai, volta, some, aparece e ocupa o mundo com uma liberdade que a própria dona não consegue experimentar. Essa talvez seja a imagem mais forte do filme.
A cachorrinha rouba a cena porque não precisa carregar nenhum discurso. Sua presença produz uma energia que o restante da narrativa raramente possui. Quando Yuri corre, há movimento. Há curiosidade. Há vida.
Não surpreende que o animal tenha recebido o Palm Dog em Cannes, prêmio dedicado às melhores performances caninas do festival. O mais interessante é que essa presença não funciona só como elemento emocional fácil. Yuri não existe ali para ser “fofa”. Ela é parte da estrutura simbólica do filme e ajuda a tornar visível tudo aquilo que falta a Silvia.

Manuela Oyarzún trabalha quase tudo no silêncio
Manuela Oyarzún conduz Silvia de maneira muito contida. Há poucas falas e ainda menos momentos em que a personagem verbaliza aquilo que sente. A atuação existe principalmente em olhares, posturas, movimentos pequenos e na maneira como o corpo parece sempre carregar alguma tensão antiga. Essa opção combina com o filme, mas exige bastante do público.
Silvia não é uma personagem que se entrega facilmente. A narrativa também não faz esforço para criar identificação imediata por meio de explicações, confissões ou grandes cenas emocionais. Tudo precisa ser construído a partir de observação.
Quando funciona, isso dá ao filme uma naturalidade muito forte. Quando não funciona, aumenta a sensação de distância. É aí que “La Perra” começa a enfrentar seu principal problema: nem todo silêncio tem o mesmo peso.
O filme poderia perder alguns minutos sem perder nada
Com 112 minutos, “La Perra” parece maior do que precisava ser. Há gordura. A construção contemplativa faz sentido dentro da proposta, mas determinadas passagens permanecem por tempo demais sem acrescentar uma nova camada à personagem ou à relação com Yuri. O problema não está no filme ser lento. Existem filmes lentos que produzem tensão, expectativa ou contemplação a partir dessa escolha. Aqui, em alguns momentos, a duração parece apenas prolongar sensações que já foram estabelecidas.
É possível entender o que Dominga Sotomayor procura com esse ritmo. A rotina, o isolamento e a imobilidade de Silvia fazem parte da experiência. Só que o filme nem sempre encontra novas formas de explorar esse estado. Por isso, alguns cortes fariam bem à narrativa.
A redução não precisaria alterar a proposta nem acelerar artificialmente o longa. Bastaria retirar repetições e deixar que os momentos realmente fortes ganhassem ainda mais peso.
Esse excesso é especialmente perceptível porque o filme cresce no trecho final, quando acontecimentos do passado começam a interferir mais diretamente no presente e a história encontra uma tensão que vinha sendo preparada havia bastante tempo.
A troca de tempo é compreensível, mas chega de forma brusca
A estrutura temporal também provoca um dos incômodos mais claros da narrativa. Em determinado momento, o filme muda de tempo para revelar parte do trauma de Silvia. A intenção é compreensível e a informação é importante para entender sua relação com aquele lugar, com a maternidade e com algumas decisões posteriores. O problema está na transição.
Ela acontece de maneira abrupta, quase sem preparação suficiente, e por alguns instantes é necessário reorganizar mentalmente aquilo que está sendo mostrado. Depois, a lógica fica clara e a relação entre passado e presente encontra seu lugar na história. Ainda assim, a passagem parece mais brusca do que precisa ser.
Não se trata de exigir que o filme coloque uma legenda dizendo “anos antes”. A própria linguagem poderia oferecer uma transição mais orgânica sem abandonar a sutileza que domina todo o restante. A escolha chama atenção justamente porque o filme é tão cuidadoso em outras mudanças de estado e atmosfera.

Selton Mello aparece pouco, mas entende exatamente o tamanho da participação
Selton Mello tem uma participação pequena, mas muito eficiente. Seu personagem entra no filme carregando uma energia bastante diferente daquela estabelecida até então. Há mais leveza, abertura e alguma espontaneidade, principalmente porque Selton assume sem cerimônia um portunhol que funciona muito bem dentro da situação.
A graça está justamente em não tentar esconder essa condição. Em vez de buscar uma pronúncia artificialmente perfeita ou transformar o sotaque em questão dramática, ele simplesmente incorpora aquele homem e deixa o encontro funcionar. A participação é curta, mas rouba a cena em alguns momentos.
Há também uma delicadeza na forma como o personagem se relaciona com Silvia, sem precisar ocupar espaço demais dentro de uma história que não pertence a ele. Selton Mello participou do filme em sua estreia na Quinzena dos Cineastas, em Cannes, marcando sua presença no festival também como ator desta coprodução entre Brasil e Chile.
O melhor de sua participação está justamente nessa medida. Ele aparece, deixa marca e sai.
O terceiro ato dá ao filme a energia que faltava antes
“La Perra” melhora consideravelmente quando se aproxima do final. O trauma de Silvia começa a ganhar contornos mais claros, figuras do passado retornam e as relações entre maternidade, medo e culpa começam a se organizar de maneira mais concreta.
A narrativa deixa de depender apenas da contemplação e passa a trabalhar com uma tensão mais direta. Isso não significa que o filme abandone o silêncio ou sua linguagem visual. Ele apenas encontra uma progressão dramática mais definida. É também quando algumas imagens anteriores ganham novo sentido.
O desaparecimento de Yuri, por exemplo, deixa de ser apenas uma situação envolvendo a perda de um animal querido e passa a funcionar como gatilho para uma memória que Silvia nunca conseguiu processar completamente. O filme se torna mais interessante porque finalmente aproxima passado e presente de maneira mais explícita.
Há, porém, uma ironia nisso. O terceiro ato funciona melhor porque acelera um pouco a organização das ideias, o que reforça a sensação de que o caminho até ali poderia ser mais enxuto.

Som e silêncio constroem parte importante da experiência
Em um filme com tão poucos diálogos, o som ganha ainda mais importância. O vento, o mar, os animais e os ruídos naturais da ilha ocupam espaços que, em outra produção, provavelmente seriam preenchidos por música ou conversa. Essa escolha reforça a relação entre personagem e ambiente.
A trilha também aparece de maneira bastante integrada às situações, sem impor emoções ao público. Há música que pertence aos próprios espaços e aos personagens, inclusive em momentos envolvendo Selton Mello, o que ajuda a preservar a naturalidade da narrativa.
O silêncio, porém, funciona melhor quando existe alguma tensão por baixo dele. Em determinadas passagens, esse silêncio carrega expectativa, trauma ou desconforto. Em outras, apenas reforça a sensação de duração excessiva. Essa oscilação resume muito bem o próprio filme.
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La Perra encontra sua melhor imagem quando deixa de tentar controlar Yuri
No fundo, “La Perra” trabalha com uma oposição bastante simples e eficiente. Silvia quer cuidar, proteger, preencher uma ausência. Quer transformar Yuri em alguma coisa que possa permanecer ao seu lado. Mas Yuri não existe para preencher esse vazio.
Yuri corre, some, volta, explora, segue instintos que não obedecem ao desejo humano de controle.É quando o filme acompanha essa liberdade que encontra suas imagens mais bonitas e sua ideia mais clara.
A maternidade aparece ali menos como posse e mais como tentativa de lidar com a impossibilidade de controlar completamente aquilo que se ama. Essa leitura também torna o desaparecimento da cadela mais doloroso para Silvia. Não se trata só da perda de um animal. Existe uma tentativa de maternidade projetada naquela relação, e o sumiço reabre algo que já estava enterrado havia muito tempo.
“La Perra” é um filme interessante, visualmente muito bonito e com algumas ideias fortes, mas que parece querer permanecer dentro de suas próprias imagens por mais tempo do que elas conseguem sustentar.A fotografia merece destaque.
Manuela Oyarzún sustenta muito bem uma personagem construída quase inteiramente na contenção. Selton Mello aproveita com inteligência os poucos minutos que recebe. Mas é Yuri quem oferece ao filme aquilo que ele mais precisa: movimento, espontaneidade e liberdade.
Quando a cadela corre pela paisagem, Dominga Sotomayor encontra uma força que não precisa de explicação, flashback ou diálogo. Basta acompanhá-la. E talvez o próprio filme pudesse ter aprendido um pouco mais com ela: correr quando há caminho pela frente e saber deixar algumas coisas para trás.
Esse filme foi assistido durante o Festival do Rio 2026.
Imagem Destacada: Divulgação/RT Features



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