Se pudéssemos definir o que representa o Cartoon Network para nossa geração, com certeza seria o termo “construção de uma identidade”. No Brasil, Cartoon conta com nada mais, nada menos que 23 primaveras. Logo, não é difícil de entender o porquê de os desenhos deste canal terem influenciado toda uma geração. Eles ajudaram muitas crianças a entenderem, de maneira bem subjetiva, as problemáticas que cercam o mundo. E são sobre essas mensagens transmitidas pelas animações que vamos debater com vocês.

Quem acha que o debate sobre questões sociais começou apenas agora no CN, está enganado. Mensagens muito mais escrachadas, se assim podemos referir, já eram apresentadas há 20 anos. Nessa primeira parte, trazemos detalhes da animação que quebrou tabus, “As Meninas Superpoderosas”.

Família

Quando se pensa no tema, a primeira animação clássica do Cartoon que vem à mente são “As Meninas Superpoderosas”. Muito mais do que a história de três garotinhas com superpoderes que lutam contra os vilões que tentam tomar a cidade de Townsville, “As Meninas Superpoderosas” dá uma aula sobre quebrar tabus. Primeiramente, é importante entender a formação familiar das meninas. Elas nascem de um experimento criado por um pai solteiro. Ao pensar no “nascimento” das garotas, nos vem à cabeça a metáfora de uma adoção. Como explicar para uma criança que três garotas foram adotadas e vivem com um pai solteiro? Olha, “vamos fazer elas serem um experimento.” Com essa grande sacada, a origem das garotas começa apenas quando elas conhecem o Professor. Vale ressaltar que, naquela época, pais solteiros cuidando de filhas era algo bem incomum. E vamos combinar: até hoje ainda é um pouco.

Personalidade

Cada uma das meninas pode ser vista coma as partes que se completam da personalidade de uma criança. Florzinha representa a inteligência e liderança, e até um pouco do egocentrismo, no melhor uso do termo. Em um grupo de crianças, há sempre uma que se apresenta como a líder. Florzinha é essa pessoa. Lindinha traz a inocência. Ela é doce e representa realmente o que é ser infantil. Docinho mostra a força das crianças. Ela se impõe e não baixa a cabeça para ninguém. É o oposto da Lindinha, e muito mais parecida do que parece com Florzinha, já que as duas buscam ser a mente dominante do grupo.

Sexualidade

Ainda dentro do desenho, a sexualidade também é bem exposta. Quem não se divertia com a icônica representação do rei do mal, apenas chamado de “Ele”? O personagem é conhecido pelo jeito afeminado mesmo sendo representado como uma figura masculina. Na própria animação, “Ele”, quando está irritado altera o tom de voz mais agudo para o tom grave. Ele usa roupas felpudas com cores fortes. Seria coincidência representá-lo (la) como uma Drag Queen? Uma versão americana de Madame Satã? Uma possível interpretação particular é que a escolha de um Diabo para apresentar as próprias questões se deve até um fator bíblico. Lúcifer era um anjo e anjos não têm sexo. Isso poderia representar as mudanças de tom de voz e aparência do personagem. E escolhê-lo como vilão seria uma crítica ao fato de demonizarem a figura das Drag Queens. Enfim, não há nenhuma comprovação ou mesmo uma entrevista do autor falando sobre. É apenas mais uma interpretação subjetiva.

A mudança de sexualidade não é apenas representada no vilão Ele. Como apresentar as crianças a existência da transexualidade? Simples. Vamos trocar de roupa. Não posso afirmar ao certo se foi isso que os autores da animação pensaram, mas que a ideia foi muito boa, isso sim. Ao acompanhar a história, diversas vezes os personagens assumiram os papéis dos sexos opostos. Professor Utônio já se travestiu de mulher. Macaco Loco também. Este, aliás, se vestiu de garota para se infiltrar numa festa do pijama das meninas. Lindinha já virou o prefeito, e até o próprio Macaco Loco. Essas mudanças de vestimentas parecem mostrar, de forma subjetiva, que a identificação com a sexualidade ocorre em qualquer idade, e que é algo natural. Em nenhum momento da história, a troca de vestimentas dos personagens é questionada como um problema. É tudo transmitido de forma natural.

Girl Power

Na atualidade, muito por conta da difusão de informação intensificada pela internet, nunca foi tão intenso o debate sobre o papel da mulher na sociedade contemporânea. Mas, há 20 anos, as garotinhas já discutiam o tema. Em um dos episódios mais icônicos da série, Florzinha, Lindinha e Docinho enfrentam uma super vilã que as questiona sobre o papel delas como heroínas, já que elas estavam sendo desqualificadas por um grupo de super heróis, conhecido como Amigos da Justiça. Depois do episódio, as meninas passam a entender o papel que elas exercem na sociedade e que não deixariam nenhum homem ditar o que elas são ou não capazes de fazer.

Mas não foi nesse episódio que elas impuseram o papel feminino em destaque. Durante toda a animação, as meninas sempre enfrentam homens de igual para igual, lutam para que as mulheres lutem juntas contra as imposições que o mundo coloca sobre elas. Vale lembrar também que as personagens femininas têm um protagonismo muito forte em toda trama. Sua professora, Senhorita Keane, sempre ensina as garotas sobre o papel da união e do trabalho em equipe. Sedusa é uma das vilãs mais fortes de toda animação. Senhorita Belo é a cabeça pensante do prefeito. Sem ela, ele não seria nada.

Toda interpretação é subjetiva. Cada um tem sua forma particular de enxergar as coisas, e as animações não fogem deste contexto. O que foi apresentado aqui foram algumas questões que percebemos ao longo da nossa infância e até os dias de hoje. Na próxima parte, o bullying na infância será o tema principal da discussão. Ah, não se esqueça de deixar comentários na página. Até a próxima.


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Diego Andrade

Uma pitada de esportes, duas colheres de redes sociais e uma xícara de mundo geek. Esses foram os elementos que o criaram. Seu computador é o reflexo dos seus gostos: está sempre conectado às redes sociais, aos sites de notícias e as novidades do universo geek e otaku (até porque ninguém é de ferro, só o Tony Stark)

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