Análise mostra como séries e produções de true crime influenciam a percepção do público e levantam debates sobre os limites da dramatização
O crescimento das produções de True Crime nos últimos anos consolidou o gênero como um dos mais populares do cinema, da televisão e das plataformas de streaming. Filmes, séries e documentários inspirados em crimes reais despertam curiosidade, levantam debates e ajudam a compreender acontecimentos que marcaram a sociedade. Mas, ao mesmo tempo, também trazem um questionamento importante: será que o público consegue separar a dramatização dos fatos reais?
Essa talvez seja uma das discussões mais relevantes envolvendo o gênero. Afinal, por mais fiel que uma produção tente ser, uma dramatização continua sendo uma adaptação audiovisual. Ela possui roteiro, direção, fotografia, edição, trilha sonora e interpretações que transformam acontecimentos reais em uma narrativa pensada para envolver o espectador.
Isso significa que nem tudo o que aparece na tela aconteceu exatamente daquela forma. Diálogos podem ser recriados, cenas condensadas, personagens adaptados e acontecimentos reorganizados para tornar a história mais fluida. Essas escolhas fazem parte da linguagem do audiovisual, mas também podem fazer com que parte do público passe a enxergar aquela versão dramatizada como se fosse um retrato totalmente fiel da realidade.
É justamente aí que surge um dos maiores desafios do true crime.
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Quando a ficção começa a influenciar a percepção da realidade
Nos últimos anos, algumas produções reacenderam debates sobre os limites entre contextualizar um crime e transformar seus envolvidos em figuras de interesse da cultura pop.
Um exemplo recente é a série “Tremembé“, inspirada na obra do jornalista Ulisses Campbell. Além de abordar crimes de grande repercussão nacional, a produção também retrata a convivência entre detentas na Penitenciária Feminina de Tremembé, incluindo Suzane von Richthofen, Elize Matsunaga e Sandra Regina Ruiz, conhecida como (“Sandrão”). A narrativa explora ainda o relacionamento afetivo que existiu entre elas, elemento que também passou a despertar a curiosidade do público. A série, no entanto, utiliza recursos dramáticos próprios da ficção para reconstruir essa história.
Com a repercussão da produção, cenas da personagem Suzane, interpretada por Marina Ruy Barbosa, passaram a circular amplamente em vídeos curtos e montagens nas redes sociais. Muitos usuários destacavam a frieza, o comportamento calculista e o poder de persuasão da personagem. Ao mesmo tempo, diversos espectadores fizeram questão de esclarecer que a admiração era direcionada à atuação de Marina Ruy Barbosa e à construção da personagem, e não aos crimes cometidos por Suzane.
Ainda assim, a repercussão reacendeu um debate importante: até que ponto uma dramatização pode influenciar a forma como determinadas figuras passam a ser percebidas pelo público?
O caso de Elize Matsunaga também ilustra essa discussão. Após o lançamento de produções sobre sua história, surgiram manifestações de simpatia e apoio nas redes sociais. Parte dos espectadores passou a demonstrar empatia por sua trajetória pessoal e pelo contexto apresentado nas obras. Embora compreender as circunstâncias de um crime seja importante para entender a narrativa, isso não significa justificar ou relativizar um homicídio.
Compreender uma pessoa não é o mesmo que inocentá-la. Conhecer sua história também não significa transformá-la em exemplo ou objeto de admiração.

O papel das produções
É importante destacar que o problema não está na existência do gênero true crime.
Muito pelo contrário.
Quando produzido com responsabilidade, o true crime pode cumprir um papel relevante ao preservar a memória de casos que marcaram a sociedade, estimular debates sobre violência doméstica, feminicídio, desaparecimentos, sistema prisional, atuação da Justiça e falhas em investigações. Além disso, muitas produções ajudam o público a compreender como determinados crimes aconteceram, quais fatores contribuíram para eles e quais sinais de alerta poderiam ter sido identificados antes que a violência acontecesse.
Há, inclusive, relatos de espectadores que afirmam ter aprendido a reconhecer comportamentos manipuladores, relacionamentos abusivos, golpes e outras situações de risco após consumirem esse tipo de conteúdo. Em eventos como a CrimeCon, uma das maiores convenções dedicadas ao gênero, participantes relataram que assistem a produções de true crime justamente porque acreditam que elas aumentam sua percepção sobre situações perigosas e podem contribuir para decisões mais seguras no cotidiano.
Embora não se trate de uma produção de true crime, um caso frequentemente citado para ilustrar o impacto que o audiovisual pode exercer é o de Terra Newell, sobrevivente da história que inspirou a série “Dirty John”. Em 2016, ela foi atacada pelo padrasto, John Meehan, um golpista e agressor que tentou assassiná-la em um estacionamento. Durante a luta, Terra conseguiu desarmá-lo e reagiu em legítima defesa, matando o agressor. Posteriormente, ela revelou que, no momento do ataque, lembrou-se de cenas da série “The Walking Dead”.
Em entrevista, afirmou: “Eu sou uma grande fã de televisão. Amo “The Walking Dead” e foi ali que aprendi a matar John como um zumbi.”
Em outra ocasião, explicou que desferiu o golpe final porque se recordou de que, na série, a forma de eliminar um zumbi era atingir o cérebro.
Terra também contou que ainda possui lembranças fragmentadas daquele dia devido ao trauma. “Ainda estou reconstruindo essa memória. O cérebro costuma bloquear os acontecimentos traumáticos”, afirmou ao recordar o episódio.
O caso foi investigado pelas autoridades norte-americanas, que concluíram que ela agiu em legítima defesa.
Evidentemente, uma série de televisão não substitui treinamento em segurança, orientação profissional ou políticas públicas de prevenção à violência. No entanto, relatos como o de Terra demonstram que produções audiovisuais podem influenciar a forma como algumas pessoas percebem situações de risco e reagem diante delas.
Sob esse aspecto, o true crime também pode desempenhar uma função educativa e de conscientização. O desafio está em encontrar um equilíbrio: informar, preservar a memória das vítimas e estimular reflexões importantes, sem transformar criminosos em figuras de fascínio ou fazer do sofrimento humano apenas uma forma de entretenimento.

O desafio ético
Isso, porém, não elimina a necessidade de responsabilidade.
As produções precisam encontrar um equilíbrio entre contar uma boa história e preservar o respeito às vítimas e aos familiares. Recursos de direção, fotografia, trilha sonora e interpretação podem tornar uma narrativa envolvente, mas não deveriam transformar criminosos em figuras glamorizadas ou fazer com que o sofrimento real seja tratado apenas como entretenimento.
Da mesma forma, o público também possui um papel importante. É natural admirar o talento de um ator ou atriz que entrega uma interpretação convincente. O que exige reflexão é quando essa admiração deixa de estar voltada para a performance artística e passa a recair sobre pessoas que cometeram crimes reais.
Separar personagem e pessoa real é um exercício necessário.
No fim das contas, talvez essa seja a maior responsabilidade compartilhada entre quem produz e quem consome esse tipo de conteúdo: compreender que, por trás de cada roteiro, existiram vítimas, famílias e acontecimentos que ultrapassam a ficção. O true crime continua sendo um gênero importante justamente porque pode informar, conscientizar e promover debates relevantes. No entanto, seu impacto será mais positivo quando a dramatização servir para ampliar a compreensão dos fatos , e não para romantizar aqueles que fizeram parte deles.
Imagem destacada: Divulgação/Prime Video


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