Logo ao subir as escadas do teatro a plateia é surpreendida com um cheirinho de café e uma pequena fila que se forma para recebê-lo. Caso queiram, também podem degustar uma dose de cachaça que está ali disponível! Esses mimos já abrem, de certa forma, o coração do público para o que esta por vir. Ao seguir para o teatro, que deixa o espectador bem próximo da cena, e é bastante aconchegante, o público se depara com uma cenografia belíssima, assinada por Viviani Rayes e Yashar Zambuzzi, que nos remete a uma taberna, daquelas de antigamente por onde todos os moradores locais passavam. Nela, entre mesas e cadeiras, estão alguns espectadores que, escolhidos aleatoriamente, foram privilegiados e acompanharam o espetáculo dali, cara a cara com o ator e com a história que será contada. Ou melhor, já esta sendo contada e eles fazem parte dessa história.

O sr. Marmieládov, ex funcionário público, já se encontra naquele bar sentado diante de sua “companheira” de vida: uma garrafa de cachaça. O figurino primorosamente concebido, é assinado por Rogério França e já nos apresenta um pouco do que é a situação em que se encontra esse homem. Decadente, maltrapilho, sujo, talvez alguém que já desistiu de sua própria vida, mas ainda esta aqui passando os dias vivendo suas dores e dissabores. Esses pequenos detalhes, corroboram com o peso desse personagem e com a trama que será compartilhada.

A iluminação, assinada por Elisa Tandeta, se dá por meio de luminárias antigas que contribuem para criar uma atmosfera intimista e ébria que vai nos envolvendo ao longo dos 50 minutos de espetáculo. Sim, é curto! Sim, é potente e forte! Hora temos uma cena de luz mais baixa, hora somos envolvidos por outra mais forte que acentua as curvas dramáticas desse personagem.

A dramaturgia de Dostoiévski e Rimbaud, propõe uma homenagem a Brecht, e apresenta-se como uma chamada à auto reflexão sobre o humano, sua sensibilidade e seus julgamentos. A Frase “Os senhores, por favor, não fiquem indignados, pois todos nós precisamos de ajuda, coitados” é repetida várias vezes ao longo da cena e a cada vez toma um novo sentido e nos obriga a parar e perceber que já julgamos esse senhor antes mesmo dele começar a falar. Julgamos sua situação, suas escolhas, suas falhas, sua vida e sua situação. Nossos padrões mentais nos traem e quando nos damos conta já nos tornamos juízes e o sentenciamos com variadas penas ao longo da peça.

A direção de Viviani Rayes e a atuação de Yashar Zambuzzi propõe um desabafo, uma conversa de bar entre o sr. Marmieládov e o espectador que se mantém atento a cada palavra, e são muitas, a cada gesto, a cada cambalear, a cada gole que ele dá na bebida. De “apenas mais um bêbado”, esse homem vai se desnudando e se mostrando tão humano quanto as pessoas que o estão escutando. Como julgar alguém que, como nós mesmos, é tão humano e cheio de falhas? De que forma apontar o dedo e vociferar insultos poderia ajudá-lo? De quantos vícios também nós somos feitos? Como sentenciá-lo à morte por seus “crimes”, quando ele mesmo já o fez há tanto tempo atrás? É preciso que reflitamos sobre nós mesmos, sobre as relações que temos construído diariamente com o próximo – bem como os não tão próximos assim – e esse espetáculo existencialista nos conduz a isso.

O personagem central desta história é homônimo ao do romance “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, um dos pontos de partida para a construção da peça que foi adaptada pelo também ator Yashar Zambuzzi. Ele fala sobre miséria humana, sobre tragédias familiares, situação social de camadas mais pobres da sociedade e reflete à cerca da condição humana, quase de forma atemporal, salvo pela estética da taberna, local onde se passa o drama.

Vale muito a pena conferir a peça que fica em cartaz no teatro Glauce Rocha até dia 23 de Julho. Acesse nossa agenda para outras informações. E para acompanhar as novidades sobre o espetáculo você pode acessar a página oficial deles.

Confira nossa outra crítica sobre a produção, feita em sua primeira temporada no Rio.

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