Quem não lembra do bafafá que foi esse tal bug do milênio? Pelo que eu me lembro era um problema que faria todas as máquinas do mundo voltarem a contagem dos anos 1000. E também foi um dos anos que mais fortemente teve a crença do fim dos tempos.

Essa primeira década dos anos que começam pelo 2, eu apenas lembro de ter trocado novelas por séries. Assisti várias que passaram aqueles anos: “Gilmore Girls”, “Smallville”, “The O.C.”, “Supernatural” e “Popular”. Eu era uma verdadeira ratinha de séries, assistia todas que o SBT passava no domingo antes do Domingo Legal. Ainda me sinto órfã da Marissa e toda vez que vejo os atores que saíram das séries eu falo: olha o Ryan do “The O.C.”, o Clark de “Smallville”, a Lorelai de “Gilmore Girls”.

Apesar de não ter acompanhado vários desfechos dessas séries, em algumas um episódio ou outro, eu sempre acabo vendo. “Gilmore Girls” sempre teve meu maior carinho: eu vi todas as temporadas apenas uma vez (assumidamente sou fã da primeira temporada e o resto eu sofro vendo!) e fiz questão de assistir o revival que a Netflix fez em 2016. Gostava do modo de resposta rápida e referências a cultura pop que elas tinham.

O SBT, aliás, acabou sendo um grande exibidor de enlatados internacionais. Novelas mexicanas entraram no país e, se antes eram consideradas bregas, algumas fizeram sucesso do regular ao estrondoso: “Cúmplices de um Resgate”, “O Diário de Daniela”, “Rubi, A Usurpadora”, “as Marias da Thalia” são apenas alguns exemplos do que vem sendo reprisado constantemente nas tardes da emissora. Ainda que eles adquiram novelas mais recentes, sempre voltam ao trunfo. Isso sem esquecer de seus meninos dos olhos, Chaves. A produção mexicana, que não é uma novela, passa há vários anos ininterruptos. Quando a emissora tentou tirar do ar, viu seus números caírem e o público pedir por e-mail e telefones.

Mas, sem dúvidas nenhuma, o maior fenômeno do SBT em relação as produções mexicanas é “Rebelde”. O remake mexicano de uma novela da argentina já era uma febre no México, foi adiado três vezes, até por fim estrear no Brasil e ter resposta quase imediata entre o público infanto-juvenil. O sucesso da novela (vou me ater a ela, porque em outra coluna falei sobre o sucesso da banda) foi tanto que a emissora paulista viu seus números saltarem de 6 pontos para o dobro. Como é típico da emissora, que segue fielmente as ordens às vezes doidas, às vezes inteligentes do patrão Silvio Santos, Rebelde foi cortada e arrastada várias vezes, tudo para esticá-la e manter seus números o máximo possível.

Obviamente, a Globo nunca deixou de fazer novelas também. Contando os anos 2000, temos “Laços de Família”, “Senhora do Destino”, “Chocolate Com Pimenta”… Eles começaram a fazer novelas com um cunho mais espiritualista, tipo “Alma Gêmea”, que foi um sucesso gigantesco e já foi reprisada diversas vezes. As produções globais também viveram nesses anos o começo de uma ideia que hoje é bem forte: as histórias com fundo social. Em “O Clone”, além de acertadamente discutir a clonagem humana pela ciência, houve uma forte argumentação sobre o vício de drogas. Pela primeira vez não era um personagem coadjuvante como drogado, nem o vilão. Era uma protagonista e mocinha.

Seguindo essa mesma linha, “Malhação” teve seu momento mais dramático e adulto. Não é uma novela como a de hoje onde vemos apenas mocinhas e vilãs meio fúteis. Entre os anos 2000 e 2004, a novela discutiu AIDS e doenças sexualmente transmissíveis, gravidez na adolescência, erro médico, violência contra a mulher, homossexualidade, racismo e diversas outras formas de preconceitos. Evidentemente, o público era infanto-juvenil e tudo era discutido com uma carga dramática menos densa, mas me arrisco a dizer que foram os melhores anos e as melhores histórias que passaram pela novelinha.

Saindo um pouco das novelas, vimos uma “invasão” pouco comum na TV. Uma galera que fazia show de humor às vezes em rádio, às vezes no YouTube (quando o site estava começando) e, às vezes, até no Teatro, começou a ganhar espaço em rede nacional e aberta, tal é o caso do “Pânico” e “CQC”. O primeiro, eu assumo, não acho muita graça. Algumas vezes apelativo, algumas vezes vazio, algumas vezes inteligente. A maior parte do programa é uma bagunça entre sátiras, piadas e brincadeiras. Eles já foram processados diversas vezes, mas acabaram ganhando notoriedade. E se incomodam é que alguma coisa certa eles estão fazendo, correto?

O CQC” foi inteligente até 2010. O elenco era formado por oito homens, a princípio, logo depois entrou Monica Iozzi, com diversas formações universitárias e encabeçados pelo experiente jornalista Marcelo Tas. Eles traziam um conteúdo de entretenimento, política e humor, tudo misturado. Enquanto o elenco não se dava muito crédito tudo estava bem. As matérias eram engraçadas e ao mesmo tempo chocantes. Muitas vezes, vimos políticos perderem o jogo de cintura ao terem que responder perguntas que ninguém, até aquele momento, tinha tido coragem de fazer. O problema foi que depois cada um foi se acreditando demais e aquela palavrinha chamada ego acabou dominando alguns e o programa foi ladeira abaixo.

E aqui, deixamos os anos de 2000 até 2010. Entramos nessa década com medo do fim do mundo e saímos nos perguntando o que mais tinha para vir. Se eu soubesse que em 2017 estaríamos no “BBB 17”, tinha pedido pra pular essas duas décadas!


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Marya Cecília Ribeiro

Marya Cecília é goiana de nascimento, mora em São Paulo há seis anos e ainda assim não consegue lidar com o clima 4 estações em um dia que rola nessa cidade.
Tem umas manias esquisitas, tipo ver um filme que gosta várias vezes, mas esta tentando lidar com isso (ou não). Falando nisso, ela não faz questão nenhuma de ser normal, então podemos apenas seguir em frente!

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