Ainda choram Marias e Clarices, já são 35 anos sem Elis Regina. Entre as grandes  cantoras brasileiras nenhuma foi maior do que a baixinha de Porto Alegre, que se transbordou como artista e fez entender, também, em seus tantos papéis sociais: a mãe, a esposa, a amiga e a cidadã.

Elis não sabia apenas cantar, mas escolhia como ninguém o que cantar. Lançou diversos compositores e sucessos da música brasileira. Fez diversas parcerias que são lembradas até hoje como: “Elis e Tom”, com o mestre Tom Jobim, “Doce Pimenta” com Rita Lee e o “Fino da Bossa” ao lado de Jair Rodrigues. O Brasil era pequeno para Elis, e do Beco das Garrafas ela foi além: passou por cidades do mundo inteiro, e chegou a cantar no Teatro Olimpya, a mais antiga e famosa casa de espetáculos de Paris, neste foi a primeira cantora a se apresentar duas vezes em um só ano.

Sempre engajada politicamente e contra a ditadura militar, Elis chegou a chamar os governantes de “Gorilas” em uma entrevista. Não chegou a ser exilada graças a sua popularidade, mas foi obrigada a cantar o Hino Nacional em eventos do governo. A música “O Bêbado e a Equilibrista” foi denominada de “Hino da Anistia” e foi trilha sonora para a volta de artistas brasileiros do exílio.

Mãe de três filhos, Elis deixou grandes nomes da música. Pedro Mariano, João Marcelo Bôscoli e Maria Rita eternizam a obra, simpatia e graça da mãe pelo mundo. Entre os amigos saudosos que ficaram, Marília Gabriela fez, em seu primeiro episódio do programa “TV mulher” do canal Viva, uma homenagem a cantora e emocionou todos que assistiram sua carta para a amiga. Nela, a jornalista mostra para Elis tudo o que mudou e permaneceu do dia de sua morte, até hoje. O programa contava com a presença da cantora Maria Rita e sua filha, Alice, assim como Elis foi um dia.

É difícil definir Elis Regina. A melhor forma, talvez, seja usando uma das frases da própria cantora:

“Se ser geniosa, exigente e não gostar de ser passada para trás é ser mau caráter, então eu sou.” – Elis Regina

Autodenominada kamikaze, o temperamento forte de Elis hora era fogo e outra trovão, e andava lado a lado com seu potencial vocal, e devido a esse gênio forte, foi apelidada de “Pimentinha” pelo grande Vinicius de Moraes. Suas interpretações eram impecáveis e marcavam cada apresentação com seu jeito único de se movimentar e colocar a música para fora. Como sua atuação, ou não, impecável da música “Atrás da Porta” de Chico Buarque no DVD “Grandes Nomes”, sempre é lembrada pelos fãs por suas lágrimas insaciáveis. Chegou a dizer que neste país apenas duas cantavam: ela e Gal Costa. Há quem confirme esse comentário.

E em 19 de janeiro de 1982, este mundo também ficou pequeno para Elis e ela tomou o céu, deixando uma enorme discografia que passeia por sucessos como: “Falso Brilhante”, “Arrastão”, “Águas de Março”, “Casa no Campo” e muitos outros que ainda cantarolamos por todo o mundo. Mesmo aqueles que não viveram no tempo da “Elis-cóptero”, como era chamada por Rita Lee, buscam ter contato com sua obra, e se encantam com tamanha riqueza que ela nos deixou.

Elis ainda vive. Nos últimos cinco anos, tivemos uma homenagem realizada pela caçula, Maria Rita, aos seus 70 anos, a aclamada peça “Elis, a musical” com a brilhante Laila Garin no papel de Elis, e ainda temos, sua biografia por Julio Maria e o mais recente filme “Elis”, em que Andreia Horta mostrou que, realmente, a pimentinha ainda está presente no coração dos brasileiros.


Por Carolina Gomes