Com “A Margem do Rio”, os diretores Enock Carvalho e Matheus Farias trazem força e resistência em um filme impactante
O cinema nacional contemporâneo acaba de dar mais uma demonstração avassaladora de força, vigor e urgência política com o sucesso de “A Margem do Rio”, grande vencedor da Première Brasil na 28.ª edição do Festival do Rio.
Dirigido por Enock Carvalho e Matheus Farias, o longa-metragem, que também passou pela 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e pelo prestigiado Festival de Locarno, consolida-se como um dos maiores acontecimentos cinematográficos do ano ao unir suspense febril, erotismo e uma contundente crítica social alinhada à realidade brasileira atual.
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Coproduzido no Brasil por produtoras locais e na Alemanha por parceiros internacionais, o filme é distribuído e impulsionado por circuitos que dialogam diretamente com a maioria dos públicos.
A trama acompanha Izaquiel, interpretado com intensidade e de forma magnética por Caique Copque, um jovem auxiliar de serviços gerais e faxineiro em Recife que se aventura todas as noites pelas rotas fluviais e manguezais da cidade em busca de encontros sexuais casuais, prática conhecida no universo queer como cruising. É nessas incursões à margem da sociedade que ele cruza o caminho do misterioso e enigmático pescador Jeremias, vivido por Ítalo Martins literalmente como uma força da natureza, tão calmo quanto perigoso.

No entanto, a atmosfera de mistério, misticismo e desejo que permeia as águas escuras do mangue colide violentamente com a realidade opressiva do dia a dia quando Izaquiel é transferido para trabalhar como auxiliar de limpeza em uma igreja evangélica liderada pelo implacável pastor Eurico, encarnado de forma assustadora, e perturbadora pois é baseada na calma pelo excelente Robério Diógenes.
O filme brilha ao propor que a comunidade LGBTQIAPN+ não apenas resista à violência, mas reaja com o corpo, com o afeto, com alegria e com o desejo, mesmo com tantas agruras, escancarando como o verdadeiro terror não vem das lendas das águas e nem das orientações sexuais sejam quais forem, mas sempre do avanço de um fundamentalismo religioso empenhado em vigiar, disciplinar e na maior das violência, punir corpos.

Vencedor de cinco prêmios no Festival do Rio — incluindo Melhor Filme, Melhor Fotografia para Luciana Baseggio (que transforma os mangues em um organismo vivo e sombrio após impressionar a Europa com “Ato Noturno”), Som, Atriz Secundária (prêmio partilhado por Renna Costa, Artia e Ísis Broken) e o cobiçado Prêmio Félix —, o projeto também traz referências diretas a produções como “O Agente Secreto” e evoca clássicos do suspense como “Um Estranho no Lago” (L’Inconnu du lac) e “Tropical Malady”.
Com uma montagem que provoca sensações totalmente diferenciadas entre o fascínio e o terror da violência, assinada por Matheus Farias e Will Domingos e um design sonoro impecável de Daniel Turini e João Victor Coura, a obra é coproduzida entre Brasil e Alemanha, marcando a estreia triunfal da dupla na direção de longas após o sucesso do curta “Inabitável”.
Mesmo quando se arrisca a fechar o terço final com uma cadência apocalíptica que por vezes peca ao secundarizar o romance inicial em prol de caminhos mais convencionais já vistos em outras obras, o longa ainda entrega uma experiência essencial, política, sinestésica e profundamente inesquecível para o audiovisual brasileiro.

Fica evidente que Enock Carvalho e Matheus Farias encontraram uma linguagem própria para o filão do suspense contemporâneo: o terror com o afeto dos seus pares, o sobrenatural mas de linguagem sóbria e a crítica social sem a espetacularização.
Outro mérito do filme é tornar até os coadjuvantes além do registro funcional acrescentando mais camadas e sentimentos ao público, embora falte ir um pouco além do mostrado para entrar de cabeça no misticismo e completar a visão apocalíptica que insinua no final.
A atuação Caique Copque, a presença cool de Ítalo Martins e a expressividade de Robério Diógenes — que lembra um bispo maléfico de “Ladyhawke” (O Feitiço de Áquila) ou Claude Frollo, o famoso arquidiácono e vilão de “O Corcunda de Notre-Dame”, sustentam as tensões que emergem a partir do choque entre o erotismo das águas escuras do Recife e o atual moralismo institucionalizado, provando que, no cinema nacional de 2026, a maior de todas as assombrações continua a ser a vontade humana de controlar a liberdade alheia.
Assistido durante a Mostra SP.
Imagem Destacada: Divulgação/Vitrine Filmes



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