You think your sins require it, but they don’t.

Essa frase do Otto para a Carrie é uma isca de como a heroína de “Homeland” se comporta. Os pecados do passado a assombram e ela até tenta consertá-los, mas nesse universo particular pecar é regra. “Homeland” é uma série densa, ela começa em sua primeira temporada partindo de uma desconfiança. Não há quebra do mundo calmo: o mundo de “Homeland” é contemporâneo e incerto. Há sempre tensão nas cenas e aquela sensação de que algo vai explodir, e nem é analogia com a temática de políticas externas e conflitos USA x Grupos armados do Oriente Médio, as cenas sempre carregam essa sensação de alerta vivida pela protagonista, como se estivéssemos segurando algo muito delicado que não pode cair no chão.

Há quem classifique a série como xenofóbica por – tratar muçulmanos como terroristas – e por aí vai. Vejo de maneira diferente, embora não caiba a mim nesse caso dizer o que é ofensivo ou não. Tem uma frase dita no primeiro episódio pelo rapaz Sekou, personagem dessa sexta temporada, que representa bem a série como um todo: “há dois lados de cada história, saiba disso.”. A Obra tem uma protagonista americana, agente da CIA que, digamos, protege o país das tais ameaças externas. A perspectiva de defesa é sempre do lado representado na tela. Vilões e mocinhos não são personas, são papéis mutáveis que vestem atores de acordo com a visão do herói. Lembremos de “House of Cards”, que tem um protagonista assassino, mas o espectador torce por ele, afinal, é o olhar que visitamos.

A produção apresenta o tempo inteiro a questão da dualidade de visões, fez isso na primeira temporada, fez isso em todas. Nós sabemos que a Carrie, que já foi chamada de drone queen, está sempre a serviço da CIA e o que ela tem que fazer no final do dia (ou ao final de cada arco). Porém sempre conseguimos visitar um pouco do lado oposto da narrativa, a pergunta está sempre lá estampada: você acha que as coisas são tão simples? Por se tratar de um tema extremamente atual, a série fica com essa cara de ficção que está dizendo coisas políticas, e está, mas é ficção. A vida por vezes dá uma espiada nas salas de roteiristas e nos dá a sensação de que estamos vivendo momentos irreais. Mas a realidade é sempre muito mais improvável. E cruel.

Atenção Spoiler: Sexta Temporada

A sexta temporada chega respondendo a dúvida que havia deixado no final na quinta: Quinn vive? Sim, ele vive. Mas como estamos em “Homeland”, nem os começos são tão felizes. Carrie está dedicada à recuperação dele, mas ele parece repeli-la. Fica claro que ele está inconformado com a própria condição. Quinn é um soldado, e em todas as temporadas anteriores ele chegava para salvar o dia. Agora a sua posição é de impotência, de precisar de ajuda. Aquele “let me go” trocado com Carrie é a pensata do relacionamento deles. Há um pedido de “me deixe ir”, mas nenhum dos dois deixa. Se veremos a conclusão dessa dinâmica até o fim da temporada ainda é um mistério, mas seria bom ver a próxima temporada evoluir para outro lugar.

No quesito política, Carrie está defendendo pessoas presas injustamente em casos de terrorismo – ou assim supostas. Saul e Dar Adal estão lidando com uma nova presidente eleita, que ainda não assumiu o cargo, mas já demonstra divergências em relação às políticas externas adotadas pela CIA.

Novamente Carrie está tentando se livrar de suas amarras com a CIA e tentando levar uma vida normal. Mas como o normal da Carrie é seguir seus instintos e dar vazão a desconfianças, podemos esperar uma nova velha temporada de “Homeland”, que sempre consegue se renovar após aparentemente já ter se esgotado. Para assistir roendo as unhas, a série já está no terceiro episódio da sexta temporada e em menos de três horas você consegue colocar em dia os episódios novos. Para quem gosta de dramas políticos com suspense “Homeland” precisa estar na lista.


Por Érika Nunes