Comédia estrelada por Mark Wahlberg, “Balls Up” equilibra momentos genuinamente engraçados com decisões narrativas e culturais que comprometem a imersão
“Balls Up” se apresenta como uma comédia assumidamente exagerada, construída sobre o humor físico, situações constrangedoras e uma proposta que não esconde sua intenção de ser absurda. A história acompanha dois executivos de marketing — Brad (Mark Wahlberg) e Elijah (Paul Walter Hauser) — que, após serem demitidos, embarcam em uma jornada caótica durante um evento de futebol que rapidamente sai do controle.
Desde os primeiros minutos, o filme deixa claro o tipo de humor que pretende explorar. A proposta gira em torno de uma ideia deliberadamente ridícula: o lançamento de um preservativo que também “protege” os testículos. Esse ponto de partida define o tom da narrativa, que se apoia em situações constrangedoras, exageros e uma sucessão de eventos improváveis como base da comédia.
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O roteiro, assinado por Paul Wernick e Rhett Reese, apresenta uma premissa que, dentro da lógica do gênero, funciona. Há ritmo, há criatividade em algumas situações e, sobretudo, há uma compreensão clara do tipo de humor que está sendo construído. Momentos específicos — como a paródia envolvendo a música “Somebody That I Used to Know” — demonstram um bom timing cômico e uma capacidade de explorar o absurdo de maneira eficiente.
No entanto, a narrativa enfrenta dificuldades quando tenta dialogar com um contexto mais reconhecível. A decisão de ambientar a história em uma Copa do Mundo fictícia, situada em 2025 e no Brasil, cria um ruído significativo, especialmente considerando o lançamento do filme em um período próximo ao Mundial real de 2026, que ocorre na América do Norte. Essa escolha, embora possa ser defendida sob a ótica da liberdade criativa, entra em conflito com outros elementos do próprio roteiro que buscam ancoragem na realidade — como menções diretas a figuras políticas reais.
Essa inconsistência revela um dos principais problemas estruturais do filme: a falta de definição clara entre sátira e realismo. Ao mesmo tempo em que abraça o absurdo, a narrativa tenta, em certos momentos, se apoiar em referências concretas, o que acaba gerando uma sensação de desalinhamento.

A direção de Peter Farrelly, conhecida por trabalhos no campo da comédia, reforça essa dualidade. Por um lado, o filme acerta na condução do humor físico e nas situações de constrangimento, explorando bem a dinâmica entre os protagonistas. Por outro, falha ao construir um ambiente cultural minimamente convincente, especialmente na representação do Brasil.
Esse ponto se torna ainda mais evidente na escolha de elenco para personagens brasileiros. A opção por atores que, em sua maioria, não são brasileiros compromete a autenticidade da ambientação. Problemas de sotaque, construção de fala e até mesmo naturalidade em cena acabam gerando um distanciamento perceptível. Situações como uma advogada se comunicando em inglês com policiais brasileiros, ou agentes de segurança que não apresentam fluência convincente em português, reforçam essa sensação de artificialidade.
Ainda que haja um esforço por parte de alguns atores em se aproximar da língua e da cultura, o resultado final evidencia uma escolha que prioriza conveniência de produção em detrimento da verossimilhança. Para o público brasileiro, esse tipo de decisão tende a ser particularmente incômodo.
Curiosamente, esse problema contrasta com o cuidado técnico em outros aspectos. A fotografia do filme se destaca ao explorar cenários icônicos do Brasil, como o Cristo Redentor, o Maracanã e as paisagens do Rio de Janeiro. Há um evidente investimento na construção visual, que valoriza a estética e reforça o apelo turístico do país. Nesse sentido, o filme acerta ao criar imagens impactantes e bem trabalhadas.
A direção musical também segue um caminho interessante, ao incorporar músicas brasileiras na trilha sonora. No entanto, a escolha por faixas que não necessariamente representam o imaginário mais tradicional do país cria um resultado híbrido — funcional, mas não totalmente autêntico.
Outro ponto que evidencia a fragilidade na pesquisa cultural é a inclusão de referências deslocadas, como a presença do peixe candiru em um ambiente onde ele não é encontrado. Detalhes como esse, embora pequenos, contribuem para a sensação de superficialidade na construção do cenário brasileiro.
Apesar dessas falhas, o filme cumpre parcialmente seu objetivo principal: fazer rir. O humor escrachado funciona em diversos momentos, especialmente quando abraça totalmente o absurdo e não tenta se justificar. No entanto, há também situações em que a comédia parece forçada, perdendo naturalidade e impacto.
Para o público internacional, “Balls Up” pode funcionar como uma comédia caótica ambientada em um país associado ao futebol e à festa. Já para o espectador brasileiro, a experiência tende a ser mais ambígua. Ao mesmo tempo em que há reconhecimento de elementos culturais, há também um constante estranhamento diante de representações imprecisas.
No fim, “Balls Up” é um filme que encontra sua força no humor e na química entre seus protagonistas, mas que revela limitações claras quando tenta construir um universo mais amplo e culturalmente específico. Entre acertos pontuais e decisões questionáveis, a produção se sustenta como entretenimento leve — ainda que distante de uma representação convincente do cenário que escolhe retratar.
Imagem Destacada: Divulgação/Prime Video

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