Filme da Netflix aposta em furacão, alagamento e tubarões, mas escorrega em incoerências narrativas e escolhas limitadas de roteiro; confira nossa crítica de “Ataque Brutal”
“Ataque Brutal”, novo filme de desastre da Netflix, dirigido e roteirizado por Tommy Wirkola, aposta em uma combinação chamativa: furacão, cidade inundada e tubarões como ameaça principal. A ideia é, sem dúvida, forte — e o filme até prova isso no começo. O problema é que, conforme a narrativa avança, essa proposta promissora vai sendo comprometida por decisões questionáveis.
Primeiramente, a abordagem inicial funciona muito bem. O filme começa com a chegada de um furacão à cidade, acompanhado por alertas, notícias, evacuações e pessoas desesperadas tentando fugir. Essa construção é extremamente eficiente. A tensão cresce de forma natural e você realmente sente o perigo se aproximando. Nesse ponto, a fotografia ajuda bastante, trazendo uma atmosfera carregada, com céu fechado e uma sensação constante de urgência.
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Até esse momento, tudo indicava que estaríamos diante de um excelente filme de desastre. E isso se intensifica ainda mais quando se leva em conta que o grande diferencial da obra seriam os tubarões.
O problema começa quando o filme decide reduzir completamente sua escala.
A partir de certo ponto, você passa a acompanhar apenas um pequeno grupo — que, na prática, se torna os únicos personagens da história. Isso enfraquece muito o impacto do desastre. Afinal, havia várias pessoas tentando fugir da cidade no início, mas depois que tudo alaga… elas simplesmente desaparecem. Não há explicação, não há consequência, não há continuidade. A sensação de um evento coletivo se perde completamente.
Entre os personagens principais, Dakota (Whitney Peak) é o centro da narrativa. Ela carrega o trauma da perda da mãe e sofre de síndrome do pânico, o que a impede de sair de casa e reage a qualquer situação extrema com gatilhos emocionais. A proposta é interessante, mas o desenvolvimento é limitado e não atinge todo o potencial dramático.

Já Lisa (Phoebe Dynevor), que está grávida e prestes a dar à luz, surge como outro núcleo importante. Ela ficou presa na cidade durante a evacuação, o que naturalmente gera tensão. No entanto, o roteiro deixa lacunas claras — especialmente em relação ao pai da criança, que simplesmente não é desenvolvido. Em nenhum momento há uma tentativa de contato ou qualquer impacto narrativo ligado a isso, o que enfraquece a construção da personagem.
Outro núcleo envolve os três irmãos adotados: Dee (Alyla Browne), Ron (Stacy Clausen) e Will (Dante Ubaldi), que vivem sob os cuidados de Trent (Tyler Coppin). Esse personagem, por sua vez, é retratado como alguém interessado apenas no dinheiro que recebe do governo, o que adiciona uma camada social interessante — mas pouco explorada. Mais uma ideia que o filme apresenta, mas não desenvolve de fato.
Já Dr. Dale Edwards (Djimon Hounsou), tio da Dakota e especialista em tubarões, talvez seja um dos personagens mais frustrantes. Pela lógica da narrativa, ele deveria ser um dos mais envolvidos emocionalmente na situação. Ele sabe que a cidade está em risco, sabe que a sobrinha está lá — e mesmo assim não demonstra urgência real em salvá-la. Falta tensão, falta desespero, falta reação. Isso compromete diretamente a credibilidade do personagem.
Se o roteiro já apresenta problemas na construção dos personagens, a situação piora quando entram os tubarões.
Eles aparecem em grande quantidade, mas de forma extremamente questionável. O principal problema está na profundidade da água. Em várias cenas, os personagens estão andando tranquilamente com a água na altura do peito — e, mesmo assim, os tubarões circulam ali como se estivessem em águas profundas. É um erro visual e físico difícil de ignorar, que quebra completamente a imersão.
Além disso, os ataques são inconsistentes. Os tubarões parecem existir apenas para ameaçar os protagonistas. Não há exploração do caos com outros sobreviventes, não há figurantes sendo atacados, não há sensação de perigo coletivo. O filme reduz uma ameaça potencialmente enorme a algo pontual e seletivo.
Isso fica ainda mais evidente em cenas onde personagens secundários surgem apenas para tentar ajudar e acabam mortos rapidamente — muitas vezes em situações pouco convincentes, especialmente considerando a baixa profundidade da água.
Por outro lado, nem tudo é falha.
Tecnicamente, o filme tem méritos. A direção de arte consegue construir um ambiente de destruição convincente, com cenários alagados que reforçam a sensação de isolamento. As sequências envolvendo a força da água, principalmente as ondas, são muito bem executadas e funcionam como um dos pontos altos da produção.
Outro momento que merece destaque é a utilização da música “A Thousand Miles” em meio ao caos. A escolha é completamente inesperada, mas funciona. A quebra de expectativa cria um alívio cômico interessante e mostra que o filme, em certos momentos, entende o próprio absurdo e decide brincar com isso.
No geral, “Ataque Brutal” consegue sim gerar tensão. É difícil não sentir algum nível de desconforto em um cenário com enchente, furacão e tubarões. Mas essa tensão nunca atinge níveis realmente marcantes, especialmente quando comparada a outros filmes do gênero.
No fim, o longa é um entretenimento válido, daqueles que funcionam para assistir sem grandes expectativas. É um filme que diverte, prende em alguns momentos, mas claramente poderia ter sido muito mais.
Imagem Destacada: Divulgação/Netflix

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