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Bienal do Livro: HQ censurada por Crivella esgota

Tony Stark certamente está em cócegas no além. Afinal, nem mesmo a Marvel Comics imaginava o falatório que Vingadores: A Cruzada das Crianças” iria causar na Bienal do Livro. Tudo começou quando Marcelo Crivellaprefeito da cidade do Rio de Janeiro, afirmou através de sua rede social que a HQ traria material ofensivo para crianças e ordenou que todos os exemplares fossem recolhidos do evento.

A Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop), que notificou a feira na tarde de quinta (5) chegou a citar, em um comunicado, os artigos 74 a 80 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), como justificativa para tal ação. O correto, porém, seria os de nº 78 e 79. Enquanto que o primeiro, cita que que revistas e publicações com material impróprio ou inadequado a crianças e adolescentes devem ser comercializados em embalagem lacrada, com advertência de seu conteúdo, o segundo diz que “revistas e publicações destinadas ao público infantojuvenil não poderão conter ilustrações, fotografias, legendas, crônicas ou anúncios de bebidas alcoólicas, tabaco, armas e munições, e deverão respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família”.

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É claro que na internet, o assunto não foi outro. A censura causou revolta e a própria organização da Bienal, amparada em argumentos legais, fez um comunicado contrário à atitude do político. Resultado: ontem, o Riocentro foi tomado por fiscais da prefeitura que pretendiam recolher o material. Porém, já era tarde. Em menos de 1 hora após que os portões do centro de convenções foram abertos, as revistas já estavam esgotadas. Além disso, o desembargador Heleno Ribeiro Pereira Nunes, do Tribunal de Justiça do Rio, concedeu liminar proibindo a Prefeitura de buscar e apreender obras na Bienal do Livro e cassar a licença de funcionamento do evento – o que chegou a ser falado por Crivella.

Trecho da HQ “Vingadores: A Cruzada das Crianças” Imagem: Reprodução/Marvel Comics/Editorial Salvat

A história em si

“Vingadores: A Cruzada das Crianças” é o 66º volume da coleção oficial de graphic novels da Marvel Comics, lançado no Brasil em 2016 pela Editorial Salvat em parceria com a Panini Comics. A série republica gibis com capa dura, e foi publicada originalmente nos EUA entre 2010 e 2012.

A saga, que originalmente durou nove edições mensais, envolve dezenas de heróis da Marvel, incluindo dois membros dos Jovens Vingadores, Wiccano e Hulkling, que são namorados. Eles aparecem se beijando em um painel de uma edição, escrita por Allan Heinberg e ilustrada por Jim Cheung.

Heinberg já tem um longo currículo como roteirista de TV, passando por séries de sucesso como “Sex and the City”, “Grey’s Anatomy”, entre outras. Nos quadrinhos, seu auge foi, justamente, a criação dos Jovens Vingadores (Young Avengers) e do casal Wiccano e Hulking. Com o sucesso de ambos, Allan foi convidado a escrever o roteiro de Mulher-Maravilha“, lançado em 2017 nos cinemas.

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Censura, não!

A seccional carioca da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) e o Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) repudiaram a ordem de Marcelo Crivella e afirmaram em nota que os argumentos utilizados pelo prefeito não se justificam, pois não há, na capa da publicação, qualquer reprodução de ato obsceno, nudez ou pornografia. “O conteúdo da obra tampouco infringe as normas vigentes, visto que as famílias homoafetivas são reconhecidas legalmente no Brasil desde 2011, estando alinhadas com as garantias constitucionais do cidadão”, completaram os órgãos.

Já a Defensoria Pública do Rio de Janeiro, disse que vai ingressar com pedido de amicus curiae (parte interessada) no mandado de segurança preventivo impetrado pelos organizadores da Bienal perante à Justiça Estadual. O objetivo do mandado é garantir o direito dos expositores de “comercializar obras literárias sobre as mais diversas temáticas”, segundo a Bienal.

Nós, da Woo! Magazine, também repudiamos qualquer ato de censura ou preconceito contra grupos étnicos e sociais. Acreditamos que a inserção de personagens negros e/ou LGBTQ+ são de extrema importância no processo de busca pela visibilidade e desconstrução da sociedade.

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*Essa matéria contou com a colaboração de Danilo Andrade.

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Giulia Cordeiro é carioca, jornalista e professora por formação, artista por amor. Amante da música e dos gatinhos, não sai de casa sem um caderno e caneta, e adora boas histórias (geralmente bem longas).

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