Já reparou que quando queremos puxar assunto com alguma pessoa que não temos muita intimidade, falamos logo sobre o clima? “Nossa, como está quente hoje, não é?” Ou então “E essa chuva que não para?” É geralmente por aí que começa a conversa. E isso não acontece apenas pessoalmente. Esse recurso é também muito usado virtualmente, em mensagens privadas nas redes sociais, em e-mails e também nos aplicativos de mensagens de celulares.

Lembro-me de uma pessoa que me falou uma vez de um amigo que, sempre que entrava no extinto Orkut pra falar com ela, começava exatamente por aí. “Oi! Tudo bem? Tá muito frio por aí? Eu estou todo encasacado”, dizia. E ela já sabia. Quando ele escrevia a primeira frase, tinha certeza que a próxima seria sobre o clima. E detalhe que na época moravam na mesma cidade e bem próximos, inclusive. Então, a não ser que tivesse uma nuvem da Família Adams em cima da casa de um ou de outro, dificilmente a temperatura estaria diferente.

Nesses casos, fico imaginando se o assunto a ser falado a seguir não for especificamente sobre o clima. Porque se a pessoa quer viajar para a cidade onde estou, faz todo sentido perguntar como está o tempo, até para saber o que colocar na mala, se leva um casaco ou não. E coisas do tipo. Mas se não for por isso, então que diferença faz se tá frio ou se tá calor, não é mesmo?

Entendo que falar sobre condições climáticas pode ser uma forma de quebrar o gelo para se aproximar, mas acho isso muito engraçado. Talvez seja mais fácil falar sobre o tempo do que perguntar como a pessoa está de verdade. Porque afinal, falar de sentimentos é difícil. Ainda mais com uma pessoa que não temos muita convivência. Pode ser esse o motivo. E aí no lugar de falarmos sobre algo que pode constranger ou doer naquele momento, preferimos falar sobre amenidades e perguntar: “como está o tempo?”.

Mas sabe o que eu acho? Hoje em dia, com a correria que todos vivem, vejo que todos sentimos falta de alguém que esteja disposto a nos ouvir. E também precisamos ter um pouco de paciência para ouvir o outro. Ou pelo menos tentar. Então, eu digo, se quiser conversar, pode vir de coração aberto. Pode falar se tem algo te incomodando ou até pedir opinião sobre alguma coisa. Não precisa se sentir constrangido e tentar começar o assunto perguntando sobre o tempo. ‘Bora prosear que faz bem pra alma’.

Mas se ainda assim quiser saber como está o tempo por aqui, agora faz frio e chove.

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Erika Kohler

Jornalista (com diploma), escritora metida a cronista e decoradora. Não necessariamente nessa ordem. É uma artista múltipla! Tem a arte no DNA e por isso é amante do mundo das artes. De todas as formas: Cênicas, Visuais e Plásticas.
Carioca, já foi rata de praia, mas hoje prefere o inverno. É gateira de carteirinha e apaixonada por pinguins. Os livros fazem parte da sua vida e estão sempre por perto. Talvez tenha nascido no século errado porque ama o Vintage e o retrô. Adora assistir filmes e séries, sempre acompanhada por um baldão de pipoca. Torce para encontrar com o gato da Alice, pra ele indicar a estrada dos tijolinhos amarelos, que vai direto para a Fantástica Fábrica de Chocolate!!

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