Derrota para a Noruega nas oitavas de final apenas confirmou um ciclo marcado por trocas de treinadores, falta de planejamento da CBF e decisões que deixaram a Seleção Brasileira sem identidade na Copa do Mundo 2026.
O Brasil está eliminado da Copa do Mundo de 2026. A derrota para a Noruega nas oitavas de final colocou mais uma vez a Seleção Brasileira fora da disputa pelo título e aumentou uma sequência que já incomoda o torcedor há bastante tempo. Mas, essa eliminação não aconteceu hoje. Ela começou em 2023.
Pode parecer exagero colocar a culpa em algo que aconteceu três anos antes da Copa, mas basta olhar toda a sequência de decisões tomadas pela CBF desde a saída de Tite para entender como a Seleção chegou ao Mundial completamente sem identidade. A Noruega apenas foi a equipe que aproveitou uma bagunça construída ao longo de muito tempo.
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Os erros não começaram agora
Quem acompanha a Seleção Brasileira sabe que a desorganização da CBF não nasceu neste ciclo. Ela vem se repetindo há anos, quase sempre pelos mesmos motivos: planejamento ruim, convocações discutíveis e decisões tomadas mais pelo peso dos nomes do que pelo momento vivido pelos jogadores.
Em 2006, por exemplo, muita gente ainda lembra daquela Seleção como uma das melhores da história. Talvez pelo famoso efeito “Mandela“. Afinal, estavam juntos Ronaldo, Adriano, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Roberto Carlos, Cafu e vários outros craques. Mas poucos lembram que muitos daqueles jogadores já não conseguiam manter um alto nível durante noventa minutos. Problemas físicos, falta de intensidade e pouca disciplina fizeram o Brasil parar nas quartas de final diante da França.

Quatro anos depois, em 2010, o roteiro voltou a se repetir. Neymar, Paulo Henrique Ganso e Adriano Imperador viviam grande fase, mas ficaram fora da convocação. Mais uma vez a Seleção caiu nas quartas de final, dessa vez contra a Holanda, deixando novamente a sensação de que escolhas equivocadas pesaram mais do que deveriam.
O 7 a 1 foi consequência, não acidente
Quando se fala em 2014, é impossível não lembrar do 7 a 1. Mas aquela derrota histórica não aconteceu apenas por causa de um jogo ruim.
A escolha de Luiz Felipe Scolari como treinador já dividia opiniões antes mesmo da Copa começar. O Brasil conseguiu avançar muito mais na base da vontade, do apoio da torcida e do talento individual do que propriamente por apresentar um futebol organizado. Quando enfrentou uma seleção realmente preparada, a realidade apareceu da forma mais dura possível.

A goleada para a Alemanha escancarou que a Seleção estava completamente perdida dentro de campo. Faltava organização, faltava um plano de jogo e sobrava improvisação. O resultado entrou para a história, mas os problemas já existiam muito antes daqueles noventa minutos.
O ciclo de Tite começou muito bem, mas terminou da mesma forma
Depois do fracasso em 2014, a CBF ainda conseguiu cometer outro erro antes de acertar. Resolveu apostar novamente em Dunga, mesmo sabendo que seu primeiro trabalho já havia deixado muitas dúvidas. O resultado foi uma campanha ruim nas Eliminatórias e a eliminação precoce na Copa América Centenário.

Só então veio a contratação de Tite. E, naquele momento, era impossível dizer que a escolha estava errada. Ele era o melhor treinador brasileiro disponível, recuperou completamente a Seleção nas Eliminatórias e levou o Brasil à Copa de 2018 como um dos favoritos ao título.
Mas, novamente, as quartas de final foram o limite. A Bélgica aproveitou melhor suas oportunidades, e algumas escolhas feitas por Tite durante a partida acabaram sendo determinantes para a eliminação.

Em 2022, o cenário parecia ainda mais favorável. Talvez fosse a Seleção que mais empolgasse desde 2002. O elenco era forte, a campanha nas Eliminatórias havia sido dominante e a confiança do torcedor era enorme. Só que, mais uma vez, faltou equilíbrio no momento decisivo.
Depois do golaço de Neymar contra a Croácia na prorrogação, o Brasil simplesmente perdeu a organização. Em vez de controlar o resultado, continuou atacando de qualquer maneira, deu espaço para o contra-ataque croata e sofreu o empate. Depois vieram os pênaltis e uma eliminação que até hoje gera discussão, inclusive sobre a ordem dos cobradores.

A verdadeira eliminação começou em 2023
Depois da saída de Tite, parecia que finalmente a CBF faria um planejamento pensando no próximo ciclo. A ideia de contratar um treinador estrangeiro agradava praticamente todo mundo. O problema nunca foi esse. O problema foi a forma como tudo aconteceu.
Sem nenhum contrato assinado, Ednaldo Rodrigues passou meses afirmando publicamente que Carlo Ancelotti seria o treinador da Seleção Brasileira. Enquanto isso, Ramon Menezes assumia como interino para comandar os primeiros compromissos.

Os resultados foram péssimos. Vieram derrotas para Marrocos e Senegal, mostrando que a equipe estava completamente sem rumo. Ramon deixou o cargo, mas Ancelotti continuava sem contrato.
Foi aí que a bagunça aumentou ainda mais.
Fernando Diniz assumiu como treinador interino, mas continuou comandando o Fluminense ao mesmo tempo. A Seleção Brasileira passou meses tendo um técnico dividido entre clube e seleção, enquanto novos nomes apareciam diariamente como possíveis candidatos. Jorge Jesus, Abel Ferreira, Zidane… ninguém sabia quem realmente seria o treinador do Brasil.

Dentro de campo, os resultados acompanharam essa confusão. O Brasil perdeu jogos importantes nas Eliminatórias, sofreu uma derrota histórica para a Argentina e viu Carlo Ancelotti renovar contrato com o Real Madrid. A Seleção Brasileira virou motivo de piada antes mesmo da Copa América.
Dorival, mais uma troca e um ciclo perdido
Depois do fracasso com Diniz, Dorival Júnior assumiu a Seleção em janeiro de 2025. Houve uma pequena melhora na organização, mas o futebol apresentado continuava muito abaixo da expectativa. A goleada por 4 a 1 sofrida para a Argentina praticamente encerrou qualquer esperança de continuidade, e o treinador acabou demitido poucos meses depois.
Mais uma vez, o Brasil reiniciava um trabalho praticamente do zero. Mais tempo perdido, mais mudanças e mais um ciclo interrompido antes de criar qualquer identidade.

Pouco depois, Ednaldo Rodrigues acabou afastado da presidência da CBF por conta das investigações envolvendo sua gestão. Samir Xaud assumiu o comando da entidade e, enfim, conseguiu concluir a negociação com Carlo Ancelotti.
O problema é que o treinador italiano recebeu muito menos tempo do que qualquer seleção campeã costuma oferecer ao seu comandante. Não existe mágica no futebol. Não se monta uma equipe pronta para disputar uma Copa do Mundo em poucos meses.

A Copa apenas confirmou o que já era esperado
O Brasil chegou ao Mundial de 2026 parecendo um time ainda em construção. Em nenhum momento passou a sensação de ser candidato ao título. Contra o Japão, precisou sofrer para conseguir a classificação. E diante da Noruega encontrou uma equipe muito mais organizada, consciente do que precisava fazer e com um jogador decisivo como Haaland.
Mais uma vez a Seleção desperdiçou oportunidades, perdeu pênaltis, tomou decisões erradas e foi castigada. Não foi uma eliminação surpreendente. Foi apenas o reflexo de tudo o que aconteceu durante esse ciclo.

O Brasil foi eliminado muito antes da Copa
É fácil colocar toda a responsabilidade sobre Carlo Ancelotti ou sobre os jogadores que estiveram em campo contra a Noruega. Mas seria injusto ignorar tudo o que aconteceu antes disso.
Nenhum treinador conseguiria montar uma Seleção sólida depois de tantos anos de improviso. Nenhum elenco consegue criar identidade trocando constantemente de comando e mudando de direção a cada poucos meses.
Por isso ainda é possível acreditar que a eliminação desta Copa não começou hoje.
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Ela começou em 2023, quando a CBF decidiu iniciar mais um ciclo sem planejamento, criou uma novela em torno de Carlo Ancelotti, passou por Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior antes de finalmente contratar o treinador que queria desde o início.
A única esperança para 2030 passa justamente pelo que faltou durante todo este ciclo: continuidade. Carlo Ancelotti terá, pela primeira vez, tempo para desenvolver um trabalho desde o início, algo que não aconteceu até a Copa de 2026.

Mas essa esperança não depende apenas do treinador. Ela também passa pela permanência da estabilidade administrativa que a CBF começou a apresentar sob a gestão de Samir Xaud. Até aqui, a entidade tem demonstrado um ambiente muito mais organizado do que nos últimos anos, sem as constantes trocas de rumo que marcaram o ciclo anterior. Se essa estabilidade for mantida e o trabalho tiver sequência, o Brasil pode voltar a chegar a uma Copa do Mundo realmente preparado para disputar o título.
Mas uma coisa continua bastante clara.
O Brasil não foi eliminado pela Noruega. O Brasil foi eliminado em 2023.


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