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Crítica

Crítica: Pai em dose dupla 2

Sete anos após a estreia da dupla em “Os outros caras” (The other guys) e dois anos após a reedição em Pai em dose dupla” (Daddy’s Home), Will Ferrell e Mark Wahlberg reúnem-se outra vez em “Pai em dose dupla 2” (Daddy’s Home 2), aposta da Paramount para os feriados de fim de ano. Mais que uma mera sequência, contudo, esta nova produção pode ser entendida como uma releitura do original.

Se a comicidade confiava em 2015 na oposição entre o atrapalhado padrasto Brad (Ferrell) e o descolado pai Dusty (Wahlberg), agora cada personagem ganha uma companhia de luxo: John Lithgow e Mel Gibson, respectivamente. Os experientes atores dão vida aos avós da família, que a ela se juntam para comemorar o Natal. Dois pares de pai e filho formam-se então: Ferrell e Lithgow, de fisicalidade desengonçada e jeito ingênuo, e Wahlberg e Gibson, de porte físico atlético e postura rebelde. O talento dos quatro resulta em uma divertida interação, com corpos e falas bem trabalhados para ir além da previsibilidade das piadas e da condição arquetípica de seus papéis. 

O roteiro de Sean Anders, construído novamente a partir das radicais diferenças entre Brad e Dusty, desta vez somadas ainda àquelas entre seus pais Don (Lithgow) e Kurt (Gibson), reaproveita em grande parte situações do primeiro longa-metragem. Uma bola de neve substitui uma bola de basquete em uma cena, um cortador de grama substitui uma motocicleta em outra, mas nada parece realmente novo. O mais interessante não está no filme em si, mas no diálogo que estabelece com seu predecessor.

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Explica-se: Anders usa muitas vezes a metalinguagem para reconhecer os problemas do original. Não é à toa que a personagem Sara (Linda Cardellini) reivindique em determinado momento sua voz na criação dos filhos. Antes apenas objeto de disputa entre dois homens, uma “mulher troféu”, ela tem agora papel mais ativo. O mesmo acontece com sua filha, Megan. É ela, e não o amedrontado irmão Dylan, que se interessa pela atividade da caça e impressiona o conservador avô Kurt com o manejo do rifle. A franquia “Pai em dose dupla” abre-se, portanto, à discussão e, mais que isso, à reversão dos estereótipos de gênero por ela anteriormente construídos.

Os recursos metalinguísticos do diretor e roteirista Sean Anders, discretos ao longo dos primeiros atos, explicitam-se na sequência final. Ambientada dentro de um multiplex, ela resgata a crença no cinema enquanto experiência coletiva, lugar de encontro entre anônimos e de compartilhamento de emoções. E o faz de maneira despretensiosa, sincera. É um encerramento ideal para um filme que reconhece suas limitações, mas de todo modo valoriza a importância de sua existência. Graças a esse entretenimento voltado para as massas e visto em conjunto por famílias do mundo todo, afinal, as salas de exibição sustentam-se e continuam vivas.

“Pai em dose dupla 2” é, por fim, mais consciente que seu antecessor, embora reaproveite muito de sua estrutura e nunca se justifique como sequência. Pode, ainda, não trazer significativas contribuições narrativas e estéticas, uma vez que segue rigorosamente o formato típico de uma comédia de fim de ano, mas a sua honesta simplicidade e o seu descontraído elenco devem encantar os espectadores e provocar algumas risadas.

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* O filme estreia dia 23 de novembro, quinta-feira.

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Carioca de 24 anos. Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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