Da internet para o cinema

Você pode negar, pode não gostar, mas o conceito “celebridade” mudou muito desde que a internet passou a tomar conta de grande parte da vida das pessoas ao redor do mundo. Aqui no Brasil não é diferente, afinal, canais no YouTube (fora outras redes sociais), dos mais diversos tipos, têm sim seus seguidores, assim como pessoas que os assistem de vez em quando. Entre um dos nomes nacionais mais famosos nessa rede está o de Christian Figueiredo, que aos 22 anos já lançou três livros e seu canal tem mais de 7 milhões de inscritos.

Canal esse que o fez famoso e que dá título ao seu primeiro livro, que originou o filme “Eu Fico Loko”. Tanto a obra literária quanto a cinematográfica, consistem em contar a adolescência de Christian, que ganha sua própria personificação aos 21 anos, já sendo um sucesso, mas também aos 10 anos, vivido por Cauã Gonçalves, e, em sua maior parte, aos 15 anos, personificado por Filipe Bragança. Seguindo um tema que já estamos acostumados, oriundo das comédias teens de Hollywood, temos aqui a história de um ‘loser’ que se tornou um fenômeno atual.

Sonhando em ser popular, conquistar a garota dos seus sonhos (por quem é apaixonado desde criança) e tentando descobrir sua vocação, Christian teve uma adolescência um pouco surreal, como é descrito no filme. Embora o bullying sofrido e as crises de identidade sejam pertinentes ao contexto, a cada tentativa de “fazer dar certo” ele quebrava a cara e toda a sua vivência virou um diário, em vídeo, para a internet. Filho de pais separados, ele morava com sua mãe, Lilian (Alessandra Negrini) e com sua avó Tatiana (Suely Franco), e costumava fazer vídeos de versões caseiras de filmes famosos com a ajuda do melhor amigo Yan (José Victor Pires). Sofrendo constantemente agressões físicas e psicológicas por parte de Mauro (Michel Joelsas), tudo que ele queria era paz e coragem para conquistar Alice (Isabella Moreira), mas no meio do percurso ele inventou a Gabriela (Giovanna Grigio), que deu um outro rumo à sua história como adolescente.

O roteiro escrito por Sylvio Gonçalves e Bruno Garotti, que também assina a direção, é uma mistura de clichês com surpresas, nem sempre convenientes, mas apresentadas com um bom humor. Os ‘pitacos’ dados pelo próprio YouTuber ajudaram a desenvolver uma narrativa de premissa bem simples, mas cativante, afinal, em algum momento da adolescência muitos de nós já nos sentimos um perdedor. Os diálogos são acessíveis, embora algumas das situações vividas pelos personagens seja caótica demais. Porém, ainda assim, conseguiram ter uma dinâmica tão singular que o desenvolvimento ficou interessante.A direção de Garotti seguiu um estilo casual sem perder a dinâmica, nem o ritmo, que também é muito bem feito pela edição/montagem de Diana Vasconcellos. De maneira bem próxima aos enquadramentos utilizados pelos youtubers, sua decupagem segue, em grande parte, planos próximos oscilando entre os recorrentes abertos e closes, a fim de aumentar a performance visual entre o espectador e a narrativa apresentada na tela. Outro ponto visível em sua direção é enxergar uma essência de curiosidade, uma espécie de ‘vamos desbravar’ a vida desse estranho garoto e fazer de sua frustrada adolescência um rito de passagem divertido e sem muitos estereótipos.

O elenco mais jovem segue um estilo mais natural, trazendo características propícias da idade. Se tratando das meninas, Giovanna Grigio abusa da liberdade sexual de sua Gabriela para roubar algumas das cenas, enquanto Isabella Moreira segue um ritmo mais lento, com poucas cenas interessantes, mesmo estando bem na personagem. Já os meninos, a dupla formada por José Victor Pires e Filipe Bragança, apresentam uma química tão jovial e divertida que, facilmente, nos remete às brincadeiras feitas entre os amigos na época do colégio. Porém, Filipe Bragança é o destaque do longa, com uma caracterização muito bem preparada e realizada para dar vida ao Christian no longa. 

Se tratando dos atores e atrizes mais velhos, embora o foco não sejam eles, as participações são necessárias e, muitas vezes, interessantíssimas para a construção da narrativa. Os pais, Alessandra Negrini e Marcello Airoldi, segue um tom um pouco caricato, mas palpável. Porém, os destaques, sem dúvida alguma, são Suely Franco, com sua avó Tatiana, ‘rústica’, despojada, para não dizer desbocada, e engraçadíssima, e Wellington Muniz – o Ceará – como Geraldo, o pai nosense de Gabriela.

Não podemos terminar nossa crítica sem citar a trilha sonora que se fez, talvez, uma das melhores coisas de toda a produção de Julio Uchôa. A música tema, “Hear Me Now”, do DJ Alok e do produtor musical Bruno Martini, interpretada pelo cantor Zeeba, ganhou várias versões, incluindo uma mais lenta e melodramática. Alok e Zeeba chegam até a fazer uma pequena participação no longa. “De Todos Os Loucos Do Mundo”, da Clarisse Falcão, também integra a trilha. Além das famosas, a trilha sonora composta para o longa tem outras músicas que são bem divertidas e adoraríamos ter toda a lista delas e seus compositores para citá-los aqui.

Bom, você pode não conhecer o Christian Figueiredo ou conhecer e não gostar. É um direito seu. Assim como você pode detestar filmes brasileiros e/ou comédias. Porém, se deixar o seu ‘pré-conceito’ de lado vai perceber que o clichê de “Eu Fico Loko” é aquele que deu certo, que funcionou, que abre novas oportunidades para filmes nacionais do gênero e mesmo custando bem menos que uma produção hollywoodiana, ele está páreo a páreo com o mercado internacional.


Apoia-se

Show Full Content

About Author View Posts

Avatar
Paulo Olivera

Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.

Previous Rock in Rio: Prepare-se para uma experiência épica
Next Crítica: Goats – Ovelha Negra

2 thoughts on “Crítica (2): Eu Fico Loko

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close
Close