“- Nosso primeiro filho.
– Um bastardo.”

Carregado de significado histórico, o termo “Guerra Fria refere-se, acima de tudo, ao período entre 1945 e 1991. No interim de dois eventos, isto é, o fim da Segunda Guerra e a dissolução da URSS, soviéticos e estadunidenses bipartiam o mundo nas chamadas zonas de influência. Tratava-se, por um lado, de uma verdadeira guerra, no entendimento de um conflito político-ideológico. A ausência de embates diretos, por outro, justifica a singular adjetivação: “fria”.

Nesse contexto situa-se o novo longa-metragem de Pawel Pawlikowski, vencedor do Oscar por “Ida” (2013). Ao longo de quinze anos, iniciados em 1949, o maestro Wiktor (Tomasz Kot) e a cantora Zula (Joanna Kulig) vivem a história de um amor impossível. Tal impedimento, por sinal, inaugura uma segunda “guerra fria” – desta vez, no campo das relações humanas. Não é mera reverência, portanto, o aceno de Pawlikowski à “Trilogia da Incomunicabilidade” de Michelangelo Antonioni, em especial ao seu último segmento (L’Eclisse, 1962).

Materializada em um bar chamado Eclipse, a alusão remete a um assunto em comum. Tanto o mestre italiano quanto o cineasta polonês atentam para as distâncias reais e simbólicas entre as suas personagens. Se, em “O Eclipse”, o mercado aparece como motor de desumanização, em “Guerra Fria” (Zimna wojna, 2018), o stalinismo promove semelhante efeito.

Tolidas as sensibilidades, uma reconciliação aparenta impossível. Nesse sentido, destaca-se um conjunto de sequências. Na primeira delas, Vittoria (Monica Vitti) acaba de rejeitar um beijo de Piero (Alain Delon). Em seguida, a protagonista se afasta, filmada de perto por Antonioni. Então para subitamente. Quando vira o rosto, nota sem demora: Piero não está mais ali. A frustração substitui o sorriso.

No canto superior, Monica Vitti em cena de “O Eclipse” (1962). No inferior, Tomasz Kot e Joanna Kulig em cenas de “Guerra Fria” (2018).

Em Guerra Fria, por sua vez, Wiktor sequer olha para trás. Depois de muito esperar por Zula, cruza sozinho a fronteira alemã, rumo a Paris. De início, a câmera de Lukasz Zal (“Ida”) o acompanha, mas logo desiste. O fade to black – corte para a tela preta – decreta: a reconciliação se distancia a passos largos, como aqueles empreendidos pela personagem.

Por trás da reconciliação individual, no entanto, oculta-se um projeto maior. Desse raciocínio derivam outras duas acepções do título. Há, por exemplo, uma “guerra fria” entre o popular – o resgate do folk polonês – e o erudito –  a capital parisiense como símbolo do poético, do metafórico. Mais uma “guerra fria” deflagra-se, ainda, entre a arte – a criatividade do maestro Wiktor – e a política – as diretrizes do Partido Comunista, liderado por Josef Stalin.

Retomado o paralelo com “O Eclipse”, pode-se pensar em elementos antagônicos. Popular e erudito, arte e política seriam, nessa lógica, tão irreconciliáveis quanto Wiktor e Zula. Rapidamente, porém, o filme descarta tal hipótese. Desde o primeiro instante, afinal, registra-se a música folk com a estilização do “cinema de arte” – sobretudo no uso do preto-e-branco e da janela reduzida, recursos já presentes em “Ida”. Com sua cuidadosa direção, assim, Pawel Pawlikowski administra conflitos em mesma escala pessoais e coletivos. Um exemplo final enriquece o debate.

Pouco depois de Wiktor cruzar a fronteira, Zula o encontra em Paris. Eles discutem. Ela anda até o meio do quadro, mas, como Vittoria, volta-se para trás. Seu parceiro ainda está lá. Em Guerra Fria, enfim, a (re)conciliação é estética.

* O filme estreia dia 7 de fevereiro, quinta-feira.


Fotos e Vídeo: Divulgação/Califórnia Filmes


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Luiz Baez

Carioca de 24 anos. Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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