Com uma narrativa maluca, mas muito criativa, “Cansei de Ser Nerd” é o filme que o nerd não sabia que precisava
Filmes que celebram a cultura nerd são, em geral, um amarrado de referências e um manifesto sobre o deslocamento social dos que pertencem a esse grupo de pessoas com interesses afins. O longa “Cansei de Ser Nerd“, dirigido por Gualter Pupo, apresenta uma narrativa maluca, porém criativa, que une suspense, comédia e até terror psicológico num contexto que funciona deliciosamente. Confira a crítica:
O filme “Cansei de Ser Nerd” acompanha o nerd Aírton (Fernando Caruso) que foi o principal suspeito do sumiço e suposto assassinato de uma colega, nos tempos da faculdade. Hoje, 20 anos depois, ele convence o amigo Ulisses (Pedro Benevides) a reencontrar a turma numa festa de reencontro para, tentar provar sua inocência e quem sabe recuperar o amor de Juliana (Bia Guedes), sua grande paixão.

O filme começa de forma clássica quando o assunto é nerdice. Aírton é um cara que não faz questão de socializar e passa a imagem de fracasso, já que ainda mora com a mãe e passa seus dias entre action figures e conjecturas com seu melhor (e talvez único) amigo. Aos poucos entram as referências a filmes e obras geek, que permeiam quase todo o filme. Porém, o grande acerto é não fazer disso o centro da narrativa e transformar o roteiro em mais um que parece ter sido feito por inteligência artificial. Pelo contrário, a trama é tão caótica e inesperada que fica difícil acreditar que funciona tão bem.
A grande virada no roteiro de “Cansei de Ser Nerd” acontece quando Aírton e Pedro chegam na festa, quando se instala um clima de suspense e até de terror, mas tudo com muito humor. Em pouco tempo, Aírton desconfia que os integrantes do grupo popular dos tempos de faculdade os verdadeiros culpados pelo crime que foi acusado. Além disso, ele precisará provar também que os hoje integrantes de uma banda new wave de sucesso, fazem parte de uma seita e assassinaram a amiga em um ritual.

Ainda que a história possa ser um tanto caótica e difícil de acompanhar para alguns, ela funciona muito bem no geral, mesmo quando beira o absurdo. O primeiro grande mérito de “Cansei de Ser Nerd” está na habilidade do diretor na organização dessas ideias, de modo a dosar as idas e vindas sem nunca perder o humor de vista. O outro pilar que sustenta o filme, sem dúvida alguma são as atuações.
Da química dos amigos interpretados por Fernando Caruso e Pedro Benevides, passando pela espontaneidade de Bia Guedes e João Velho como o líder sombrio da banda/seita, tudo é feito com muita honestidade e coerência. O destaque absoluto é certamente a construção do Aírton de Caruso, que apresenta um retrato equilibrado do nerd, sem cair nos exageros e caricaturas que são comuns a esse personagem quando retratado no audiovisual.
“Cansei de Ser Nerd” é uma grata surpresa do cinema nacional. Com uma proposta ousada e bem executada, o filme entrega muito mais do que promete: diverte, emociona e faz o espectador se sentir representado usando os clichês de forma inteligente. É o tipo de produção que prova que o audiovisual brasileiro tem fôlego e criatividade para ir além do óbvio. Para quem cresceu sonhando com universos fictícios e se sentindo um peixe fora d’água, este é, sem dúvida, um filme feito sob medida.
Imagem Destacada: Divulgação/H2O Filmes






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