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Crítica

Crítica (2): Missão: Impossível – Efeito Fallout

“Nós precisamos de pessoas como você, que se importam com a vida de uma pessoa como com a de milhões.”

Enquadrada em plano fechado, uma mão masculina segura a Odisseia, de Homero. Dentro do livro, entretanto, não se leem as palavras do poeta grego. Em seu lugar, um pequeno projetor reproduz o conhecido convite: “Sua missão, caso você decida aceitar”. Apesar de curta, a sequência guarda importante significado. O cinema, grande arte da contemporaneidade, constrói novos heróis, herdeiros das tradições oral e literária. Ulisses dos tempos atuais, Ethan Hunt vence, há mais de duas décadas, homéricas aventuras, exemplificadas com maestria pelo recente “Missão: Impossível – Efeito Fallout” (Mission: Impossible – Fallout, 2018).

No sexto filme da franquia iniciada em 1996, Hunt (Tom Cruise) enfrenta os Apóstolos, grupo liderado pelo misterioso John Lark. Para salvar a vida de Luther Stickell (Ving Rhames), companheiro da Força-Tarefa Missão Impossível (IMF), o protagonista falha, no entanto, em seu principal objetivo: recuperar uma maleta com três núcleos de plutônio. Erica Sloan (Angela Bassett), chefe da CIA, exige, então, que seu agente August Walker (Henry Cavill) acompanhe a equipe da IMF, composta, além de Ethan e Luther, por Benji Dunn (Simon Pegg). Juntos, os quatro precisam correr contra o tempo e evitar a explosão de bombas nucleares.

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Principal novidade de Fallout, Walker funciona, no roteiro de Christopher McQuarrie (“Os Suspeitos”), como antítese de Hunt. Se a personagem de Tom Cruise (“Top Gun – Ases Indomáveis”) põe em risco o sucesso da operação para proteger um amigo, a frieza de um assassino caracteriza a de Henry Cavill (“O Homem de Aço”). O constante embate entre o carisma de Cruise e o cinismo de Cavill, pontualmente intercalado com alívios cômicos da dupla Pegg (“Todo Mundo Quase Morto”) e Rhames (“Pulp Fiction – Tempos de Violência”), dita o tom do longa-metragem. Estão em jogo, portanto, dois diferentes projetos. Contra a banalização da morte, postura personificada por Walker, Ethan Hunt afirma a vida.

Não apenas salvar um amigo, afirmar a vida significa, para o protagonista, perceber-se um entre muitos. A emblemática perseguição de helicóptero (foto) traduz visualmente essa ideia. Nela, a montagem de Eddie Hamilton (“Kingsman – Serviço Secreto”) alterna planos abertos e fechados da fotografia de Rob Hardy (Ex_Machina – Instinto Artificial”). Ao passo que as tomadas mais próximas testemunham o esforço de um heroico Hunt, as mais afastadas evidenciam sua pequenez diante de uma exuberante natureza. Reconhecer-se parte dela, em outros termos, implica valorizar na mesma medida o individual e o coletivo. No universo de Missão Impossível, salvar uma vida é, enfim, condição para salvar o mundo.

Para além dos subtextos, porém, o longa-metragem reúne, ainda, alguns dos momentos mais empolgantes da série. Entre socos, saltos e perseguições, McQuarrie, de volta à direção após “Missão: Impossível – Nação Secreta” (Mission: Impossible – Rogue Nation, 2015), supera a experiência anterior. Filmada com elegância, por exemplo, uma briga no banheiro de uma boate contrasta a cor vermelha do sangue derramado com a branca do chão e das paredes. Outro nome importante, o produtor musical Lorne Balfe (“Megamente”) retrabalha o tema clássico e cria gradativas composições.

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Talvez o melhor da franquia, “Missão: Impossível – Efeito Fallout” revigora, em certo aspecto, o cinema de ação. À tensão do gênero, acrescenta, afinal, a afirmação da própria vida. Nunca antes tão humano, Ethan Hunt, o Odisseu contemporâneo, defronta-se com fantasmas do passado. Nunca antes tão herói, contudo, imortaliza-se em suas impossíveis missões.

* O filme estreia hoje, dia 26, quinta-feira.

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Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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