Crítica (2): Três Anúncios Para Um Crime

“Três Anúncios para um Crime” poderia ser um filme dos irmãos Coen. Mergulho no cotidiano de uma comunidade no interior dos Estados Unidos, personagens sem limites no sardonismo e doses cavalares de humor negro, elementos fáceis de identificar por qualquer um que já viu algum título da dupla, estão todos ali.

Entretanto, a mente por trás do longa, Martin McDonagh, não só nada tem de parentesco com a família de cineastas, como sequer é norte-americana. Por essa última característica, então, é no mínimo admirável como o olhar estrangeiro do diretor e roteirista é preciso em esmiuçar os costumes de um grupo não só que ele não faz parte, mas do qual ele é separado por uma barreira nacional.

Assim, é na cidade fictícia de Ebbing, no estado americano do Missouri, que o cineasta irlandês centra seu drama: Mildred Hayes (Frances McDormand, vejam bem, a protagonista de “Fargo”), mulher em luto após o assassinato da filha adolescente, decide alugar três outdoors nas redondezas para pressionar as autoridades locais a solucionar o crime. Direcionando sua mensagem ao delegado da cidade (Woody Harrelson) que está fragilizado por um câncer (“Estuprada enquanto morria e ainda nenhuma prisão? E aí, delegado Willoughby?”), ela atrai a ira de uns e o apoio outros.

Parece pesado – e, de fato é –, mas o tom que McDonagh adota dá a densidade que o filme precisa sem cair no melodrama barato. Seguindo o caminho do escárnio, ele consegue, com seu texto afiado, criar um ambiente dolorosamente crível em que os indivíduos não são segmentados de forma maniqueísta, divididos entre vítimas e vilões, mas sim múltiplos, que oscilam entre a fragilidade e a violência. Bem-sucedido em construir a dinâmica da comunidade, é surpreendente a fidedignidade com que consegue condensar a moral das pequenas cidades no interior dos Estados Unidos, com sua impunidade, preconceito e abuso de poder.

Estudo de personagem travestido de crime movie, o projeto constrói uma protagonista densa e é beneficiado pela escolha da intérprete. Quase que sob medida para o papel, Frances McDormand dá força a Mildred injetando destemor e, quando necessário, loucura, mas nunca sem perder a dimensão de sua vulnerabilidade. Se em alguns momentos vemos a heroína com sangue nos olhos expulsar um padre inconveniente de sua casa, em outros vemos, no mesmo olhar, sua cumplicidade e respeito pelo oficial que ela responsabiliza pela lentidão do caso da filha.

O restante do elenco também não deixa a desejar. Chamando a atenção como Dixon, Sam Rockwell compõe um personagem muitas vezes absurdo, difícil de digerir e Woody Harrelson mesmo com pouco tempo em cena, dá a Willoughby leveza, mesmo que o homem saiba que sua vida está chegando ao fim.

Se no roteiro a comparação com o trabalho dos irmãos Coen é inevitável, na direção são poucos os pontos de convergência. Privilegiando uma abordagem natural, a câmera de McDonagh, em conjunto com trabalho de fotografia de Ben Davis, opta por angulações médias e amplas, intensificando o drama, ora com o uso do primeiro plano, que encurralam os personagens em seus dilemas, ora com planos gerais que oferecem a grandeza da melancolia que paira sobre Ebbing.

Porém, mesmo que tenha qualidades inquestionáveis, o filme não sai livre de problemas. Em alguns momentos com dificuldade de ajustar o tom, o longa derrapa ao apostar em situações que soam comicamente artificiais, como a jovem namorada do ex-marido de Mildred. Querendo ressaltar o absurdo de um homem maduro namorar uma garota de 19 anos, o roteiro aposta em diálogos pouco inspirados, que em vez de destacar uma situação estranha, acabam beirando ao ridículo.

A própria apresentação dessa figura masculina na vida da protagonista não tem sutileza: com um histórico de violência contra a ex-mulher, basta dois segundos de uma conversa pouco acalorada para tentar enforcá-la. Não que esse tipo de situação não seja possível, mas da forma como é executada só manifesta um afobamento em apresentar essa faceta do personagem.

Com um desfecho provocativo, “Três Anúncios para um Crime” não oferece uma experiência confortável. É cruel, satírico e importante. Merece ser visto.

Crítica (2): Três Anúncios Para Um Crime
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