Todo o texto que pretende discorrer sobre qualquer filme atual de Jafar Panahi tem quase a obrigação de dizer que o cineasta continua sem poder sair do Irã e impedido de filmar pelo governo, que o acusou de depravação injustamente; claramente por questões políticas. Essas informações são necessárias porque Panahi faz filmes de guerrilha em uma realidade opressiva, o que moldou seu estilo narrativo nos últimos anos em filmes como “Taxi Teerã”, “Fora do Jogo” e “Isso não é um Filme”.

No novo “3 Faces” – como os outros, contrabandeado para a Europa por amigos do cineasta – ele segue seu estudo sobre a sociedade iraniana com olhar atento e crítico. Agora se volta para a condição da mulher em um país machista e patriarcal. Sai da cidade e vai ao campo, onde as tradições são levadas à risca, retirando a liberdade feminina com as obrigações matrimoniais e de procriação. Mesmo quando ficam grávidas, sempre se espera um bebê do sexo masculino, como se o feminino não fosse digno de respeito por parte dos chefes da família.

Panahi faz de novo parte da história, e desta fez precisa levar uma famosa atriz (Behnaz Jafari) para uma aldeia isolada depois que ela recebe um vídeo de uma jovem solicitando sua ajuda antes de, aparentemente, cometer suicídio. Os dois pegam a estrada às pressas sem saber se o vídeo é real ou apenas uma armação para chamar suas atenções. A tal jovem é uma aspirante a atriz que é aceita por um famoso conservatório, mas é impedida pela família e pelo recém-marido de seguir para a cidade e começar os estudos.

A viagem é reveladora e mostra o quão difícil é ser mulher e tentar trabalhar com arte no Irã. Aqui Panahi faz uma autocrítica ao ficar sempre longe dos conflitos, abstendo-se das responsabilidades e usando seu cinema unicamente para registrar e não para tomar partido. Assim como ele fazia no passado quando recebia inúmeras alegações de maus tratos que outros diretores desferiam as atrizes, e nunca se aprofundou no assunto ou tentou ajudá-las; tornando-se apenas um inerte expectador. Por vezes ele se mantém apartado quando a falta de profundidade de campo é limitada pelo desfoque de suas lentes, reafirmando o distanciamento.

Construído de forma simples e com poucos recursos, porém de forma excepcional, “3 Faces” consegue ser claro e poderoso em sua proposta. Homens dominantes que relegam às mulheres papeis inferiores na sociedade e as usam para satisfazer seus desejos como se fossem imperadores. Elas possuem duas alternativas: ou abaixam a cabeça e vivem em seu próprio mundo em microcosmo, ou reagem e tentam atingir um patamar mais respeitável. A famosa atriz goza desse respeito e a jovem aspirante busca  dignidade para seu futuro. Talvez a saída seja escolher caminhos opostos aos dos homens, como em uma sequência onde as duas atrizes seguem para um lado de uma estrada, enquanto alguns agricultores, com seus bois reprodutores, seguem para o lado oposto. O diretor, no entanto, permanece ao longe, observando com sua imparcialidade silenciosa.

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo

 

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Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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