Há premissas que precisam apenas serem ditas para estabelecerem uma narrativa na cabeça do espectador. O que acaba os levando  a um erro comum que muitos (inclusive cinéfilos e críticos iniciantes) cometem: “julgar um filme pela premissa” (essa galera nunca ouviu o clássico ditado sobre livros?). As premissas em si, por mais bobas que sejam, podem – com o desenvolvimento certo – se tornar excelentes filmes (vide “Um Cadáver para Sobreviver”). Porém, “Megatuburão” é um desses casos?

Na fossa mais profunda do Oceano Pacífico, a tripulação de um submarino fica presa dentro do local após ser atacada por uma criatura pré-histórica que se achava estar extinta. Um tubarão de mais de 20 metros de comprimento: o Megalodon. Para salvá-los, um oceanógrafo chinês contrata Jonas Taylor, um mergulhador especializado em resgates em água profundas que já encontrou com a criatura anteriormente.

A resposta é não, “Megatubarão” não é um grande filme do subgênero, mas entrega o mínimo para entreter durante 113 minutos. O diretor Jon Turteltaub tem total noção de que esse é, afinal, um filme sobre um tubarão gigante, então ele não investe em um grande arco para qualquer personagem. Usando o primeiro ato para estabelecer um mínimo de  características básicas (o famoso quem é quem e o que faz), ele entrega personagens unidimensionais que funcionam muito bem quando interagindo entre si, mas não isoladamente. Isso pode ser facilmente notado nas cenas de discussões onde o diretor utiliza todos os personagens que estão presentes na situação, mas em vários momentos durante a ação os personagens ficam sem muito o que fazer.

Claro que boa parte disso se deve ao fraco roteiro Dean Georgaris, que oscila entre  ser extremamente expositivo, vide um momento em que um personagem diz “vou apertar o botão”, e interações que se beneficiam das superficialidades dos personagens (o fato dos personagens agirem de uma maneira, gera mais conflito). Já um acerto do roteiro, é ao criar suspense sobre qual personagem vai morrer (o espectador sabe que alguém vai morrer, e amaneira que vai morrer, mas não sabe quem), colocando sempre dois ou mais personagens em risco, expondo bem mais tensão do que o comum “ele vai morrer ou não?”.

O elenco é fraco mas se esforça para não ficar apenas patinando na mesmice de seus personagens. E mesmo assim é prejudicado com as mudanças de personalidade vindas das variações de tom que o filme assume. O personagem de Jason Statham, por exemplo, começa o filme como um homem atormentado por um trauma, mas se torna rápido o protagonista de ação com que estamos acostumados, com oscilações muito grandes em sua personalidade. E mesmo com essas complicações o ator consegue se manter firme, nunca caindo para o extremo do trauma ou da comédia. O resto do elenco tem carisma o suficiente para justificarem sua presença no filme, mas nada que mereça destaque.

Claro que isso já é de se esperar, afinal essa é uma obra calcada na tensão, e no que diz respeito a isso, ela se sai bem. A mise-en-scène cria espaços perfeitos para os personagens se locomoverem, sem fazer com o espectador esqueça que aquele é um ambiente pequeno, colaborando, assim, com a fotografia que faz uma troca muito eficiente de grandes planos e flyng cams, quando na superfície, e planos mais fechados quando em baixo da água. Assim, o filme consegue criar grande tensão tanto nas sequências subaquáticas, quanto em alto mar.

Somando isso tudo a grande variedade de situações que a produção promove, a trama torna-se dinâmica e angustiante sem nunca perder a graça (inclusive há um momento hilário envolvendo um banhista dentro de uma bolha).

Mesmo com sua premissa boba e roteiro previsível, “Megatubarão” diverte muito o espectador, oferecendo muito aos olhos, e mais ainda aos nervos. Pena que não muito ao cérebro.

Show Full Content

About Author View Posts

Avatar
Deivid R. Purificação

Cinéfilo assíduo desde que se conhece por gente,e um amante da nona arte.
É da linha de David Lynch que acredita no potencial onírico das artes.

Previous Crítica: O Nome da Morte
Next 10 Filmes para Assistir com o Seu Pai

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close
Close