13 de dezembro de 2019
Uma jornada quase sem herói

No dia 25 de maio de 1977, George Lucas criou aquela que seria uma das histórias mais reconhecidas e divulgadas em todo mundo. Um universo extremamente bem trabalhado que serviria de fundamento para diferentes outras criações ao longo dos anos, rendendo a ele o status de um dos maiores profissionais do cinema de todos os tempos.

A franquia de ópera espacial intitulada “Star Wars” nasceu arrebatando fãs de todos os cantos, marcando o selo de Blockbuster, ao trazer personagens e uma trilogia de filmes originais que se tornou amada por muita gente e que seria, anos mais tarde, idolatrada por uma quantidade ainda maior de fãs e apreciadores da sétima arte. O que era apenas uma audaciosa ideia, tornou-se então uma gigantesca maquina capaz de proporcionar infinitos outros produtos para indústria do entretenimento.

Depois dos clássicos “Episódio IV: Uma Nova Esperança”, “Episódio V: O Império Contra Ataca” e “Episódio VI: O Retorno de Jedi”, George Lucas resolveu revisitar o mundo o qual era doutrinado para fazer a segunda parte de sua irreverente saga que contava com “Episódio I: A Ameaça Fantasma”, “Episódio II: Ataque dos Clones”, “Episódio III: A Vingança dos Sith”. O enredo do projeto visava explicar alguns detalhes, aprofundando história, bem como a origem de um dos maiores vilões de todos os tempos, o tirano Darth Vader. Embora a trilogia de prequela viesse para difundir assuntos importantes como a queda da Ordem Jedi e da Republica Galáctica, os filmes não foram muito bem recebidos pelo público e crítica, podendo-se dizer que ficaram bem divididos, mas isso não impediu o sucesso dos mesmos nas bilheterias. Anos mais tarde, depois de tanto burburinho, principalmente nas redes sociais, a grandiosa Disney acabou se interessando pela marca e adquiriu a Lucasfilm (empresa detentora dos direitos), em 2012. Com isso, a dona do famoso ratinho Mickey Mouse, proporcionou um novo patamar para a franquia galáctica “Star Wars”, idealizando a chamada “trilogia sequela” que será lançada a cada dois anos, tal como novas histórias e personagens que entrarão costurando todo universo fantástico desenvolvido por Lucas.

Essa nova fase já começou no ano passado, em 2015, sob a direção do inovador J.J Abrams a força finalmente voltou aos cinemas com o sensacional e aclamado “Episódio VII: O Despertar da Força”, filme que fez jus ao nome e, literalmente, despertou a atenção dos fãs da saga que um dia após já estavam ansiosos pelo próximo filme. Em meio a vários projetos listados, “Rogue one: uma história Star Wars” se destacava por ser o próximo e por propor uma ideia diferente, contar determinados acontecimentos que ajudaram a resultar na destruição da poderosa Estrela da Morte.

Assim, no último dia 15 de dezembro, o tão esperado spin-off aportou aos cinemas trazendo um satisfatório conteúdo que funcionou como um gigantesco saudosismo para todos os aficcionados pela franquia. – Esclarecendo a dúvida de alguns, a história não é uma continuação do filme anterior mas, sim, um pequeno interlúdio que acontece entre o episódio 3 e o episódio 4. – A trama se passa em torno da jovem Jyn Erso, filha do engenheiro Galen Erso, que se vê obrigada a fugir quando o império descobre o esconderijo de seu pai e o leva para trabalhar na construção da poderosa “Estrela da Morte”. Anos depois, Jyn se tornou uma pessoa diferente, uma destemida e impulsiva mulher que sabe muito bem se virar no meio do mundo caótico em que vive. Entre algumas situações que se envolve, acaba sendo usada pelos rebeldes que almejam descobrir mais sobre a poderosa arma arquitetada por seu pai. Entretanto, Jyn enxerga também a oportunidade de poder salva-lo. Para isso, ela se junta a um grupo de rebeldes, que mesmo sem autorização, partem em uma temerária missão afim de roubar os planos da maior máquina de destruição que a galáxia já enfrentou.

Toda produção, que traz nomes como o de John Swartz (“Star Wars: Episódio VII” e “Lincoln”), Simon Emanuel (“Star Wars: Episódio VII”, “Velozes e Furiosos 6” e quatro dos filmes de Harry Potter) e John Knoll (responsável pela supervisão de efeitos de vários filmes da saga), aparenta ter sido desenvolvida com todo zelo possível, para não decepcionar os reais conhecedores da aventura espacial. Sem dúvida alguma o trabalhado realizado é excepcional, de uma sutileza ímpar, eles conseguiram captar com veemencia toda essência existente nos filmes clássicos, algo que (por melhor que tenha sido) a produção de 2015 não chegou alcançar. Repleto de referências, o filme nos transporta facilmente para a estética desenvolvida por Lucas, nos entregando algo muito semelhante, quase que um reflexo do criador.

O roteiro de Chris Weitz (Cinderella) e Tony Gilroy (“O Advogado do Diabo” e a franquia Bourne), apesar de conter algumas pontas que poderiam ser melhor amarradas e, porque não dizer aproveitadas, como a história do próprio Galen Erso (Sim, eu gostaria que trabalhassem melhor essa parte), consegue criar uma estrutura independente dos famosos protagonistas e acontecimentos que marcaram as duas primeiras trilogias. Com diálogos bem desenvolvidos e novos bons personagens, principalmente o dróide K-2SO (que funciona como uma versão mais moderna  e petulante dos ótimos R2D2 e C-3PO), somos apresentados a uma atmosfera um tanto quanto diferente, mais densa, contudo sem perder o tom espirituoso dos originais. Outro ponto positivo colocado pelos roteiristas em “Rogue One”, é que eles fazem de tudo para a estrutura de seu roteiro não cair na básica jornada do herói, colocando seus principais como gente como a gente e não um paladino da justiça. Todavia, mesmo fugindo, a construção ainda bebe da mesma fonte, mas o que vale é a intenção. E, por fim, Weitz e Gilroy proporcionaram uma verdadeira guerra para a franquia, algo que buscávamos sempre. Um ato merecidíssimo devido ao nome prevalecente carregado pela produção.A escolha por Gareth Edwards para direção nasceu de forma duvidosa, uma vez que o profissional tinha tropeçado no retorno de “Godzilla” para os cinemas. Entretanto, o mesmo também já tinha realizado o interessante “Monsters” e, com certeza, tinha muito a acrescentar a “Rogue One”. Dito e feito, o diretor consegue idealizar um trabalho de qualidade, que deve ter deixado George Lucas orgulhoso. Sua escolha por planos mais abertos e frequentes movimentos de câmera destacam a profundidade de campo e colocam o espectador a par dos acontecimentos, ao mesmo tempo que próximo aos personagens de forma bastante realista, o que proporciona uma maior identificação quando o artista opta por planos mais fechados e cortes secos na necessidade de provocar e/ou aumentar a emoção e a reflexão.

A impressionante fotografia de Greig Fraser (“FoxCatcher” e “Zero Dark Thirty”) trabalha muito bem com o departamento de efeitos visuais, e juntos eles desenvolvem um produto mais objetivo que todos os outros lançados anteriormente. A escolha por uma fotografia mais fechada, com tons que variam entre o marrom e o cinza, na maior parte do filme, propõe o aspecto derrotista e apocalíptico necessário para o projeto. Todavia, o contraponto aplicado em dois outros momentos também acaba sendo fascinante. O tom quase monocromático das cenas que mostram o Império são de uma beleza avassaladora, enquanto a esperança transcende com a mudança radical para as paletas de cores azul e verde, mescladas ao tom pastel, que dominam as cenas finais. Elas são responsáveis por provocar a infindável sensação de renascimento.

O grandioso departamento de arte e o figurino de David Crossman (“O Resgate de Soldado Ryan” e “Lincoln”) e Glyn Dillon (Kingsman) não poderiam ficar de fora, uma vez que conseguiram cumprir um trabalho convincente, ao resgatarem todo o esqueleto que serviu como base para estética que abraçou fielmente os clássicos, sem perder a oportunidade de influenciar aspectos que inovaram e proporcionaram a criação ideal de diferentes outras locações antes nunca mostradas.A espetacular trilha sonora de Michael Giacchino (Responsável por vários produtos com o selo Disney), tal como a estonteante edição de som, foram responsáveis por engrandecer ainda mais o filme. Eles roubam, literalmente, quase todas as cenas com uma proposta que entoa impactantes e cortantes batidas a uma agradável e melódica música que ajuda a criar o drama necessário.

O elenco, em um todo, funciona mas poderia ser muito melhor. Felicity Jones (Inferno) está bem como Jyn Erso, mas não possui o carisma que a personagem necessitava. Sua construção é um mais do mesmo, uma colagem de algumas de suas outras personagens. O bom é que deu certo para o filme, mesmo sem apresentar novidades. Sem dúvida alguma Diego Luna (Elysium) é um grande ator, mas não sei se esse seria o melhor papel para ele. O ator não estava à vontade em cena na pele de Cassian Andor e não pode entregar o ápice de sua capacidade. Porém, no mesmo caso de Felicity, consegue manter de forma simples suas cenas. Donnie Yen, Riz Ahmed e Ben Mendelsohn conseguem realizar um trabalho convincente, enquanto Forest Whitaker entrega um sofrível jogo de cena, no qual nos faz lembrar das piores interpretações caricatas do cinema. Já Mads Mikkelsen (como Galen Erso), faz em pouco tempo de tela o que não conseguiu fazer como o vilão de “Doutor Estranho”, atuar. Sua construção é sincera e nos faz querer saber ainda mais sobre a personagem. Por fim, o grande destaque fica por conta de um ator que, normalmente, é considerável razoável. Alan Tudyk, acostumado a dublar várias animações e games, além de participar como coadjuvante de diferentes filmes, nos entrega um trabalho singular vivendo o inesquecível K-2SO. Seu trabalho é tão bem feito que ele conseguiu fazer com que não sentíssemos falta nos antigos andróides. 

“Rogue One: Uma História Star Wars” chega em um ótimo momento, ampliando possibilidades que muitos gostariam de conhecer. E, com isso, vem agradando grande parte do público. Não trata-se de um filme feito somente para fãs, como muitos críticos vem dizendo, pelo simples fato de não te obrigar a assistir todos os filmes antes de ir conferi-lo nos cinemas. O bom da franquia é que ela funciona em qualquer ordem e ocasião. Não obstante, é preciso deixar claro que se você nunca assistiu nenhum filme da marca e deseja começar com esse lançamento, vai sair do cinema querendo conhecer cada uma das outras histórias. “Star Wars” tem isso, depois que você assiste um, já era, vai querer ver tudo. Sendo assim, vá ao cinema e se dê a oportunidade de assistir na telona um dos cinco melhores filmes da saga.

E, depois, aproveita que a Netflix lançou a saga completa na plataforma de Streaming e não deixe de conferir as duas primeiras trilogias. 

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Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é um brazuca que parle français e roda uns filmes por aí. Apaixonado pelos universos da escrita e da atuação, tem um caso com o teatro e morre de amores pelo cinema. Fotógrafo e crítico nas horas vagas, gosta de cozinhar, apreciar um bom vinho e trocar ideias interessantes.

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