Crítica: 57 Minutos – O tempo que dura está peça

Imagem: Divulgação/Agência Fática (Crédito: Pedro Mendes)Imagem: Divulgação/Agência Fática (Crédito: Pedro Mendes)Foto: Divulgação(Créditos: Pedro Mendes)

Imagem: Divulgação/Agência Fática (Crédito: Pedro Mendes)

O gênio Albert Einstein constatou que o tempo é relativo. Ou seja, dependendo do local que se encontra um indivíduo e da sua velocidade, os segundos, minutos e horas irão variar. As pessoas que moram na terra sentem o passar do tempo sob a influência da massa do planeta. Se elas tivessem viajando próximas à velocidade da luz, envelheceriam mais devagar. Por isso, os seres humanos gastam todo o seu tempo tentando enganar o próprio tempo, ou, pelo menos, fazer com que ele desacelere. Na peça “57 Minutos – O Tempo que Dura Esta Peça”, o dramaturgo Anderson Moreira Sales discute a sociedade refém do tic tac do relógio.

Este monólogo que está em cartaz no Espaço Parlapatões em São Paulo até 10 de julho, expõe poeticamente questões pertinentes ao cotidiano, com o ator falando diretamente com o público. O papo acontece enquanto Sales faz a massa de um pão de queijo e o coloca para assar, com a promessa de servir a plateia ao fim do espetáculo. O curioso é que o mesmo tempo usado para fazer e assar uma fornada de pão de queijo é o de contar várias histórias, e o da própria apresentação, que não leva apenas 57 minutos para acabar. De forma inspirada e por vezes bem-humorada, a peça discute religião, homofobia, preconceito e política.

Apesar de trabalhar com muitos temas, a dramaturgia não se perde ou mesmo se torna enfadonha. Ajudada pela competente construção de cena e pela criativa iluminação, é fácil ser envolvido pelo texto. As histórias são fragmentadas e vão e voltam no tempo de acordo com a vontade de Sales. No palco há apenas a mesa, onde ele faz a massa do pão de queijo, um forno elétrico e um microfone. Há a representação visual de uma ampulheta feita de lâmpadas de led que vai do chão à parede e, por cima dela, é executada toda a encenação. Com isso, quando uma história termina, a parte de cima da ampulheta fica vermelha enquanto a de baixo se torna laranja. Ou seja, a areia ilusória escorreu até a base, esgotando o tempo.

Além da alegoria sobre a finitude da vida e os conflitos causados pelo excesso e escassez de tempo construída pela presença da ampulheta, a iluminação feita por dois refletores que focam apenas o ator dão um ar melancólico à produção, mas também constroem a dinâmica da história: as luzes dos refletores se apagam em alguns momentos e, ao voltarem a acender, outra cena começa a tomar vida, como nos cortes em fade out do cinema. Feito um encontro entre amigos, o espetáculo se desenrola reflexivamente ao citar Kafka, Guimarães Rosa e mitologia grega, exaltando suas clássicas, mas tão atuais palavras, fazendo o tempo se contrair e juntar passado com o presente. Depois da última cena, o ator se desculpa por não ter respeitado os 57 minutos do título (já se passaram uma hora e meia) e diz que sabe como é São Paulo, com o trânsito e o horário do metrô. Bem sabe ele que ninguém gosta de perder tempo. Bom, a não ser que seja com uma obra de qualidade como a dele, e isso a plateia deixa transparecer por meio da demorada salva de palmas no final.

Crítica: 57 Minutos - O tempo que dura está peça
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