Crítica: A Cabana

É preciso evangelizar?

Há dez anos atrás era lançado um livro que jamais poderíamos imaginar se tornar um Best-Seller, citado pelo o jornal New York Times, vendendo mais 30 milhões de exemplares pelo mundo. A história escrita por William P. Young para os amigos no natal de 2005, foi apresentada aos produtores de cinema Wayne Jacobsen e Brad Cummings que o influenciaram e o ajudaram a reescrever a narrativa para se tornar um livro.

Em um ano e meio, depois de reescrita por quatro vezes, a versão final de  “A Cabana” (The Shack) foi recusada pelas 26 editoras que receberam seu original. Com vontade de propagar a mensagem que o texto continha, Wayne e Brad criaram a própria editora para o lançamento do livro, com um orçamento de 300 dólares para publicidade, e agora ele chega adaptado para os cinemas.

O livro, que só foi publicado ao Brasil em 2008, pela editora Sextante, conta a história de Mark Phillips (Sam Worthington) e sua família. Casado com Nan (Radha Mitchell) e pai de 5 filhos – não três, como mostrado no filme – o enredo apresenta um pouco de sua difícil infância e como ela o fez ser um pai melhor. Numa estruturada família que possui muita fé em Deus, um dia “A Grande Tristeza” chega para fazer com que Mark repense sua própria vida e seus conceitos de fé, amor e perdão.

Em uma viagem com os filhos à um acampamento, a filha mais nova, Missy (Amélie Eve) desaparece e apenas sua roupa, com rastros de sangue, é acha em uma cabana abandonada na reserva florestal. Com o corpo nunca encontrado, a família tentar se reerguer à sua maneira, mas nada é como antes. Após três anos, desde que “A Grande Tristeza” entrou em suas vidas, Mark está sozinho em casa, enquanto sua família faz uma breve viagem, e recebe uma carta sem postagem e sem remetente. O único papel dentro do envelope era assinado como “Papai”, o mesmo nome usado por Nan para se referir à Deus, dizendo que estaria na cabana no fim de semana e aguardava a presença de Mark.

Confuso com a situação, pensando que fosse uma brincadeira de mal gosto ao mesmo tempo que cogitava a possibilidade de realmente ser uma carta de Deus, Mark volta ao local onde se confirmou a tragédia de sua vida. Ao chegar a cabana, o inesperado acontece e ele conhece Elouisa/Papai (Octavia Spencer), Yeshua/Jesus (Avraham Aviv Alush) e Sarayu/O Espírito Santo (Sumire Matsuba). Com eles, Mark passa o final de semana o qual aproveita para questionar a existência e a bondade da santa trindade, assim como vive uma experiência em que o fará redescobrir as essências que lhe foram perdidas.

Assim como o livro foi “escrito” à seis mãos (Willian P. Young, com a colaboração de Wayne Jacobsen e Brad Cummings) o roteiro de sua adaptação cinematográfica passou pelo mesmo processo, sendo assinado por John Fusco, Andrew Lanham e Destin Cretton. Levando em consideração as diferenças técnicas entre a literatura e a roteirização, o trio, com exceção de Fusco, não tem tanta prática na área e a adaptação da obra para as telas ficou sem força e mal estruturada. O filme tornou-se uma obra de evangelização, algo que não é exatamente a proposta do livro. Ganhou passagens desnecessárias que não existem originalmente e ainda mudou a estrutura dos personagens.

Um dos grandes feitos do livro, além da desconstruída caracterização social da santa trindade, são seus diálogos questionadores e as emotivas passagens. Esse dois casos se tornaram outros pesares na produção. Os diálogos perdem sua intensidade e as respostas são apresentadas de forma “encurtada” e da maneira mais simplória possível, como se tivessem pressa para resolver os dilemas, ignorando a inteligência e reciprocidade do público. O mesmo acontece com as passagens emotivas, mas nesse caso o erro também vem de outros departamentos técnicos.

Não podemos afirmar que a direção de Stuart Hazeldine seja a mais adequada para a produção. Mesmo que tenhamos bons planos, em questão de posicionamento e pespectiva, sua inexperiência – pois só dirigiu um curta e um longa, segundo o IMDB – vem na forma como a narrativa visual é apresentada na tela e com falta de tato para conduzir seus atores à uma melhor desenvoltura cênica em movimentações e emoções. Escrevendo de uma maneira popular, faltou tesão, vontade de se contar a história com sua visão. A impressão que fica é que a produção é um telefilme e que precisou cortar e/ou abreviar suas passagens para caber na grade de uma emissora.

Nesse jogo de dominó, em que uma peça leva a outra ao chão, temos a montagem de William Steinkamp, influenciada principalmente pelo trabalho do diretor, e a fotografia de Declan Quinn que peca por ser bem feita demais ao ponto de não conseguir passar, nos momentos mais sombrios do protagonista, a intensidade necessária. Mas sua composição “celeste” é um verdadeiro banho de cor, transições e focos bem realizados. Outro ponto fraco na produção é a trilha original de Aaron Zigman, o que nos espanta, uma vez que ele tem ótimas composições em vários filmes conhecidos. Nesse caso suas original songs são agradáveis, com um bom tom dramático, mas que foram colocadas no filme para atenuar a emoção da cena que o próprio ator não conseguia passar. Isso fez com que torna-se melodramático e, por vezes, desnecessário. A produção esqueceu que o silencio aliado a mensagem do filme também poderia ser um gatilho emocional.

Outro ponto válido e implícito entre o que é bom e agradável e o que não funciona de maneira alguma é o departamento de arte. A paleta de cores é muito bem definida em unidade e em grupo. As colorações vão se modificando pelas situações e a seleção segregada entre o mundano e o sagrado feita de forma uniforme é bem colocada. Mas, jamais, poderemos deixar passar o figurino usado pela atriz brasileira Alice Braga. Ele é, possivelmente, uma das roupas mais mal feitas, de péssima estrutura de modelagem, sem charme ou persuasão visual alguma. Para uma personagem que representa a algo tão onírico como o julgamento pessoal, de longe, é uma das piores roupas vista nos últimos lançamentos.

Já que a citamos, a breve participação de Alice é neutra, sem grandes momentos e com a falta de um pouco mais de delicadeza em sua atuação. A presença de seu personagem levanta grandes questões e tem um ponto importante para Mark. Porém, se analisarmos bem, a direção e seu parceiro de cena, também não a ajudaram a desenvolver a cena confortavelmente. Outros dois atores que são desperdiçados pela breve presença são Avraham Aviv Alush e Sumire Matsuba, que ao contrário do que se esperava, as passagens e diálogos entre o protagonista e Yeshua e/ou com Sarayu  são como uma fruteira numa casa que quase ninguém come fruta. Está ali, funciona, está bonito, mas não sabem saborear.

Aproveitando a questão do sabor, que em consequência vem à mente o desgosto, o que dizer de Sam Worthington e sua interpretação de parede revestida de uma pintura apática, num bege sem graça, e sem emoção alguma?! A todo o momento ele parecia funcionar como um interruptor de liga e desliga, sem absorção emocional alguma. Talvez sua vertente seja os filmes de ação e aventura que não necessariamente irão requerer do ator grandes cenas de emoção. Mas, se ele realmente quer emplacar um drama e ser real, palpável e emocionar as pessoas de verdade, ele precisa urgentemente voltar a estudar atuação e fazer uma reciclagem de interpretação para não ficar forçado na tela.

Mas graças à Deus, ou graças a representação de Deus na história, temos a Octavia Spencer como o “Papai”. Com o personagem mega reduzido na adaptação, ela não só consegue roubar os holofotes, como também nos conquistar com sua presença. Existe aí um senso de ternura e cumplicidade entre a atriz e a trama, expressa de uma maneira tão genuína, tão bem explorada, que não conseguimos cogitar alguém para substitui-la. Nela há o carisma, o amor e uma singularidade pessoal que, agregada à sua representação de Deus, faz com que o filme mereça ser considerado e visto. Vale também pela pequena Amélie Eve e toda a sua graça sendo a pequena Missy.

Se você desconsiderar as questões técnicas, “A Cabana” é um filme agradável. Mas como não é o nosso caso, infelizmente, ele não consegue superar as expectativas. O sistema de evangelização imposto na produção faz o longa ficar maçante, sem a real representatividade nas intenções, tornando-o um enlatado sobre a fé. Embora tenhamos uma representação lúdica de figuras citadas na bíblia, o livro que não é sobre uma crença/religião específica, o que o faz ser uma ótima leitura de ficção para “descrentes”. “The Shack” foge dos padrões e das doutrinas religiosas. Já o filme nos prega a religiosidade dos personagens com a necessidade de ir à igreja “louvar ao Senhor”, quando na verdade, originalmente, a fé deles, nessa lúdica representação, é superior á uma celebração dentro de um imóvel.

O livro é sobre o poder que você exerce em si e nas pessoas ao seu redor, na maneira que você lida com as situações e o que o amor – que podemos dizer ser a representação máxima da incógnita energética que é Deus – é capaz de fazer por nós. Não compara-los é quase impossível. Então, se você leu o livro mais de uma vez e lembra os detalhes provavelmente se sentirá decepcionado. Se você leu somente uma vez, talvez não se sinta assim. Agora, se nunca o leu, ele pode te tocar ou ser só mais um filme evangélico. O que não deveria ser.

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