Quando a confiança é o elo da comunicação

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“Se falares a um homem numa linguagem que ele compreenda, a sua mensagem entra na sua cabeça. Se lhe falares na sua própria linguagem, a sua mensagem atinge diretamente o coração.” (Nelson Mandela)

“Humano!” – Palavra essa que, teoricamente, nos define. Entretanto, as características que circundam a mesma não podem ser relacionadas à todos. Fazer parte de uma espécie não nos torna “humano”, o segredo se encontra em nossas atitudes, pois somos seres como qualquer outro, passíveis de atos irracionais e/ou comportamentos tomados pela emoção que subjuga de maneira errada determinadas conjunturas. Certos acontecimentos  são viscerais que chegam a desafiar a própria razão, fazendo-nos refletir sobre o que nos torna um verdadeiro “humano”. – Em momentos como esses, percebemos que a comunicação é a base principal para toda relação, bem como a construção primária para uma sociedade íntegra e mais compreensiva. O fato de prestarmos atenção em detalhes como esses nos torna mais sensatos diante tantos erros cometidos diariamente.

A partir de cenas simples, filosóficas, políticas, ou àquelas desenvolvidas com o melhor que a tecnologia possa proporcionar, o cinema sempre esteve um passo a frente da humanidade (Engraçado dizer isso, uma fez que o mesmo foi criado por essa), esclarecendo as mais complicadas situações e proporcionando motivações que essa insiste em não compreender. Adotar a facilidade da vida com receio do que o novo possa originar, talvez seja um dos maiores erros das pessoas. Precisamos encarar nossos conflitos e medos para podermos revirar as situações mais conturbadas, ou então seremos devorados pelos nossos próprios demônios, ou melhor conceituando: nossa própria ignorância.

O filme “A Chegada”, dirigido por Denis Villeneuve, aborda um pouco disso tudo e exprime a mais alta filosofia utilizando uma linguagem racional, mesmo que inimaginável para muitos. Embora o enredo aproxime uma mudança que acontece no universo, o mote principal é sobre o poder que a comunicação exerce sobre todos nós, determinando o caminho que podemos, ou não, seguir a partir de nossas escolhas de linguagem e interpretação das palavras. – Esse é o ponto em que lembramos de famosa frase que ouvimos no decorrer da vida: “Aprender a interpretar o texto é algo essencial”. – Essa essencialidade é retratada com sutileza na história que mostra a chegada de diversos objetos não identificados em lugares variados do globo. A situação gera um alerta geral no mundo inteiro e o governo americano, ao tentar fazer o primeira contato com os extraterrestres, percebe que precisaria de alguém mais experiente para ampliar o processo de comunicação com os mesmos. É nesse nesse instante que eles convidam uma experiente linguísta e um físico para o trabalho. A primeira vista, os dois acabam ficando com certo medo da aproximação, mas um deles percebe que a confiança é o alicerce para o diálogo.14585658_1598032537157821_1107586706_oExtremamente bem realizada, a produção é um primor. E não digo isso somente em relação a grandiosidade do filme, mas sim a beleza presente em todo o conteúdo. Envolvendo nomes como Shaw Levy e Glen Basner, entre os quase quinze profissionais que fazem parte da mesma, o filme não retrata apenas mais uma história sobre extraterrestres (Ou Heptapods, como são chamados) mas, sim, usa dessa como modelo para um possível diálogo entre a sociedades, abertura qual poderia evitar uma infinidade de guerras desnecessárias.

Muito bem escrito por Eric Heisserer, o roteiro baseado no livro “Story of Your Life” escrito por Ted Chiang, consegue sem muitos apetrechos impactar o espectador a partir dos primeiros 30 minutos de história. Digo isso pelo fato do roteirista, nessa primeira parte, ter deixado a história se arrastar um pouco, entretanto a mesma não impede a fluidez da trama que ganha força total e deslancha sem problemas até o fim. Concentrada totalmente no poder dos diálogos e nas personagens que representam a decisão de uma nação, a construção da história foi muito bem elaborada para tornar o produto crível, mesmo envolvendo aspectos de ficção científica.

A direção de Denis Villeneuve, o maestro por traz de “Incêndios”, “O Homem Duplicado” e “Sicário”, é genial. Com uso de planos abertos que convergem com inteligência para outros mais fechados, ele se comunica com o espectador abrindo um espaço para o psicológico e o emocional se encontrarem sem muita adversidade. Com um edição não-linear manipulada pelo parceiro Joe Walker, Villeneuve dialoga através de ângulos e movimentos de câmera de uma forma espetacular, sem abusar do CGI, fazendo o espectador refletir após uma explosão de imagens muito bem costuradas.

A belíssima fotografia de Bradford Young, responsável por “Selma”, é um achado. O peso de poucos grandes filmes no currículo, não impediu o americano de brincar com a iluminação e poder criar uma atmosfera sufocante e obscura, mesmo utilizando-se de tons claros e cores quentes. O fotógrafo não deixa em nenhum momento o seu trabalho cair no mais do mesmo que impera em filmes do gênero, levando a obra para um lado mais dramático, com um posicionamento mais natural do que qualquer outra coisa.300234-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxO elenco principal é quase todo formado por estrelas, entre elas ganhadores do Oscar. A frente se encontra Amy Adams, como Louise, em um trabalho simplório, quase introspectivo, porém confiável e que funciona perfeitamente para sua personagem. Jeremy Renner vem em seguida com um ótimo papel, porém o mesmo oferece uma atuação mediana e bastante repetitiva, se compararmos com outros de seus trabalhos. Já Forester Whitaker está bem como coadjuvante dos dois, mostrando muito mais competência do que Renner em sua atuação.

O figurino de Renée April, outra parceira do diretor, é simples e objetivo, evitando qualquer excesso na produção. O mesmo acontece com o serviço desenvolvido pela direção de arte de Paul Hotte e André Valade, que conseguiram inovar em todos os termos, principalmente em relação ao cenário do interior da nave, que aparece de forma clean, todavia repleto de detalhes substanciais.

Um dos grandes méritos do filme, e talvez um dos trabalhos mais excepcionais dos últimos anos, deve-se ao espectacular desempenho de todo o departamento de som e a trilha sonora criada por Jóhann Jóhannsson. Juntos eles desenvolveram uma nova linguagem, que plana com uma força extraordinária, agindo de forma imprevisível entre cada uma das músicas e a mixagem.

Embora não seja o melhor filme do ano até o momento, “A Chegada” não deixa de ser uma obra prima e importante candidato ao Oscar 2017. O trabalho chega não só como apenas mais um filme, mas um produto que questiona o mundo e mede a compaixão de uns pelos outros. – O filme só estreia em fevereiro aqui no Brasil, mas antes disso chega aos cinemas americanos. No momento o mesmo está rodando alguns festivais pelo mundo, tendo passado por aqui na noite de abertura do “Festival do Rio”.


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Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é um brazuca que parle français e roda uns filmes por aí. Apaixonado pelos universos da escrita e da atuação, tem um caso com o teatro e morre de amores pelo cinema. Fotógrafo e crítico nas horas vagas, gosta de cozinhar, apreciar um bom vinho e trocar ideias interessantes.

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1 thought on “Crítica: A Chegada

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