Defender ou não Molly Bloom, a “princesa do pôquer”? Esse dilema, expresso pelo advogado Charlie Jaffey (Idris Elba) em “A Grande Jogada” (Molly’s Game, 2017), talvez reflita uma hesitação do próprio cineasta Aaron Sorkin. Após destacar-se no roteiro de obras como “A Rede Social” (The Social Network, 2010) e “O Homem que Mudou o Jogo” (Moneyball, 2011), o autor recebia o convite para assumir pela primeira vez a direção de um longa-metragem. Diante da insistência de Bloom, ele superou a desconfiança em torno da personagem e aceitou contar sua história. Da mesma forma, Jaffey, uma espécie de alter ego de Sorkin, consentiu em representar a empresária no tribunal. Em comum, o diretor real e o advogado fictício, depois de conhecerem a “princesa do pôquer” e lerem sua autobiografia, conseguiram perceber o que há de heróico em uma figura aparentemente avessa a essa atribuição.

Filha de um severo psicólogo (Kevin Costner), Molly (Jessica Chastain) cresceu em um ambiente marcado pela competitividade. Após sofrer um grave acidente enquanto esquiava, contudo, resolveu afastar-se temporariamente do esporte e dos estudos. Mudou-se, então, para Los Angeles, onde conheceu o produtor Dean Keith (Jeremy Strong). Trabalhando como sua assistente, começou a coordenar jogatinas entre figurões de Hollywood – entre eles, o Jogador X (Michael Cera), cuja identidade permanece secreta durante a narrativa. O negócio cresceu, e pouco tempo depois, ela já organizava mesas próprias em Nova Iorque, as mais exclusivas do mundo. Sua popularidade chamou a atenção do FBI, e Bloom tornou-se alvo de investigações.

Aaron Sorkin, um especialista em adaptações cinematográficas, não se limita à literalidade dos acontecimentos mencionados. Em vez disso, usa-os em seu favor para construir discursos mais universais. O pôquer, dessa forma, assume valor simbólico na vida de Molly. Não se trata, para a empresária, de apenas um jogo, mas da possibilidade de frequentar lugares antes inacessíveis. Mais que frequentar, na verdade, ela os ocupa. E justamente por se destacar nesses espaços predominantemente masculinos, torna-se uma heroína improvável.

Protagonista de sua história, Molly toma conta do filme. Um dos principais indicativos de sua onipresença, a incessante narração em voice over conduz o espectador ao longo dos 140 minutos. Muitas vezes empregado no cinema para substituir ou repetir as imagens, o recurso recebe, porém, outro tratamento nas mãos de Sorkin. A partir de seu engenhoso texto, o dito e o mostrado ressignificam-se mutuamente e criam uma complexa e autoconsciente personagem. Chastain, em mais uma sólida interpretação, é a chave final para a construção de uma figura rica em contradições.

Além do já conhecido roteirista de primeira linha, Aaron Sorkin revela-se também um habilidoso diretor. Com a agilidade de David Fincher (A Rede Social) e a profundidade de Bennett Miller (O Homem que Mudou o Jogo), transita entre as diferentes temporalidades de seu enredo enquanto extrai o melhor de seus atores. Sob seu comando, a criativa montagem do trio formado pelos experientes editores Alan Baumgarten (Trapaça), Elliot Graham (Milk: A Voz da Igualdade) e Josh Schaeffer (Círculo de Fogo: A Revolta) destaca-se por manter uma intensidade constante e buscar interessantes soluções. Entre elas, por exemplo, inserções documentais contextualizam os acontecimentos, ao passo que alguns truques ajudam a elucidar termos técnicos dos esportes.

Indicado pela terceira vez ao Oscar de melhor roteiro adaptado, Sorkin, por fim, reafirma-se como um dos maiores especialistas em sua função. Mais que isso, entretanto, sua aguardada estreia por trás das câmeras confirma seu potencial para explorar a nova área. Não há, por ora, como saber se “A Grande Jogada” representa uma aventura passageira ou o início de uma promissora carreira. Algo, contudo, é certo: deixará muitos ansiosos para o próximo capítulo.

*O filme estreia dia 22, quinta-feira.

 


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Luiz Baez

Carioca de 24 anos. Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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