Crítica: Adeus à Noite

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Nos últimos anos, o mundo ocidental acompanhou com perplexidade os inúmeros ataques terroristas cometidos em suas terras. O grupo Estado Islâmico foi o maior culpado por esses ataques e virou o grande inimigo da humanidade. Séries de TV e filmes de Hollywood usaram os extremistas como os vilões de suas histórias, enquanto os heróis americanos os combatiam. No entanto, o que se via no mundo real era a conversão dos próprios europeus e norte-americanos a um Islamismo deturpado, que os fazia ir contra suas próprias nações.

A migração de pessoas de países ditos desenvolvidos para o oriente médio a fim de se tornarem guerrilheiros defensores do Islã virou uma espécie de epidemia. E é só por isso que todos realmente ficaram preocupados.  Se as ações do Estado Islâmico tivessem ficado limitadas ao Oriente Médio, dificilmente o primeiro mundo daria a atenção necessária.  Agora, quando filhos e filhas ocidentais viram terroristas, é preciso entender de onde vem a ameaça e combatê-la. Em “Adeus à Noite”, André Téchiné tenta refletir acerca do problema, contando a história de um jovem francês que é aliciado por um desses grupos.

O jovem em questão é Alex (Kacey Mottet Klein), que conhece o Alcorão por meio da namorada Lila (Oulaya Amamra). Ele se converte e acaba se juntando a um grupo de franceses que pretende ir até a Síria. Alex perdeu a mãe e não tem contato com o pai, o que o faz ser criado pela avó Muriel (Catherine Deneuve). Muriel é proprietária de uma fazenda de plantação de cerejas e que oferece aulas de equitação. Será exatamente a avó o obstáculo para os planos de Alex, que tentará usar as posses da mulher para financiar a viagem e até para comprar armas.

É interessante o embate a partir do momento que Muriel descobre as intenções do neto. As diferenças entre gerações são evidenciadas no inicio do primeiro ato, quando os personagens acompanham um eclipse solar. Enquanto a avó olha diretamente para o eclipse, enfrentando a escuridão de frente – mesmo com o perigo de perder a visão – Alex e Lila o acompanham online. A falta de comunicação com o mundo real do casal é a porta de entrada para as ideias radicais que pregam o ódio. A desconexão em relação ao concreto fica clara quando, mesmo sendo muçulmanos, Alex e Lila dizem nunca terem frequentado uma mesquita. Tudo que aprenderam sobre a religião foi através de fontes obscuras da internet. É a constatação de uma interpretação sem qualquer base real nos ensinamentos do alcorão.De fato, Alex se afastou da realidade, assim como o fez com a terra onde nasceu. A fazenda não é mais palpável como era na infância. Sua chegada já é arrasadora ao coincidir com a destruição de uma cerejeira por um porco do mato invasor. Para o porco, será preciso construir uma cerca. Para Alex, Muriel usa o celeiro como prisão. A Cerca é necessária frente à invasão de animais selvagens, garantindo o florescer da cerejeira e mantendo sua beleza deslumbrante até a colheita de seus abundantes frutos. A juventude é como a árvore, e só pode ser salva ao impedir que invasores malévolos a consuma de fora para dentro. O celeiro, infelizmente, é apenas um paliativo e não uma solução.

A beleza da juventude precisa ser cultivada com cuidado, já que, do contrário, pode adoecer, murchar e morrer.  A sensibilidade e sabedoria da avó vão ser primordiais para salvar o neto dessa morte antecipada, mas não será uma tarefa fácil, e Téchiné evidencia isso enquadrando os dois em oposição. Geralmente dividindo-os por meio de objetos de cena, como mesas e portas, ou simplesmente colocando cada um em um extremo do plano. Como em uma guerra ideológica, a mulher já no final da vida tentará salvar aquele que representa uma geração que parece perdida em reconhecer o que é certo e errado.

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