“Segador” é o primeiro livro de Drak, lançado em junho pela Editora Lograr 

Sob o pseudônimo de Drak, Kênia Costa Pereira apresenta seu primeiro livro na Bienal do Livro 2019. “Segador” conta uma história envolvente e misteriosa e tem como protagonista um ser mitológico brasileiro. Confira a entrevista a seguir:

Amanda Moura – O “Segador tem como protagonista um ser mitológico brasileiro. De onde veio a inspiração para a criação dessa história?

Drak – Na realidade, “Segador” surgiu de uma sede, um ímpeto muito grande que tenho, aliás, sempre tive, de valorizar o nosso país. Tenho muito costume de ler sobre literatura, enfim, autores estrangeiros com uma perspectiva mais sombria, mais adulta e séria em relação aos problemas locais e aos dramas pessoais. Entretanto, não percebemos isso aqui utilizando a nossa mitologia. Eu não vejo uma história madura ou adulta de um Caipora, de um Saci Pererê, de uma Iara. Ou encontramos uma coisa mais lúdica, infantilizada ou então a lenda crua. Isso me faz falta, porque acho nossa cultura tão rica, nosso país tão fantástico, que acho o cúmulo do absurdo ninguém desenvolver isso. E foi por essa sede, essa necessidade de ler sobre o meu país, sobre a minha cultura que decidi lançar “Segador“.

A. M. – O subtítulo “você é realmente como as pessoas te enxergam?” sugere uma relação de imagem e autoimagem. Qual a importância desse tema para você?

D. – Para mim é fundamental. Principalmente nesse primeiro livro, que aborda exatamente o surgimento desse ser na sociedade. Meu livro é muito crítico, não é simplesmente contar a história como um todo. Essa abordagem “você é realmente como as pessoas te enxergam?” vai muito para o intelecto pessoal. O próprio personagem, por ser mítico e folclórico, tem a sua metamorfose embasada em como as pessoas o enxergam. E ele não tem controle sobre isso. Isso é, claramente, uma analogia com todo o contexto social que vivemos hoje: como as pessoas te enxergam? Você é uma pessoa centrada? Adulta? Rico ou pobre? Você é negro, branco, indígena, asiático?

A partir dessa perspectiva eu quis brincar com o misticismo, porque na sociedade atual, não apenas no Brasil mas no mundo inteiro, o preconceito é muito enraizado. É do ser humano, então ele lida o tempo todo com seres humanos, e cada um o enxerga de uma forma diferente. E é exatamente assim que nós, seres humanos, especialmente os das minorias sociais, somos vistos. Cada um enxerga a gente do jeito que bem entende e tira suas próprias conclusões.

A. M. – Adoraríamos ver mais dessa história. Há planos para um segundo volume ou uma série de livros?

D. – Sim, há planos para a sequencia e para uma série de livros. Inclusive já finalizei a segunda parte da história. O meu ideal, meu propósito é trabalhar toda a cultura nacional. E mesmo que o nosso foco seja trabalhar a cultura brasileira, isso não significa impedir que outras culturas também sejam abordadas. Mas, pelos seres, pela cultura e pelo folclore da gente ser abordado com ênfase, os protagonistas serão sempre brasileiros, pois nós sabemos que nossa cultura é gigantesca! Temos várias histórias, muita coisa a ser contada ainda.

Imagem: Divulgação/Bienal Internacional do Livro (Crédito: Woo! Magazine/Amanda Moura)

A. M. – Seu nome de batismo é Kenia Costa Pereira. Porque o pseudônimo Drak?

D. – Eu jogo muitos jogos online. Faço parte de um grupo maravilhoso, onde conheci duas amigas sensacionais, que me adotaram por esse pseudônimo. O meu nickname é “Dark Girl Kenia” e numa brincadeira interna, a gente acabou reduzindo para “dark” que acabou virando “Drak”. Eu olhei esse nome tão conciso, tão completo e acho que ele diz exatamente o que sou. Essa contrariedade absurda, essa metamorfose ambulante. Uma presença muito forte e com muita coisa para falar, sabe?

A. M. – Além da escrita, você se dedica à outras atividades?

D. – Sim, eu trabalho como tatuadora. Aliás, eu amo a minha profissão. Muitas pessoas acham que isso é um hobby, mas não é, eu vivo disso. Mas eu tenho hobby mesmo, que é trabalhar com artesanato. Então de vez em quando eu pinto um quadro, transformo algum móvel que encontro na rua, costuro uma peça de roupa. A arte está tão enraizada em mim porque cresci num seio familiar onde todas as mulheres que me criaram são artistas.  Isso me motiva, me impulsiona. Atualmente, convivo com mulheres artistas seja na parte textual, seja na parte artesanal, seja na parte jornalística… Então eu tenho presenças muito firmes, muito vívidas. E eu tenho um orgulho do caramba de todas essas amigas que me inspiram tanto nessa caminhada.

A. M. – E como é ser mulher, mãe e empreendedora? Você se sente empoderada?

D. – Sim. Me sinto principalmente por estar rodeada por mulheres magníficas e esplêndidas. Eu sinto tanta força vindo de cada uma delas, que isso me motiva a seguir sempre mais. Hoje em dia vemos como tudo, todas as políticas estão trabalhando para denegrir, rebaixar, desmotivar não somente as mulheres, mas as minorias em si. Além disso, como as sufragistas de outrora, a mulher dos dias atuais está muito mais forte, mais firme. E por mais pancadas que a gente leve da vida, do destino, a gente sempre dá a volta por cima. Portanto, sim, me sinto muito empoderada, feminista. Ao contrário do que chamam feminazi, eu luto pelo direito de ir, vir fazer e acontecer. E respeito quem opta por não fazer isso. Essa é a base do feminismo.

A Bienal do Internacional do livro está acontecendo no Riocentro até o dia 08 de setembro, ainda dá tempo de você conferir esse lançamento de Drak, entre outros e muitas atrações.