De uns tempos pra cá, tem se escutado muito sobre “American Crime Story”. Vencedora do Globo de Ouro, do Emmy (2016) e do SAG Awards, a criação de Ryan Murphy já pode ser assistida na netflix, e ao alcançar o streaming certamente alcançará um novo público. A trama, que é verdadeira, também abre espaço para uma longa e necessária conversa sobre racismo nos Estados Unidos.

ATENÇÃO: Essa crítica contém spoilers. 

A primeira temporada, intitulada “The People vs. O. J. Simpson”, conta a história do jogador de futebol americano O. J. Simpson que em 1994, foi acusado de assassinar Nicole Brown Simpson, sua ex mulher, e o amigo dela Ronald Goldman. O julgamento, que durou em torno de um ano, declarou Simpson como inocente. O caso do jogador foi um dos julgamentos mais acompanhados da história e também levantou questões como o racismo da polícia norte americana.

Uma vez que é uma história real, alguns pontos precisam ser observados: a trama vai muito além do julgamento de O. J. e aborda de maneira machista e racista como foi todo esse processo. Em uma narrativa um pouco lenta, principalmente pra quem não tem muita paciência de acompanhar cenas que se passam em tribunais, pode ser cansativo esperar o veredito final inocentar o jogador. Uma vez que, fica claro que ele é culpado, e a produção não se preocupa nem um pouco em deixar isso implícito. As acusações são bem diretas. Fato é que, na época, a polícia de Los Angeles tinha um histórico de agressões verbais e físicas de cunho preconceituoso e, durante o julgamento, isso é exposto servindo de argumento para a defesa considerar a acusação à Simpson de caráter racista e não machista, como foi o foco principal defendido pela promotora Marcia Clark. Nicole Simpson tinha três registros abertos contra o ex-marido por agressão física.

Na trama, O. J. Simpson é interpretado por Cuba Gooding Jr (“Acampamento do Papai”), que faz um excelente trabalho com seus grandes parceiros de cena. Entre eles, na defesa do jogador, John Travolta (“Pulp Fiction”) no papel do advogado Robert Shapiro e Courtney. B. Vance (“The Closer”) como o advogado Johnnie Cochran. Na acusação, a atriz Sarah Paulson (“American Horror Story”) e Sterling K. Brown (“This Is Us”) assumem os papéis da promotora Marcia Clark e do advogado Christopher Darden. Nesse processo, também temos o começo do sucesso da família Kardashian, uma vez que Robert Kardashian e Simpson eram muito amigos. Na trama, ele é interpretado pelo ator David Schwimmer (“Friends”).

O cast, escolhido por Nicole Abellera e Jeanne McCarthy é o que, logo no início, chama atenção. A semelhança dos atores com seus personagens não passa despercebida e foi uma boa jogada para associar e ter mais entendimento da situação apresentada pela série. Contudo, alguns atores não lembram em nada seus personagens, é o caso de John Travolta.Cuba Gooding Jr. compõe um excelente O. J. Simpson, frio, manipulador e que consegue criar o benefício da dúvida para si mesmo. Sarah Paulson também faz um bom trabalho, bem diferente do que fazia em “American Horror Story”. Aqui, ela fortalece sua personalidade como Marcia Clark e por diversas vezes bate de frente com os advogados machistas da defesa. O único ponto, porém, é a total falta de química da atriz com Sterling K. Brown, o casal acontece mas não causa nenhum impacto.

David Schwimmer e John Travolta, que são nomes de peso no elenco e que deveriam chamar o público para a série, não surpreendem. Travolta assusta fisicamente, algo aconteceu ao seu rosto e não foi apenas a velhice. Infelizmente a aparência do ator deixa de lado toda sua atuação porque não é uma situação capaz de ser ignorada. No caso de Schwimmer, ele parece não estar presente na série, sempre mais devagar do que o resto do elenco e com uma passividade que não é cabível no momento de tanto alvoroço. Courtney B. Vance, por sua vez, incomoda com seu debochado e malandro Johnnie Cochran, que a cada frase que lê, a faz com um timbre de cantor de jazz. Característica que é explorada tantas vezes que uma hora o espectador começa a querer que Cochran desista do processo.

Por fim, a série faz boas denúncias quanto aos temas citados, infelizmente também mostra que o machismo e o racismo, em 1994, não importavam tanto quanto hoje. O que, de certa forma, é bom, se considerarmos a evolução da sociedade para o pensamento crítico. “American Crime Story: The People vs. O. J. Simpson” pode ser assistido na netflix.


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Júlia Cruz

Acredita ser uma criação do Projeto Leda enquanto espera o Doutor com a sua Tardis. É apaixonada por cachorros, gosta de acender incensos, observar estátuas e tomar café. Descobriu que tudo é passível de crítica e desconstrói os enredos das mais de cem séries que já viu, para os leitores da Woo Magazine.

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