A tarefa de expandir universos ficcionais é sempre difícil, no mínimo. Manter a coerência, aprofundar personagens e temáticas com densidade é o norte que normalmente se dá, mas que muitas vezes não é alcançado. Mesmo em grandes franquias como Star Wars, questões como cronologia e o que era ou não canônico no universo foram bastante complicadas ao longo dos anos. Mais recentemente, foi o mundo mágico de J.K.Rowling que avançou dentro dessa proposta, para além do que a geração que cresceu com Harry Potter viu em tela e também na literatura. O foco, dentro dentro de tais spin-offs, não seria mais o jovem de óculos redondos e nem Hogwarts, tampouco se passaria dentro de nossa contemporaneidade.

Animais Fantásticos e Os Crimes de Grindelwald é o segundo capítulo dessa expansão realizada pela Warner Bros que, bem como seu antecessor, tem o universo como principal ponto forte. As ambientações, nomes de feitiços e design de produção fazem sentido perante o que já foi apresentado em Harry Potter, porém constituindo algo novo. Se passando na Inglaterra e na França, o longa pode abordar o cotidiano do mundo bruxo e passar perto do que antes era apenas tangenciado. Dessa forma, há um equilíbrio bem feito entre nostalgia e novidade, mesmo que a trilha sonora por vezes utilize de temas já consagrados por John Williams anos atrás. É, de certo modo, fórmula já utilizada com sucesso no primeiro filme da franquia e é reciclada aqui. O universo é, em si, excelente, mas será que ele sustenta uma longa-metragem sozinho?

O resultado é, consequentemente, conturbado. Aliás, temos um filme medíocre em um número considerável de aspectos. Em primeiro lugar, temos um roteiro inchado que acaba buscando soluções rocambolescas demais para problemas que poderiam ser simplificados, principalmente no terceiro ato. Esse se torna um problema ainda maior quando o que está em jogo em tela necessita de ligação emocional entre o público e os personagens, algo que não havia sido feito com muito esmero. Em verdade, grande parte dos personagens de Animais Fantásticos são fracos se compararmos a Harry Potter, e em grande parte a culpa é do roteiro, que inclusive entrega um protagonista fraco que pouco se desenvolve do primeiro filme até o fim do segundo. Há, além disso, alívios cômicos que não funcionam e reviravoltas nos arcos dramáticos de personagens secundários que não entendemos direito, tudo envolto por fan services sem pé e nem cabeça.

Animais Fantásticos e os Crimes de Grindelwald diverte e seguramente agradará os fãs. Por outro lado, não é a melhor introdução no universo mágico de J.K.Rowling para os que não o conhecem. Resta saber como, após esse filme, a franquia rumará, já que o próprio estúdio parece um tanto confuso para com sua criação. Até lá, talvez continuaremos nos questionando o motivo da mistura de duas premissas tão diferentes de si na mesma franquia. Por um lado, os arcos de Grindelwald e Dumbledore demonstram forte importância para o futuro e, de outro, Newt Scamander desponta como protagonista, mesmo não possuindo força para tal. É ingenuidade, provavelmente, não observar ganância por parte dos estúdios ainda que um divertido resultado seja entregue pelos realizadores.


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Mauro Machado

Ser envolto em camadas de sarcasmo e crises existenciais. Desde 1997 tentando entender o mundo que o cerca,e falhando nisso cada vez mais.

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1 thought on “Crítica: Animais Fantásticos e os Crimes de Grindelwald

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