Crítica: Anos 90

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“Muitas vezes, a gente acha que a nossa vida é pior. Mas, se você parar para se colocar no lugar do outro, você não trocaria de vida com ele.”

A câmera se posiciona em um corredor. Uma criança corre até deparar-se, agressivamente, contra uma parede. A força do impacto a derruba. Já entregue ao chão, o menino sofre, ainda, novos golpes. Desta vez, um adolescente o espanca. Ao fundo, vozes adultas, uma feminina e outra masculina, brigam entre si. Em meio ao caos, portanto, apresenta-se “Anos 90” (Mid90s, 2018), estreia de Jonah Hill na direção.

Stevie (Sunny Suljic), um garoto no início da puberdade, vive com o rebelde irmão, Ian (Lucas Hedges), e a mãe solteira, Dabney (Katherine Waterston), na Los Angeles dos anos 1990. A dinâmica dessa família rapidamente transparece em um jantar comemorativo. Ainda que maltratado, Stevie busca a aprovação do aniversariante Ian: escolhe, carinhosamente, um álbum de músicas para presenteá-lo. A mãe, por outro lado, cujos gritos ouviam-se mais cedo, acredita no sucesso de sua relação com Todd – uma participação especial do cineasta Harmony Korine.

Responsável por obras tão peculiares quanto “Vidas Sem Destino” (Gummo, 1997) e “Spring Breakers – Garotas Perigosas” (Spring Breakers, 2012), Korine tematiza, ao longo de sua carreira, uma certa disfuncionalidade entre a juventude estadunidense. De sua curtíssima aparição, então, pode-se depreender objetivo semelhante de Hill. Falta-lhe a ousadia estética, é verdade, mas a convergência temática é evidente.

O ambiente disfuncional de Stevie aproxima-o de outras singulares figuras: quatro jovens skatistas, reunidos para falar besteira e praticar manobras. Logo aceito e apelidado “Queimadinho”, o pequeno de bochechas rosadas encontra aí uma fuga para o seu sofrido cotidiano. Ruben (Gio Galicia), o primeiro amigo, sofre uma dupla violência: tanto a simbólica do preconceito contra hispânicos, quanto a física das surras promovidas pela mãe, viciada em drogas.

Já Porra-Louca (Olan Prenatt), assim apelidado por reagir com essa expressão a qualquer manobra, parece proceder de uma família abastada. Sua relação com o skate, por isso, trata muito mais de descontração que de esperança, como é o caso de Ray (Na-kel Smith). Líder do grupo, de outro modo, o jovem negro tenta superar, por meio do esporte, a trágica morte do irmão e lograr um improvável sucesso. Essas diferentes posturas evidenciam um acertado recorte do roteiro.

4ª Série (Ryder McLaughlin), cuja curiosa alcunha faz referência à sua idade mental, vem, por fim, de uma família muito pobre. Tão pobre que o pragmatismo da estabilidade financeira está em vias de esmagar o seu maior sonho: tornar-se cineasta. Às dificuldades impostas pela vida real, contudo, Jonah Hill responde com a ficção do cinema. As imagens de textura amadora do fotógrafo Christopher Blauvelt (“A Pé Ele Não Vai Longe”) e a irregular sobreposição de sons equivalem o verdadeiro filme “Anos 90” à obra fictícia “Anos 90, filmada metalinguisticamente em cena.

Se acerta em um tratamento audiovisual “caseiro”, Hill também emprega, no entanto, algumas técnicas mais convencionais. De Pixies a Morrissey, a trilha musical seleciona, entre artistas dos anos 1990, letras sobre um cotidiano de violência para ilustrar a realidade daqueles jovens. De todo modo, há uma reinvenção. Nas cenas de uma agressividade mais explícita – uma batida policial e uma briga de rua, por exemplo -, reduz-se a música e evita-se a espetacularização.

Anos 90″ é, enfim, um retrato de uma época – ainda recente – pelas lentes de um jovem – seja ele o próprio Hill, seja 4ª Série. Como tal, incorre, evidentemente, em alguns discursos questionáveis. Salva-se, porém, por sua honestidade: não é onisciente e nem pretende sê-lo; trata-se apenas de um filme “caseiro”.

* O filme estreia amanhã, dia 30, quinta-feira.


Imagens e Vídeo: Divulgação/Diamond Films

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