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Crítica

Crítica: Ar Sagrado

Usando a fé a favor do bom humor

Você já parou para pensar o quanto de dinheiro a igreja, independente da ramificação, já ganhou com a fé alheia? Já pensou o quanto as igrejas ainda ganham através da obcecada fé de seus cegos fieis? Pois é, assim como vocês pensaram agora, nós também pensamos enquanto escrevemos essa crítica e principalmente quando nos divertíamos assistindo “Ar Sagrado” (Holy Air / Hawa Moqaddas). O longa israelense marca a a volta do diretor Shady Srour após 12 anos do lançamento de seu debut.

O filme se inicia em um engarrafamento, onde o protagonista Adam (Shady Srour) está com sua esposa, Lamia (Laëtitia Eïdo). Dentro do carro ela conta que está gravida, mas que queria confirmar a notícia junto a ele e faz um exame de farmácia logo ali. O resultado acaba dando positivo. É esse um dos pontos de partida para que Adam comece a afundar ainda mais em sua crise existencial. Seu pai (Tarik Kopty) está internado com câncer na língua. Ele e seu sócio e amigo, desde os tempos em que faziam parte do Partido Comunista, vivem discutindo sobre a empresa e seus lucros, ou a falta deles no momento.

Por fim, há também o seu seu sonho de ser um exemplo de homem e empresário que nunca dá certo em nenhum de seus projetos. Nesse conjunto de acontecimentos, Adam se sente preso, em um grande engarrafamento pessoal. Vendo a necessidade de se ganhar mais dinheiro agora que será pai ele tem uma ideia surreal. Um dia, observando a quantidade de pessoas estrangeiras nas excursões do padre Roberto (Shmulik Calderon), que viajam até Israel por ser a “Terra Santa”, ele tem a brilhante ideia de vender o ar engarrafado. Uma garrafa de vidro vazia, mas cheia de ar sagrado de Israel. Na tentativa comercializar o ar respirado pela virgem Maria durante a anunciação da Terra Santa, ele acaba ganhando uma curiosa gama de aliados e oponentes.

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Escrito e dirigido por Shady Srour, o longa usa o cotidiano de seu protagonista para brincar com a situação do próprio país e sua sociedade. Sem receio algum, ele emprega o deboche ao seu favor e o usa para por o dedo em algumas feridas. A primeira é o quão absurdamente cara é ter um filho. A segunda é a constante disputa e ataques terrorista em Israel. A terceira é a presença da esposa de seu protagonista. Ela é sexualmente ativa e não tem problema algum em expor suas vontade e dizer em rede nacional a importância do orgasmo feminino. Contudo, o foco das críticas está na venda de objetos religiosos aprovados pela igreja. E a partir desse ultimo ele também questiona as ligações entre a religião e politicas publicas de turismo e mercado.

Sua direção é focada na repetição de planos com alterações de nuances dentro da cena, onde cabe ao espectador perceber essas mudanças. Tal fato pode ser facilmente reconhecido nas cenas da banheira. Sua direção alinhada com a direção de fotografia de Daniel Miller, entoa mudanças de iluminação para criar uma narrativa subliminar. A medida que as coisas vão acontecendo na trama, Srour costuma encontrar pontos focais para a execução dos planos. É a partir desse pontos que ele desenvolve as sequencias a fim de concluir a construção cênica. Vale ressaltar também as brincadeiras com o posicionamento da câmera com relação a ação. As cenas do elevador, a extraordinária briga no engarrafamento e a fanfarra são bons exemplos desse trabalho.

Dentro de tudo isso, tecnicamente podemos destacar dentro da fotografia, a predominância do amarelo em sua coloração e a iluminação focal indireta. A produção pautada nos tons neutros e terrais em contraponto as saturações das cores primárias e secundárias, principalmente o verde, nos dá inúmeras imagens de contemplação. Tais imagens também exaltam a existência de dois países. Um super desenvolvido com arranha-céus, rica, movimentada, assim como uma cidade mais simples e lincada a natureza local. As cenas onde o personagem sobre o Monte Precipício, par pegar o “ar sagrado” e podemos ouvir o vento fazendo barulho na garrafa é uma união primorosa entre a sensibilidade e a comédia.

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Com muita ironia e um humor leve, “Ar Sagrado” (Holy Air / Hawa Moqaddas), brinca com questões religiosas em Israel e ainda deixa aberto o debate para o público sobre a identidade de sua terra e seus conflitos. Despretensioso, o longa constrói sua graça através de mecanismos técnicos de fácil reconhecimento do público, sem esquecer da caricatura cômica. Depois de 12 anos sem lançar um filme, Shady Srour voltou em ótima forma e conquistando facilmente o público, ainda que ele possa ser restrito.

* Filme visto no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro 2017. Não há trailer com legendas em português e nem previsão de estreia no Brasil. 

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Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.

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