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Crítica: Ares (1ª temporada)

Ares da Netflix
Imagem: Divulgação/Netflix

Poster de Ares

A Netflix vem investindo em produções originais de séries para o público jovem. E algumas delas se tornaram muito populares, como “I’m not Okay With This”. Nessas séries, são exploradas diversas questões que fazem parte dessa fase de nossas vidas como amizade, amor, depressão, sexualidade, entre outras coisas. Contudo, a série de terror psicológico “Ares”, que tem um elenco predominantemente jovem, parece se distanciar desse padrão.

A primeira produção holandesa da Netflix chegou ao catálogo sem muita divulgação. “Ares” é uma série que acompanha a jovem universitária Rosa (a excelente Jade Olieberg), que leva uma vida muito difícil por dividir com o pai os cuidados de sua mãe, que tem problemas psiquiátricos. Ao encontrar o velho amigo Jacob (Tobias Kersloot), Rosa conhece a rica “fraternidade” que dá nome a série e que seu amigo está prestes a entrar. A partir desse contato, Rosa enxerga uma oportunidade de ascender socialmente. Aos poucos, a sociedade secreta que guarda segredos macabros desde a Era de Ouro da Holanda se mostra como realmente é.

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Primeiramente, um aviso: uma sequência de cenas muito pertubadoras fazem a abertura do primeiro episódio ao som da canção “Zing, vecht, huil, bid, lach, werk en bewonder” de Ramses Shaffy. Esse tom pertubador e violento estará presente em todos os oito curtos episódios da primeira temporada. Portanto, se você é sensível, essa série pode não é indicada para você.

Criada e produzida por Pieter Kuijpers e Sander van Meurs, “Ares” é uma produção competente. A fotografia aliada à trilha sonora opressora que cresce a cada momento chave da trama, torna a experiência envolvente e imersiva. Além disso, a direção de arte é outro grande destaque. Cada elemento em cena é luxuoso, tudo parece carregar uma simbologia. A paleta de cores usada nas roupas dá o tom de como funciona a Ares: predominam o azul e o preto num quase uniforme para os novatos, enquanto que para os cargos mais altos vemos branco, sépia e ternos pretos para os homens. Além disso, nos rituais, o presidente usa uma bela vestimenta dourada, representando a riqueza, que é o propósito máximo da sociedade.

Ares da Netflix

Imagem: Divulgação/Netflix

Além da excelente produção, outro ponto alto são as atuações. Todos os atores entregam um ótimo trabalho com o que foi dado à eles. Além dos protagonistas Jacob e Rosa, o grande destaque é, com toda certeza, a atriz Lisa Smit que interpreta a personagem Carmen, a filha de Maurits (Hans Kesting), antigo presidente da sociedade que faz parte da alta cúpula. Mas isso já era esperado, visto que a série reúne os jovens atores mais proeminentes da Holanda.

[A PARTIR DE AGORA, ESSA CRÍTICA PODERÁ CONTER SPOILERS]. Mas nem tudo é riqueza na série. Com o desenrolar dos eventos, entendemos que a Ares se alimenta de sentimentos negativos como cobiça, culpa, ganância. E para estimular esses sentimentos, os integrantes são submetidos a violentos rituais de passagem, quase sempre resultando em assassinatos e suicídios. E o roteiro não explora esses eventos com a profundidade e nem com o cuidado que deveria: como uma instituição centenária pratica tantos crimes sem ser descoberta? Para que tanta riqueza se eles praticamente vivem encarcerados dentro da Ares? Difícil entender isso.

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Outro ponto negativo é o desenvolvimento dos personagens. À exceção do trio Rosa, Jacob, e Carmen, outros personagens que desempenham funções importantes dentro da sociedade são simplesmente jogados na história, não nos é dado sequer um flashback de seu passado. Um exemplo disso, é a anciã acorrentada que parece controlar o local de alguma forma, mas não sabemos como e nem porque. Como resultado, o espectador não consegue se envolver com eles.

O último episódio traz de volta o vigor do primeiro. Já próximo ao final, uma bem construída cena volta ao tempo da Era de Ouro da Holanda, revelando quem de fato trouxe a prosperidade para Ares. E ainda que de forma bem sutil, são inseridas outras questões como o machismo e o racismo. O fechamento é acertado e responde porque Rosa é tão importante para a Ares, ainda que de forma não explícita, como já é padrão em produções europeias. Uma segunda temporada ainda não foi anunciada pela Netflix, mas esperamos ansiosamente pelo desdobramento dessa história.

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Bibliotecária, doutoranda em História das Ciências, e das Técnicas e Epistemologia. Apaixonada por cinema, séries e cultura em geral. Sem Os Goonies talvez não estivesse por aqui.

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