Crítica: Avenida

A porta entreaberta

Por mais que se evite pensar no assunto, a vida tem prazo de validade. Um dia acaba. Se não nos lembrarmos disso, há o risco de vivermos de modo aparentemente seguro, mas infeliz. “Avenida” fala exatamente sobre isso.

Nolan Mack (Robin Williams) é um homem pacato, casado, funcionário de um banco há quase 26 anos, que perdeu a mãe há pouco tempo e agora visita o pai doente numa casa para idosos. Tem um semblante melancólico permanente, transmitindo infelicidade e nos dando a sensação de que algo muito importante está faltando. É verdade. Nolan é gay. Sabe disso desde os doze anos, mas entrou num casamento heterossexual em que talvez seu sofrimento seja atenuado pelo fato de dormirem em camas separadas.

A mãe morta, o pai enfermo e o fato de já ter sessenta anos podem o ter levado a uma atitude mais arriscada: passar de carro numa avenida de prostituição e, depois de quase atropelar um garoto de programa, levá-lo para um hotel. Mas Nolan quer apenas conversar, olhar. Nada de sexo. Ele nem mesmo sabe o motivo.
A partir daí, Nolan passa a se comportar de forma apaixonada e busca repetidamente a companhia desse jovem, Leo (Roberto Aguire). A esposa Joy (Kathy Baker) percebe que há algo de diferente alterando a rotina do marido, mas sentimos que há um acordo tácito entre eles.

O roteiro de Douglas Soesbe proporcionou falas muito interessantes a essa personagem, que embora aparente ser compreensiva e não faça perguntas diretas, deixa claro que sabe que há mentiras. Em outro momento, a atriz também tem a oportunidade de mostrar, de forma mais contundente, a vulnerabilidade da personagem e a sua necessidade de viver uma farsa.
Roberto Aguire dá uma dimensão mais humana a Leo, fugindo dos estereótipos de um garoto de programa. Tem o olhar perdido de alguém que parece não conseguir vislumbrar nenhum futuro fora de uma vida à margem da sociedade. Bob Odenkirk é Winston, o melhor amigo de Nolan, que com uma personalidade mais expansiva e ácida faz ótimo contraponto para o protagonista.

Em mais de um momento a câmera acompanha Nolan dirigindo pelas ruas, sempre com uma expressão angustiada que não parece se alterar nem para mais nem para menos. A música usada nessas cenas aumenta a sensação de tristeza que permeia o filme. Embora famoso por atuações cômicas, Robin Williams tinha grande potencial para papéis dramáticos e introspectivos, como pode se ver também em “Retratos de uma obsessão“. Na época do lançamento de “Avenida”, seu último filme, o ator já havia morrido (suicidou-se onze meses antes) e muito foi comentado na época sobre até que ponto seria a depressão do ator que aparecia na tela, e não a do personagem. Mas fica a pergunta: se ele estivesse vivo, alguém faria esse tipo de pergunta? Até que ponto a crítica e o público se deixaram influenciar por esse fato?

Também foi muito questionado se nos tempos atuais alguém ficaria tanto tempo no armário. Ora, o ser humano e suas relações são de uma complexidade infinita. Pensando racionalmente, muito do comportamento humano não segue a lógica. Há situações mais inacreditáveis do que um homem de sessenta anos reprimindo sua homossexualidade, mesmo nos dias de hoje.

A ambientação dos locais que fazem parte do dia a dia de Nolan retrata bem a monotonia e a estagnação de sua vida: tons frios, apagados. A decoração de sua casa parece ser a mesma do primeiro ano de moradia.

“Avenida”, dirigido de forma competente e sensível por Dito Montiel, transmite muita tristeza, mas para quem não se importa com isso, vale a pena ver: queremos saber onde essa história vai parar e se Nolan vai se dar finalmente a chance de existir de verdade.


Neuza Rodrigues

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