Crítica: Baseado Em Fatos Reais

Dentre as muitas polêmicas que envolvem o mundo dos cinemas, uma das figuras mais notáveis e de maior repercussão é o do francês-polonês Roman Polanski. Inicialmente causando um impacto no cinema com seus suspenses atmosféricos como “Repulsa ao Sexo” (1965) e “O Bebê de Rosemary” (1968) a carreira do diretor sofreu um baque com uma acusação e condenação em um caso de pedofilia nos Estados Unidos. Desde então, foragido da justiça americana, Polanski lança filmes regularmente, produzidos na Europa entre pedidos de extradição e prisões domiciliares, e mesmo que alguns desses tenham sido bem sucedidos, nenhum conseguiu alcançar o status de seus antigos clássicos. Parece que é com essa mentalidade, de tentar reviver os seus thrillers psicológicos dos anos 60, que foi feito “Baseado em Fatos Reais”, porém, o longa tem tido uma recepção marcada pela indiferença.

Tendo como base o livro homônimo, escrito pela francesa Delphine de Vigan, a trama de “Baseado em Fatos Reais” é sobre a autora Delphine Dayrieux (Emmanuelle Seigner), que acabou de lançar um best-seller – ao que tudo indica, de autoficcção – e se encontra em um momento difícil, tanto no pessoal como no profissional. Com um bloqueio criativo e uma crescente ansiedade, a protagonista encontra um “porto seguro” em Elle (Eva Green), uma fã, e também escritora, que conhece em uma sessão de autógrafos. O relacionamento entre as duas começa como uma amizade normal, mas logo fica óbvio que o comportamento de Elle é obsessivo e abusivo quando ela passa a controlar a vida Delphine.

A história não é exatamente original, e poderia ser traduzida para a tela com uma direção precisa, porém, o trabalho de Polanski beira o mediano. No geral seu trabalho é adequado e apresenta bons momentos, como os close-ups que retratam a saúde mental duvidosa da protagonista, e a cena de introdução, que estabelece a personagem através dos depoimentos que seus fãs fazem ao receber seus autógrafos antes de Delphine aparecer propriamente em frente a câmera.

Porém, ao mesmo tempo em que acerta alguns detalhes técnicos, a direção erra no principal do longa, que é a sua atmosfera. O ritmo da produção é bem devagar, mas, ao contrário dos outros filmes do diretor, ele não compensa sua velocidade com uma tensão onipresente. Parece mais que Polanski não conseguiu decidir se faria um drama ou um suspense, e acabou produzindo um meio termo que não é nenhum dos dois.

O restante dos aspectos técnicos é semelhante: competentes em sua execução, mas sem graça em sua simplicidade. A fotografia de Pawel Edelman se mantém em tons pasteis, se aventurando um pouco em um território mais macabro no terceiro ato, mas não o suficiente. O mesmo pode ser dito da trilha sonora de Alexandre Desplat, que é responsável em construir a pouca tensão do filme, mas que não é nada memorável, principalmente considerando outros trabalhos recentes do compositor.

Essas características são compartilhadas também pelo roteiro, que após um começo forte, e um segundo ato decente, se perde em uma conclusão que parece uma versão mais entediante de “Louca Obsessão” (1991). Como esperado do estilo, o script apresenta uma reviravolta no final que pode deixar o longa mais interessante para quem não conseguir prevê-la anteriormente, tarefa que é facilitada por várias dicas nada sutis no decorrer da história.

Pelo menos Polanski teve o bom gosto de não terminar o filme com uma explicação detalhada e vários flashbacks, optando ao invés por um final em aberto. Essa liberdade à interpretação ressalta um dos melhores pontos do roteiro, que pode ter suas situações absurdas vistas como uma metáfora para a protagonista lidando com seu bloqueio criativo.

O que salva o longa de ser entediante, apesar de todos os pontos levantados, é a atuação de suas duas atrizes principais. Emmanuelle Seigner compõe bem uma personagem perturbada, deixando seu nervosismo transparecer cada vez mais ao longo da trama, enquanto Eva Green encarna perfeitamente uma mulher impulsiva e obsessiva, mas que esconde sua personalidade atrás de uma máscara amigável.

Por fim, o novo thriller de Polanski acaba não sendo muito empolgante, contendo alguns momentos bons em meio a uma avalanche de mediocridade. É um suspense muito abaixo do padrão que o próprio cineasta ajudou a estabelecer tantos anos antes, e apenas suas atrizes e uma técnica adequada – mas pedestre – o salvam de ser um desastre completo.

Crítica: Baseado Em Fatos Reais
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