Crítica: Boi Neon

boi-neon-posterFicha técnica – Boi Neon (2016)

Direção: Gabriel Mascaro

Roteiro: Gabriel Mascaro

Elenco: Juliano Cazarré, Maeve Jinkings, Alyne Santana…

Preparação Elenco: Fátima Toledo.

Sinopse: Nos bastidores das Vaquejadas; Iremar e um grupo de vaqueiros preparam os bois antes de soltá-los na arena.

A história gira em torno de Iremar, um vaqueiro nordestino que sonha em ser estilista, ao lado da caminhoneira Galega, a menina Cacá e seus colegas de comitiva que acompanham as vaquejadas cumprindo os afazeres. O longa inicia com uma cena de bois amontoados em uma tomada fechada que, não por menos, nos apresenta a realidade de todos os envolvidos. Fadados a conviver com os animais pro resto da vida sem alguma perspectiva de mudança ou evolução no que fazem.

Nota-se que o filme não tem uma estrutura clássica, jornada do herói ou um arco dramático das personagens, vemos apenas a vida daquelas pessoas e a acompanhamos deliberadamente até o ponto em que nos conectamos. Não espere algum acontecimento grandioso, uma reviravolta ou uma trama minuciosa. Boi Neon estuda suas personagens até o último detalhe.

É triste constatar que os sonhos de cada um nunca irão se realizar simplesmente por nascerem num local sem oportunidades. Agravando-se mais quando presenciamos Iremar pegar uma revista pornográfica gasta e com as páginas coladas para desenhar suas roupas no corpo, antes nu, das modelos. Facada maior ainda no nosso coração é quando vemos a menina Cacá, uma criança, desenhando um cavalo – animal no qual sonha ter – naquela mesma revista.

O diretor (Gabriel Mascaro) faz várias brincadeiras visuais com a representação do boi sendo a vida difícil que levam, sempre andando em uma única direção como mostra várias vezes durante a projeção. Além da ideia de Iremar não ver sua amiga Galega como algo a mais e sim apenas como uma irmã servindo de modelo para tirar as medidas de sua próxima criação. Sendo representado por uma sequencia maravilhosa onde ela aparece insinuando posições sexuais, mas nem Galega nem Iremar trocam olhares mais calorosos ou demonstram atração.

Os atores estão excelentes em seus papéis. Juliano Cazarré faz um Iremar totalmente focado e concentrado não importando se o que está fazendo é desenhando roupas ou trabalhando com os animais. Inclusive agindo com uma naturalidade impressionante ao limpar bosta de boi com as mãos, mostrando assim como a persona é centrado na sua vida. Maeve Jinkings consegue nos mostrar toda a dureza da caminhoneira Galega sem tirar a feminilidade que a personagem preza em demonstrar. Alyne Santana constrói Cacá agindo com a naturalidade de uma criança acostumada com uma vida simples, porém, carrega esperança em seu olhar ao falar sobre cavalos (seu grande sonho). Os atores de apoio também estão excelentes para todo o processo de construção narrativa, com certeza esse é mais um dos belos trabalhos de Fátima Toledo.

Se Iremar é a personagem principal, Galega e Cacá acabam ficando com menos cenas, mas nenhuma sem algo a contar. Galega por ser caminhoneira é vista como alguém forte, mas como a cultura machista impera, eles não a veem como mulher “de verdade”. O diretor, acertadamente, trabalha com isso na cena que a exibe se depilando no banco do caminhão em uma posição desconfortável para representar a dificuldade enfrentada por estar em uma profissão majoritariamente masculina, porém, preocupando-se com o corpo e sua sexualidade.

Cacá por sua vez aparece precisamente sendo coadjuvante em todas as cenas, quase que literalmente uma criança sendo jogada para escanteio por viver em um ambiente sem a menor possibilidade de evoluir ou conquistar seus sonhos. Uma das poucas cenas que protagoniza tem uma beleza poética melancólica. Ao constatar que seu futuro está fadado a ser igual o de sua mãe e Iremar, Mascaro nos dá um golpe mostrando Cacá pendendo um cavalo “alado”, representando seu sonho, entre os bois presos e abarrotados. Sonho esse que nunca sairá daquela realidade.

Por fim, não gosto de classificar arte e nem mesmo compará-las, pois cada obra deve ser analisada com o que propôs passar e sua realidade. Mas após assistir Boi Neon é inegável não falar que o único filme desse ano que pode chegar perto de sua tamanha sensibilidade é Anomalisa. Igualmente triste e genial, Mascaro ainda nos entrega à cena em que um boi é pintado com tinta neon verde, mas mesmo assim continua sendo o animal que puxado pelo rabo cai na arena. Da mesma forma que a vida de Iremar, Cacá, Galega e milhares de outros brasileiros nunca irá mudar.

Por Will Bongiolo

Crítica: Boi Neon
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