Crítica: Em Um Mundo Interior

O autismo se define pela lógica da exclusão em relação aos seus semelhantes” explica um dos especialistas entrevistados para o documentário brasileiro “Em Um Mundo Interior”, dirigido pela dupla Mariana Pamplona e Flávio Frederico. É justamente essa realidade, a “lógica da exclusão” do cotidiano de crianças diagnosticadas com diferentes Transtornos do Espectro Autista, que os cineastas buscam retratar, mas com uma abordagem mais didática do que dramatizada.

O documentário segue o dia a dia de diversas famílias, a maioria de São Paulo, que possuem um filho autista, com idades que vão desde 3 até 18 anos. Com uma amostra variada o suficiente, o longa reconta todo o “processo” pelo quais seus entrevistados passaram, desde os primeiros sinais de algo fora do habitual no comportamento das crianças, até o diagnóstico e as suas dificuldades com o aprendizado e de interagir socialmente. Ao mesmo tempo em que isso é retratado, médicos, pais e educadores dão os seus depoimentos, explicando o que é o transtorno e como é a sua rotina lidando com quem sofre dele.

Como o propósito do filme parece ser mais informar do que refletir, a direção se mantém básica, naquele clássico estilo de documentário que intercala depoimentos com imagens ilustrativas e situações capturadas em câmera pelos cineastas. O toque da direção vem na escolhe das imagens que sobrepõem as entrevistas, que ilustram o que é falado tanto de modo literal quanto, às vezes, figurativamente, como é o caso de uma cena que a mãe diz que “desabou” ao descobrir a condição do filho, enquanto vemos a criança derrubar uma torre de blocos que construía.

Esse formato não é muito criativo, mas é eficiente. O longa, porém, não é ao todo desprovido de um estilo próprio, como exemplificado pela sua montagem de abertura, que passa os vídeos caseiros das famílias com um filtro preto e branco. A escolha de trilha sonora, porém, principalmente o uso de “Paciência”, do Lenine, é um tanto óbvio e apelativo demais.

Os diretores, ao registrar o cotidiano dessas famílias, tentam manter, na maior parte do tempo, uma atitude apenas observadora, para capturar o que seria a situação normal, sem interferências. Uma divergência notável é o pequeno “experimento” que fazem, no qual entregam uma câmera digital para cada criança, e veem o que ela faz com o objeto. Enquanto isso resulta em algumas boas imagens, a ideia parece não ter uma conclusão, com apenas uma cartela entrando e dizendo que “algumas crianças usaram a câmera, outras não”.

Outro ponto interessante da estrutura da produção é o modo como não segue uma linearidade e prefere misturar e mostrar um pouco de cada família representada por vez. Enquanto isso torna o filme mais dinâmico, também é um pouco mais difícil de acompanhar as suas histórias individuais, por mais que sejam memoráveis. “Não existe um  autista igual ao outro”, é o que um dos médicos diz, e isso é bem visível no longa, que é bem-sucedido em mostrar as peculiaridades de cada criança através de pequenos momentos, como uma menina que consegue ser alfabetizada ,apesar da opinião contrária dos especialistas, por causa de seu fascínio com o “Abecedário da Xuxa”.

Mesmo com seu tom informativo, o longa também fala brevemente sobre algumas temáticas importantes, como o peso que esse transtorno tem sobre os outros membros da família – em certo momento, uma mãe lamenta que “está perdendo o seu filho”, quando os sinais do autismo começaram a surgir – e sobre o despreparo da sociedade em lidar com as necessidades desses indivíduos, principalmente na falta de conhecimento sobre sua condição, tanto da rede de saúde pública quanto das instituições de ensino.

Em Um Mundo Interior” não é nenhuma inovação de forma, e nem pretende ser. O seu objetivo parece ser desmitificar o autismo, explicando o transtorno para seus telespectadores, tarefa que cumpre muito bem, ao mesmo tempo que é comovente o suficiente, sem parecer melodramático. É uma experiência recomendável.

 

Crítica: Em Um Mundo Interior
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