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CríticaFilmes

Crítica: Border

Rodrigo Chinchio
23 de março de 2019 3 Mins Read

54514694 2243808925679150 7546853263920857088 nO filme sueco “Border” (Na Fronteira) ganhou notoriedade por ter faturado o prêmio principal na mostra Un Certain Regard durante o Festival de Cannes. Esse prêmio é dado para produções que buscam linguagens diferentes ao contar uma história. A palavra “diferente” se aplica perfeitamente ao longa dirigido por Ali Abbasi, já que a trama se apoia na fantasia para mostrar a vida da troll Tina (Eva Melander) – que, de início, não sabe que é uma troll, apenas pensa ter uma mutação no DNA – vivendo no mundo dos humanos. Ela trabalha na fiscalização de fronteira marinha da Suécia. Por ser uma troll, consegue farejar as intenções das pessoas, ajudando a prender contrabandistas e até pedófilos que passam por ela durante os desembarques dos passageiros dos navios que chegam.

Em um dia comum de trabalho Tina conhece um homem muito parecido com ela fisicamente e os dois se atraem intensamente. O homem é Vore (Eero Milonoff), um nômade que irá revelar que ela não é humana e tentará ensiná-la tudo sobre o modo de vida dos trolls. A bizarrice de suas aparências causa repugnância ao espectador, principalmente nas cenas de sexo e quando se alimentam de vermes retirados das arvores. A estranheza, evidentemente, é proposital, para que a humanidade de cada um que vê aquelas cenas seja testada. Tina e Vore possuem uma ligação sensorial com a natureza e com os outros animais. Eles deitam nus na terra, tomam banho em um rio e transam brutalmente embaixo das árvores, praticamente uivando como lobos. Nesses momentos a natureza selvagem toma conta.

Ela, no entanto, cresceu no meio dos humanos, e se vê presa na fronteira entre as duas espécies. Escolher um lado não é fácil: em um há pedófilos e assassinos, no outro há a irracionalidade também sangrenta. Abbasi é bastante discreto em sua direção ao buscar planos naturalistas e geralmente estáticos. Mostra pouca violência gráfica, apesar das características de seus personagens. Cria com isso um ambiente aparentemente calmo e pacato, mas que esconde o perigo fora de vista. Há uma sensação de tensão durante a projeção, como se algo muito grave fosse acontecer a qualquer momento, o que eleva o interesse por cada cena.53499993 2243808899012486 6381952700388474880 oPor não se tratar de uma obra comercial, a montagem é econômica, cadenciando o tempo e proporcionando aos atores bons minutos para que mostrem seus talentos. Neste quesito, quem se destaca é Melander, por conseguir expressividade mesmo debaixo de muita maquiagem. Essa maquiagem que foi indicada ao Oscar por sua excelência, diga-se de passagem.

Por fim, é preciso dizer que “Border” infelizmente ficará relegado ao circuito dos filmes de arte e será discutido por poucas pessoas. É uma pena, já que se trata de um verdadeiro estudo sobre a humanidade e as consequências que alguns enfrentam por desviarem dela. A mensagem é clara: esconda o monstro bem no fundo de sua personalidade e deixe as pessoas julgarem o monstro que está do lado de fora, estampado em sua aparência. O que está escondido é o mais perigoso, podendo destruir todos que estão em volta.


Fotos e Vídeo: Divulgação/ Arteplex Distribuidora

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Cannes

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Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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